Lembrança de um outono paulistano.

Eu resolvi ir lá porque tudo lá me remetia a alegria e eu estava precisando dessa euforia noturna que apenas São Paulo era capaz de dar. Eu só queria viver o momento ao lado das pessoas que estavam comigo, cheia de pensamentos que eu não lembro mais, mas que tinham tudo a ver com a necessidade de aproveitar a vida bem longe das suas dores. O negócio era curtir.

Quando nos conhecemos naquela festa, próximo ao amanhecer sob o efeito de muitos drinks, você, tão eloquente no seu interesse, me levou para algum limbo tão existencial que só lembro de voltar a mim quando já estávamos nos beijando. Eu não senti êxtase, mas me senti bem. Eu dizia ter passado da fase de idealizar qualquer beijo na boca e, graças a Deus, naquele dia, não passou disso. Dois meses depois, numa manhã de domingo, de uma varanda qualquer do bairro Higienópolis, eu senti certeza: igual ao que eu estava sentindo ali não aconteceria novamente. Acho que você não entendeu e nem eu. Lá estava eu, me derretendo de amores, e o melhor é que você também estava. Você me olhava como se implorasse para o tempo congelar só para cristalizar o momento. Ficamos ali, paralisadas, nos olhando e dizendo nos amar. Confesso que, até hoje, quando penso neste dia, tudo me lembra a felicidade que eu sentia por estar exatamente onde eu estava. Chegou a hora de falar que eu fui feliz e sabia.

Naquela época, acontecia de, todas as vezes que eu precisava andar nas ruas de Belo Horizonte, eu me deparar com a sensação de que você passaria por mim, mesmo isso soando irreal, já que nunca moramos na mesma cidade. E você dizia sentir a mesma coisa.

Hoje, aqui, depois de tudo que nos separou, atravessada pelo tempo e ainda que sentindo o impacto das suas mudanças que não param de acontecer, eu te digo: há dias em que juro que seria capaz de viver tudo novamente. Depois desisto e finalizo dizendo que só pode ser nóia minha lembrar de alguém que eu já quis tanto que não tivesse existido, sempre nos momentos que mais doíam. Teve uma vez que eu chorei muito no banheiro do trabalho porque senti que você tinha começado a namorar outra pessoa. Eu senti a quilômetros de distância e, para a certeza da minha intuição, era verdade.

Agora já não é mais sobre você. Se ainda te revivo com uma certa nostalgia e, vez ou outra, me pego olhando nossas fotos na tentativa de entender o porquê não demos certo, é a loucura. É que eu acho que deveria existir alguém ou alguma instituição em que pudéssemos reivindicar nosso sofrimento e pedir explicações do porquê não merecíamos ou não podíamos ter um final romântico bem clichê. Talvez eu te deva desculpas pelas mensagens de aniversário em anos espaçados sem desenvolver qualquer assunto. A data eu não esqueço, mas você eu jurei que tivesse esquecido várias vezes.

E me perdoa também se, no dia 21 de Abril de 2014, eu escrevi um texto te desejando “feliz um ano de qualquer coisa”, e agora são quase oito anos de qualquer coisa e eu ainda lembro.



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