Durante toda a história da humanidade, tratamentos diferentes foram dados a homens e mulheres e, com raras exceções, o primeiro grupo manteve intactos seus privilégios perante o segundo. Nos moldes da sociedade capitalista, vemos a opressão da figura feminina – de forma semelhante ao que acontece no racismo ou no colonialismo – como consequência direta de uma exploração em que a mulher é um produtor/trabalhador com qualidades particulares exploradas a esmo, sem maiores preocupações quanto a quaisquer outros aspectos acerca de sua individualidade.

A partir do momento em que o homem – e, aqui, trato o homem como ser humano, não como indivíduo do sexo masculino – aprendeu o cultivo da agricultura, a posse de outros seres humanos começou a ser tratada como capital. É nesse aspecto que se cristaliza a exploração das mulheres: possui-las é possuir trabalhadores; trabalhadores com características fantásticas, pois têm a capacidade de gerir semelhantes e geram resultados que podem ser explorados em sua totalidade – além disso, existe a questão sexual. O conceito de família nasce a partir desse cenário, seja ela monogâmica (a predominante no mundo atual), seja ela poligâmica (sendo que, na maioria dos casos, a relação se dá entre um homem e várias mulheres). O casamento e a união com muitas mulheres, nesse período de economia agrária, torna-se um meio de acúmulo de riquezas, pois tanto seu trabalho pode ser explorado, como a quantidade de filhos gerados passa a ser maior. A monogamia se expande depois, com outros interesses, também financeiros e ligados a questões de herança, que não serão abordados nesta coluna.

Avançando algum tempo na história, a mulher como um produto consolidou-se em constituições familiares mais próximas às concebidas hoje: os filhos homens eram rapidamente entregues ao trabalho no campo, as mulheres ficavam à venda para o casamento – através do qual poderiam ser formadas alianças e expandir negócios. É assim até hoje nos regimes monárquicos ou, então, na cabeça fecunda das famílias reais sem trono – como os Orleans e Bragança no Brasil, que têm como plateia uma corja de bobos da corte.

A propriedade privada da mulher é uma das primeiras formas de propriedade. Nas palavras de Friedrich Engels, na obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado:

Hoje posso acrescentar: o primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros. É a forma celular da sociedade civilizada, na qual já podemos estudar a natureza das contradições e dos antagonismos que atingem seu pleno desenvolvimento nessa sociedade.

Não faltaram meios para garantir que essa propriedade se desse de maneira dócil e aparentemente consentida. O sistema de exploração do homem pelo homem origina-se do sistema de exploração da mulher pelo homem, que se dá concomitantemente a outros fatores da acumulação primitiva do capital, ainda nos modelos de sociedade feudal. Nesse espaço, os papéis de gênero são construídos e disseminados, o acesso à educação é monopolizado, os comportamentos são reprimidos e a violência pode ser usada como castigo corretivo ao mau comportamento. Manter a mulher na ignorância tornou-se também um negócio lucrativo.

As subversivas sempre existiram, mulheres que ocuparam espaços que não eram destinados a elas, muitas vezes passando-se por homens – como para produzir livros, peças, criar teorias e ditar rumos para os estudos. Mas eram poucas, quantidades quase ínfimas, e que foram capazes de se tornar símbolos nos dias de hoje. Algumas após enfrentarem as fogueiras da inquisição ou outros tipos de julgamento sem direito a recurso.

A permissão para que a mulher tivesse acesso a educação e a meios de informação é extremamente recente, data-se de períodos do século XX. Muito por conta de seu início forçado a um mercado de trabalho que, devido às guerras, necessitava de mão de obra, as mulheres que ocuparam esses espaços não aceitaram que ele fosse tirado delas ao fim dos conflitos. A partir disso, mudanças começam a ocorrer no mundo. Vale lembrar que esse é o cenário do ‘avançado’ ocidente. Na União Soviética, as mulheres tinham papel central e participavam da vida econômica e política da construção da nação.

Hoje, os países mais desenvolvidos são também aqueles nos quais as mulheres possuem melhores condições de vida e de acesso à educação. Com isso, vemos uma mobilização por direitos e melhores condições de vida de maneiras cada vez mais entusiasmadas. Nisso, o futuro começa a ser novamente ditado pelo seu papel, mas não de maneira submissa e mercantilizada, e sim politicamente ativa.

Tais aspectos não significam que, para o progresso da humanidade, basta que o poder e a ciência sejam entregues nas mãos das mulheres, e sim que, a partir da visão desta construção histórica, haja uma reflexão sobre o papel que a elas foi entregue e sobre os danos causados pela exploração. Também não significa que não houve mulheres que trouxeram retrocessos ao mundo, como a já citada por mim em textos anteriores, Margareth Thatcher, uma das pessoas que mais causaram danos à história da humanidade.

Porém, vemos que, com acesso à consciência política e libertadas as amarras de uma educação opressora desde o berço, o posicionamento das mulheres tende a ser mais progressista, como ocorre no Brasil, onde a rejeição de Bolsonaro é maior entre elas – que também, proporcionalmente, votaram menos no presidente quando candidato. O fenômeno se repete nos Estados Unidos, onde a vitória de Joe Biden foi massiva entre as mulheres.

O desafio em todo esse processo político de libertação da mulher e da construção de uma sociedade mais justa e igualitária é deixar claro que a questão não é o acesso a posições de privilégio. Não é a adesão de um lema como ‘mulheres no topo’ enquanto outras mantém-se na base, mas a consciência de que, se a exploração da mulher é um dos pilares do injusto sistema de exploração em nome da propriedade privada, o papel delas é crucial na destruição deste sistema e na construção de uma nova sociedade que ultrapasse as limitações da propriedade privada e possa, a partir da colaboração e da justiça, oferecer um modo de vida digno a todos os seres humanos.

Eu acredito no papel feminino de liderança em movimentos contra a opressão e a exploração e na inteligência feminina para a superação do modelo retrógrado no qual estamos atualmente postos. Uma sociedade melhor só se dará com a união da população como um todo, mas o principal indivíduo revolucionário carrega consigo uma mesma identidade: o ser mulher.

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Março é considerado, no Brasil, o Mês Nacional da História da Mulher, comemoração que tem sua origem nos Estados Unidos, com diversos fatores atrelados a seu início, o mais conhecido deles sendo o incêndio em uma fábrica têxtil de Nova York, no ano de 1911, quando mais de 100 mulheres foram mortas.

Esse texto é uma homenagem a cada uma das mulheres que sofrem cotidianamente com a opressão e o machismo. Acredito em vocês para que, um dia, finalmente superemos toda a exploração e o preconceito. Agradeço a três mulheres em especial, que me ajudaram na composição desta coluna: as colegas da revista, Sofia Schurig e Alessandra Vargas, duas mulheres com talento ímpar, e minha namorada, sempre incrível, Nicole Leiser, que corrige todas as minhas publicações.

Obrigado.

Sabiá

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