278.229 mortes e subindo


Não sabia dizer o que estava acontecendo. Não sei se comi algo estragado… Acho que não, só tomei um café agora pela tarde. Será que eu tô com verme? Bem, desde antes da pandemia que eu não tomo remédio pra verme. Depois dela, então, nem sinal. Ainda tem a pior opção: será que eu tô […]


Não sabia dizer o que estava acontecendo. Não sei se comi algo estragado… Acho que não, só tomei um café agora pela tarde. Será que eu tô com verme? Bem, desde antes da pandemia que eu não tomo remédio pra verme. Depois dela, então, nem sinal. Ainda tem a pior opção: será que eu tô com Covid? Só de pensar, já dá falta de ar, socorro.

Um ano desde o início da pandemia e era a primeira vez que eu sentia algo que me fazia ter vontade de ir ao médico. Sou muito cuidadoso e apreensivo, talvez exagerado às vezes, então evito ao máximo sair de casa para fazer qualquer coisa que não seja mercado ou esporadicamente entregar alguns documentos no trabalho. Mas, hoje, não tá dando (ênfase no NÃO TÁ DANDO). Já são dois dias sentindo dores de barriga e muito enjoo, eu preciso ter uma mínima noção do que está acontecendo. Então está na hora, agora se inicia a minha jornada em busca do atendimento médico (Entenda-se o mais dramático possível).

Roupas leves, máscara supostamente antiviral, frasquinho de álcool gel e muita fé (mesmo não sendo religioso). Já passava do horário do toque de recolher, então as ruas estavam completamente vazias, com exceção de uma viatura ou outra que passava as rondas. Confesso que, toda vez, ficava nervoso ao vê-las, mesmo tendo justificativa para estar ali. Andei por mais três quadras até um hospital geral que, convenientemente, era vizinho ao meu bairro. Dirigi-me até o balcão da emergência e solicitei atendimento.

Aguardei por um tempo e fui chamado à triagem:

– Boa noite, senhor – Disse o enfermeiro em tom extremamente cansado.

– Boa – Respondi tentando soar o mais simpático possível.

– Então, qual o problema?

– Tenho sentido muita náusea e dores abdominais.

– Vômito?

– Sim, um pouco antes de vir pra cá.

– Febre?

– Baixa, 37,5°C.

– Teve contato com alguém diagnosticado ou sob suspeita de C             ovid? – Essa pergunta soou cabisbaixa.

– Rapaz, até onde eu sei, não. Só se invadiram minha casa e eu tô por fora – Tentei quebrar um pouco do clima tenso. Ele esboçou uma risada, então surtiu certo efeito – Dia difícil?

– Muitas internações, poucas vagas… Não tem sido fácil. – Disse com os olhos marejados.

– Sinto muito.

– Pode ficar tranquilo, seu… – Ele fez uma pausa, buscando meu nome na lista – … Leandro, já é rotina. A gente não acostuma, pega uma casca. Aguarda um pouco que o médico já vai te chamar, certo?

– Grato – Respondi um pouco triste – Qual o seu nome?

– Pode chamar de Conrado. – Ele disse, um pouco mais leve.

– Obrigado, Conrado. Boa sorte!

Aguardei por mais alguns (longos) instantes e o médico me chamou. Ele solicitou o teste de Covid, mas disse que muito provavelmente eu estava com vermes mesmo. Indicou que eu fosse até o posto de enfermagem, tomasse um remédio de enjoo, um de verme e fosse pra casa. Meu teste de Covid só poderia ser feito dali a alguns dias devido à alta demanda.

Já no posto de enfermagem, me surpreendi com Conrado atendendo lá também:

– Tem dois de tu, Conrado?

– Poucos enfermeiros, Seu Léo – Disse rindo um pouco – Muitos afastamentos por Covid.

– Imagino – Falei, me sensibilizando com a situação – Pode me ver esses remédios aqui?

– Claro, claro – Ele me entregou as duas pílulas.

– Muito obrigado, Conrado – Disse enquanto engolia os remédios – Se cuida, viu? Daqui uns dias, apareço de novo pro meu teste de Covid.

– Certo, seu Leandro, te aguardo aqui!

Fui pra casa já me sentindo melhor, pelos remédios e pelo contato humano que, há tempos, não tinha. Por outro lado, o clima no hospital era estranho. A emergência era separada da ala de Covid, mas era possível ver pessoas com feições preocupadas e vencidas pelos arredores. De fato, havia algo de fúnebre no ar que era contagiante. Me surpreende pessoas não acreditarem nisso…

Uma semana depois, retornei ao hospital para realizar meu teste. Achei estranho o Conrado não estar na triagem, talvez fosse a rotatividade dos turnos. Depois de dois swabs extremamente incômodos no nariz, resolvi perguntar àquela simpática enfermeira sobre o meu amigo:

– Qual o seu nome? – Perguntei antes, pra ser educado.

– Pode me chamar de Marcela! – Disse em tom alegre.

 – Sabe dizer onde posso encontrar um colega seu? O nome dele é Conrado.

– Senhor, sinto muito, infelizmente o Conrado foi internado às pressas faz alguns dias.

– Covid? – Perguntei, com medo da resposta, e ela assentiu – Qual o estado dele?

– Crítico – Ela respondeu baixando a cabeça – Está no cateter de oxigênio, mas não tem sido o suficiente. Não tem mais vagas na UTI nem respiradores. Estamos apenas… torcendo.

Fui pra casa com lágrimas nos olhos. Aquilo já era triste, mas a pandemia tem o poder de deixar tudo mais intenso.

Infelizmente, dois dias depois recebi a notícia: Conrado havia falecido. Conrado havia se tornado mais um dos 278.229 corpos, mais uma das 278.229 almas levadas, mais uma das 278.229 negligências e mais uma das 278.229 lágrimas derramadas. Meu teste foi positivo.


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