Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

Passei horas pensando em como começar uma coluna em tributo a Gabriel García Márquez. Pensei que deveria ser triunfante, poético, genial, algo tão único que só pudesse ser remetido a Gabo. Não consegui. Não há como fazer nada próximo do que Gabo foi capaz em cada uma de suas obras, então recorro a elas. O trecho que está acima é o início de “Cem anos de solidão”, a principal obra do maior autor que o mundo já viu. Hoje, no dia 06 de março de 2021, García Márquez completaria 94 anos.

“Cem anos de solidão” era a obra de um autor literário desconhecido, mas já de grande destaque por suas colunas em jornais latino-americanos, nas quais Gabo abordava temas diversos (às vezes os mesmos que anteriormente foram abordados por dezenas de outros). Sua forma, porém, era única: a narrativa poética, mágica, de detalhes encantadores que o caracteriza já estava presente em seus escritos, que atraiam muitos a comprar os jornais apenas para ler o que Gabo escreveria na semana.

Ele largou tudo para terminar o livro que seria seu magnum opus. Ficou em dívida com o aluguel e passou por intensas dificuldades nos dezoito meses de trabalho. Em menos de duas semanas de lançamento, as oito mil cópias da primeira tiragem do livro esgotaram-se; o sucesso foi instantâneo. O nome de Gabriel foi alçado para o mundo. Nasce aí o principal nome do chamado “boom latino-americano”.

Gabo odiava esse termo, assim como odiava o rótulo de “realismo mágico” ou “realismo fantástico” por ser fruto de uma narrativa comercial, por ser limitante. Tudo que Gabo escreveu era, de alguma forma, real, mas o ser real não tira dele o mito, a magia. Sua obra é uma afronta à tentativa da razão e da lógica de se sobrepor aos outros conhecimentos, é uma mescla de visões, de sentimentos. É a construção do mundo através de múltiplas facetas, assim como se dá na realidade.

Apesar de inicialmente largar tudo para se dedicar à literatura, Gabo via-se como um jornalista. Declarava que era por isso que queria ser lembrado e escreveu para periódicos durante a maior parte de sua vida. Alguns de seus escritos também tornaram-se livros, como “O Escândalo do Século”, uma seleção de 50 artigos publicados entre 1950 e 1984 – período que se inicia quando era um desconhecido e termina após já ter se tornado um laureado do Prêmio Nobel.

Criou fundações, deu aulas, ensinou, entreteve: Gabo foi completo, tudo que fez teve uma entrega irremediável. Cada detalhe de seu legado foi esculpido a duas mãos, como um artesão das palavras muito além da técnica. Não era um redator, era um poeta que nunca escreveu sequer um verso como convencionalmente conhecemos, mas deixou para o mundo uma poesia inigualável. Gabo acreditava no que escrevia, era um latino dos pés ao cabelo.

Obrigado, Gabriel.