Se não fossem todas as desculpas, muitas vezes para nós mesmos, e as formas como encontramos sentido em realizar ações que prejudicam o mundo sem a menor empatia, talvez eu aceitasse compassivamente esse modo de existir que ignora tudo ao redor além das próprias necessidades pessoais. Porque aí, nesse caso, eu diria que são apenas as escolhas repercutindo; e eu não me importaria. Não, eu não sou coach ou coisa alguma. Só estou amplificando a conversa que escutei entre o médico intensivista da UTI do bairro e a esposa durante os poucos dias de folga que ele recebe desde que tudo isso começou.

Eu não preciso explicar o conceito de viver em sociedade e te perguntar, aflita, se você sabe o que isso significa. Tudo porque você deveria saber. Se este mundão não é seu, se você não foi escolhido como o soberano pelo que quer que seja que criou este planetinha de tantos anos, porque é você se sente no direito de esbanjar suas vontades sem considerar o impacto delas na vida de tantas outras pessoas? Você até pode se sentir uma estrela, mas eu te garanto que é mais imaginação que realidade. Quando a dor te pega, assim, desprevenido, e você se sente um injustiçado por aquilo que hoje dói tanto ter acontecido, eu não sei se, em algum momento, você reflete se você mesmo já não contribuiu para que alguém se sentisse da mesma forma. E, se for o caso, você se arrepende? E, caso se arrependa, você aprende com a experiência e evita cometer o mesmo erro novamente? Me diga com sinceridade: você se questiona?

Desculpa, hoje eu acordei com a revolta daqueles que não suportam mais e explodem em mil cacos de vidro. Eu gostaria que as agonias da humanidade fossem demonstradas em praça pública. Cada uma delas. Sei que existem pessoas que as enxergam sem a necessidade de alegorias porque há algum tipo de comunicação que independe de palavras e que nem por isso deixam de falar. Eu adoraria que, no meio desta pandemia, telões fossem espalhados aos quatro cantos deste país e mostrassem cotidianamente o dia a dia dos médicos e os seus malabarismos sem picadeiro e sem plateia que, ao final do dia, fazem muitos se sentirem, ao invés de heróis, meros palhaços. Sim, eu já saquei que existem pessoas que só aprendem com a dor.

Eu preciso saber: como é que você lida com o pensamento de que a qualquer momento pode ser você?

Quando te vejo vivendo com tamanha indiferença, eu penso que talvez seja medo de encarar o buraco e de ele acabar te engolindo. Talvez seja só uma forma de se preservar. Mas, daí, você troca a Netflix pela festa no sítio do teu vizinho com 50 pessoas e eu vejo que, na verdade, é só egoísmo mesmo.

Até ontem, foram 261.188 óbitos desde que tudo isso começou.

Amanhã eu não sei o que nos espera.

Ainda anseio pelo dia que ficaremos livres da doença, da praga e da falta de empatia. Agora lembrei a Anne Frank naquele anexo secreto, esperando o findar de uma guerra que não era dela e que ela sequer poderia vencer sozinha. Acho que nós também não podemos, e quem pode parece não querer lutar. Como se não bastasse a ausência de controle da vida, ainda existem pessoas que, não importa o que aconteça, simplesmente não se importam.

Que tipo de pessoa você é?