A saúde mental e o sistema capitalista


Há certas dificuldades ao colocar em pauta uma discussão de saúde mental. Diversos aspectos precisam ser levados em conta e o direcionamento pode se dar por diferentes caminhos, por exemplo: a saúde mental pode, ao mesmo tempo, ser usada como um motivo para deixar um emprego que lhe faz mal ou para justificar idas a […]


Há certas dificuldades ao colocar em pauta uma discussão de saúde mental. Diversos aspectos precisam ser levados em conta e o direcionamento pode se dar por diferentes caminhos, por exemplo: a saúde mental pode, ao mesmo tempo, ser usada como um motivo para deixar um emprego que lhe faz mal ou para justificar idas a festas em meio à pandemia de um vírus respiratório, contrariando todas as recomendações das instituições de saúde e colocando em risco as pessoas ao seu redor. Portanto é importante esclarecer: a discussão sobre saúde mental pretendida por este texto é sobre a saúde mental real, e não a utilizada como salvo-conduto para a realização de ações imorais.

A vontade de discutir este assunto me veio após uma sequência de leituras despretensiosas nas redes sociais. A primeira delas, uma simples frase motivacional do escritor Robin Sharma: “Não repita o mesmo ano 75 vezes e chame isso de viver a vida”. E isso é possível? Na constituição atual do mundo, e especialmente a do Brasil e de seus semelhantes do Terceiro Mundo, há, para a base da pirâmide social, a possibilidade de escolher como viver seus dias? É possível continuar vivo sem uma rotina que lhe garanta, através da venda da força de trabalho, condições de viver? Como é possível atrelar a felicidade a essa liberdade e à ausência de uma rotina fixa se o que é necessário para subsistir está alicerçado exatamente no oposto disso?

Os recursos da esperança estão sendo arrancados há muito tempo. O sistema neoliberal não vê problema algum em se aliar ao neofascismo para atingir seus objetivos, e estes necessitam da desesperança, do cansaço, da indiferença e do cidadão à beira de desistir para que não haja, para ele, a perspectiva de um mundo melhor; mundo esse que ele poderia construir através da luta política. O cansaço é o gatilho da inação, a passagem rumo ao conformismo.

Mark Fischer deixa claro: para a maior parte das pessoas, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. A elas não é apresentado nada diferente do que há: não é possível imaginar um mundo onde as coisas trabalhem a favor das pessoas, e não as pessoas a favor das coisas. Margaret Thatcher – uma das grandes representantes do neoliberalismo, do conservadorismo e da extrema-direita – deixava isso muito claro em seu discurso político, com todas as letras: “There is NO alternative”. Segundo ela, o socialismo falhou, o comunismo é impossível e não existe sociedade, apenas indivíduos, indivíduos e famílias.

Para a sustentação desse pensamento, cria-se a narrativa de que o ser humano naturalmente é competitivo, egoísta, invejoso e, por fim, mau. Apenas estando sozinho é capaz de viver em sociedade e, por isso, o que é público há de ser combatido e tudo o que existe precisa de grandes muros, grades, cercas e segurança; um pequeno portão, portão esse acessado apenas através do dinheiro. Esse ciclo se retroalimenta. Essa é a narrativa hegemônica, sem que haja qualquer reflexão. Não se imagina mais uma sociedade melhor para o futuro.

O modelo de sociedade difundido pela maior parte do mundo atualmente é baseado num encerramento de possibilidades, de alternativas, ao capitalismo. No estágio atual, até mesmo pensar em um capitalismo melhor é proibido: taxar os grandes ricos é ruim, colocar regras a empresas é ruim, proteger o trabalhador é ruim. O neoliberalismo totaliza-se como o único modelo econômico possível e faz com que sejam criadas diferentes desculpas para seu crescente acúmulo de crises e para um aumento cada vez maior das taxas de lucro de grandes corporações mesmo em momentos de crise.

As consequências não são apenas no âmbito do trabalho: avançamos cada vez mais sobre o meio ambiente e criamos péssimas condições sanitárias, aumentando as chances de acontecerem pandemias como a que estamos vivendo, permitindo o retorno de doenças que já deveriam estar controladas, concretando o chão e não entendendo porque as casas se alagam com as tempestades.

Aos países, cabe se contentar com o espaço que lhes é dado. Ao Brasil, cabe ser o grande celeiro do mundo, sem a possibilidade de produção de tecnologia de alta complexidade e sendo frequentemente vigiado. Quaisquer passos que fujam dessa rota são punidos: sonhar com algo diferente é como cometer um crime.

A economia especulativa, que controla a política, desvincula-se cada dia mais da economia real: desatando-se da materialidade, os mercados são manipulados em detrimento de poucos e, quando há alguma resposta por parte da população, logo suas ‘asas’ são cortadas – como foi o caso da recente ação de usuários do Reddit sobre a GameStop. Esse sistema tão desatado da realidade tem criado crises cada vez mais constantes e precisa ser salvo: o Estado compra carteiras de crédito, hipotecas, injeta liquidez, perdoa dívidas, gera créditos subsidiados e, quando a estabilidade retorna, volta a ser o vilão.

ENFIM, A SAÚDE MENTAL

Os pequenos momentos de felicidade são os únicos permitidos à maioria da população. Vivendo pelos finais de semana, ela é posta a conviver com a incerteza do amanhã e com o latente sentimento de culpa pelo fracasso, sendo que os mesmos que o atribuem ao indivíduo transferem-no: o problema é o PT, o Lula, a esquerda, a previdência social ou quaisquer outros elementos do Estado. E não importa se as soluções tomadas por eles não surtem efeito: tenha calma, se a próxima medida passar, as coisas vão mudar. A medida passa, a situação piora.

A militância política deve ser, antes de tudo, a militância da esperança. É preciso mostrar que, sim, existem outras possibilidades a esse sistema falido e a esse cotidiano depressivo. O mais difícil é que quem luta em nome dessa esperança também pode estar esvaziado dela, pois está sujeito às mesmas condições. O ser humano é quem constrói o mundo, mas essa construção se dá de acordo com as possibilidades que a ele são oferecidas, e não de acordo com sua própria vontade. O que há de ser feito é oferecer novas possibilidades, é trabalhar a imaginação como ferramenta, é mostrar que a felicidade só é capaz de ser plenamente verdadeira quando compartilhada.

A mudança da forma de sociedade é também a mudança do ser humano, é a valorização de suas características mais nobres, é a humanização da pessoa, é o uso da tecnologia, das máquinas, da ciência, da logística e do que mais for necessário para a melhoria da qualidade de vida de todos, não para o enriquecimento de poucos. É inventar o que não foi inventado, é pensar no coletivo como uma forma de fortalecer o indivíduo. Mas não se engane, não é tarefa fácil. O arco-íris vem depois da tempestade.

Num país como o Brasil, manter a esperança viva é em si um ato revolucionário. – Paulo Freire


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