A morte do outro é minha morte


Sob os moldes da Corrente Existencialista da Filosofia, Martin Heidegger desenvolveu dois conceitos distintos: viver junto e coexistir. O primeiro refere-se ao estabelecimento de uma relação de submissão entre indivíduos, sem o estabelecimento de relações afetivas entre eles. Já o segundo significa um relacionamento de comunhão e construção coletiva, com o objetivo de construir a […]


Sob os moldes da Corrente Existencialista da Filosofia, Martin Heidegger desenvolveu dois conceitos distintos: viver junto e coexistir. O primeiro refere-se ao estabelecimento de uma relação de submissão entre indivíduos, sem o estabelecimento de relações afetivas entre eles. Já o segundo significa um relacionamento de comunhão e construção coletiva, com o objetivo de construir a liberdade sob si mesmos, sentindo a dor do outro a partir da ótica do afeto. Lamentavelmente, durante a pandemia no Brasil, o sentimento do viver junto prevalece, principalmente no que tange ao governo federal, que fez da morte um projeto.

O desdém pelo uso de máscaras, o desrespeito pela ciência, a falta de planejamento na compra de vacinas, a crítica ao isolamento social e tantos outros exemplos não parecem ser fatos isolados. Pelo contrário, demonstram um projeto de governo baseado no genocídio da população, em especial dos idosos, dos pobres e dos negros.

Reforçando essa tese, Deisy Ventura – Professora de Ética Médica na USP –, produziu o estudo “Direitos na pandemia”, no qual temos:

O estudo revela a existência de uma estratégia institucional de propagação do vírus, promovida pelo Governo Federal, sob a liderança do Presidente da República.

É preciso ressaltar que o desrespeito aos Direitos Humanos pelo Governo Federal não é novo. Inclusive, seu chefe de governo foi levado ao Tribunal Penal Internacional, em 2019, por “incitar o genocídio e promover ataques sistemáticos contra os povos indígenas do Brasil”. No entanto, com o agravamento da pandemia no Brasil, os ataques se tornaram cada vez mais recorrentes, apontando, mais uma vez, que a pandemia no Brasil faz parte de um projeto político que faz da morte sua principal arma.

Cabe ressaltar que isso não ocorre somente pela posição político-ideológica do atual governo, que é da chamada “extrema-direita”, como alguns poderiam apontar. É claro que essa corrente não se volta aos direitos humanos com total veemência, mas, salvo nos momentos iniciais, apresentaram uma postura de apoio à ciência e às medidas sanitárias. Os exemplos não são poucos: Trump, mesmo negando as medidas sanitárias, investiu em vacinas e Netanyahu promoveu o feito histórico de ter a maior porcentagem de população vacinada no mundo (ainda que excluísse os palestinos, um desrespeito aos Direitos Fundamentais).

Cabe ressaltar que, a partir da filosofia de Paulo Freire, as mortes não podem ser vistas como fatalidades. É preciso que tenhamos a virtude de assimilar um futuro com sonhos e desejos. Além disso, precisamos ver a História não com um olhar determinista, mas sob o viés da possibilidade. Afinal, somos sujeitos ativos na História e temos a capacidade de transformá-la. Se o presente não é animador, traçamos, pois, um futuro promissor.

Ao meu ver, dois aspectos são essenciais: o impeachment e um memorial. Um impeachment é urgente, porque crimes de responsabilidade não faltam e as mortes seguem em ascensão. Um memorial triste, feio, cinzento e árduo é necessário para preservar a memória, a dor e a tragédia das mais de 250 mil vidas perdidas. Afinal, como diria George Santayana:

O progresso, longe de consistir em mudança, depende da capacidade de retenção. Quando a mudança é absoluta, não permanece coisa alguma a ser melhorada e nenhuma direção é estabelecida para um possível aperfeiçoamento; e quando a experiência não é retida, a infância é perpétua.

É preciso sair da infância, reter a dor, condensar as lágrimas e agir. É preciso coexistir.



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