Enfim, uma vida de ilusões

Sei muito pouco sobre psicologia ou tipos de personalidade, mas parece que a minha é INFP, né.

Bom, cheguei a esse resultado por meio de testes online que eram supostamente confiáveis, porém o grau de confiabilidade deles pode não tão alto assim. Mesmo assim, decidi ler um pouco sobre, afinal, considerando aquilo com que nós costumamos nos deparar na internet, eu provavelmente encontraria apenas uma descrição padrão, que se encaixasse com a maioria das pessoas e desse a mim uma falsa impressão de compatibilidade.

Para minha surpresa, tudo que li era bastante específico e, ainda por cima, identifiquei-me bastante – tanto com as partes positivas quanto com aquelas que prefiro ignorar. Nessa leitura, um elemento em especial chamou minha atenção: eu nunca havia parado para reparar na quantidade de sonhos que eu tenho não só enquanto durmo, mas sobretudo acordada, e muito menos no quanto isso me consome e corrói.

Minhas expectativas – tanto para mim quanto para os outros – são absurdamente altas e, por conta disso, jamais serão atingidas, além de cristalizarem em mim um medo de tentar seguir e andar. Ao mesmo tempo, em que sonhos nutrem esperanças, me ajudam a engolir o dia a dia amargo e pensar que posso conquistar algo melhor, eu chego perto de desabar em lágrimas ao voltar à realidade, tendo que lembrar que tudo o que minha imaginação visualizou já era – ou melhor, nunca foi. E, como nada que eu realizar chegará perto deles, a fim de evitar o erro e a decepção, convenço-me de que a melhor opção é nem ao menos tentar.

Bem, se eu tivesse a escolha de viver dentro de uma ilusão, de um sonho, de uma matrix, aceitaria na hora – sendo essa falsa realidade criada por mim ou por outros. Eu não ligo. Só preciso sair daqui. Do meu quarto, da minha cidade, do meu país, de mim mesma. Mas não saio porque minha cabeça ecoa a certeza de que tudo que vier desapontará.

Assistir a “WandaVision”, então, significou 350 minutos de uma constante lembrança da parte de mim que não quer ser eu mesma, não quer estar aqui e me finca a tudo aquilo a que tenho repulsa porque cria padrões tão altos que me fazem ter medo de tomar um passo sequer em direção ao que idealizo.

Durante a série, a Wanda (Elizabeth Olsen) acordou (digamos) várias vezes, mas ainda estava sonolenta o suficiente para retomar as rédeas de um sonho lúcido. Não importava quantas interrupções o seu “programa de TV” sofresse, um simples corte ou mudança de take permitia que o roteiro, assim como a alegria, fossem retomados.

No último episódio, porém, Wanda teve, enfim, que escolher: libertar todas as vidas que, em prol de sua ilusória alegria, fazia de reféns ou continuar com o show de espelhos?

Resultado: a sonolência foi finalmente arrancada à força e a protagonista perdeu tudo o que vivera durante os 8 capítulos anteriores.

Terminar um filme é uma sensação parecida com acordar de um sonho, sabe? Quando estamos no cinema, as luzes se apagam, o som aumenta, as cores da tela começam a brilhar… Logo esquecemos quem somos e imergimos na história. Porém, muito mais cedo do que gostaríamos: acabou. A dança das cores vira um bege morto. Os sons escapam de nossos ouvidos. Surge uma claridade cega de um teto claustrofóbico. E, assim que saímos pela porta corta-fogo, tudo fica para trás: adeus fantasia, a anestesia artística de que precisamos para sobreviver à realidade. O dia a dia volta a sufocar.

Diferente de nós, que estamos fadados a viver do lado de cá das telas, a Wanda vive em meio a cores dançantes; não nos preocupemos com ela. É apenas uma personagem fictícia, afinal de contas. Além do mais, o desfecho e a cena pós-créditos indicam que a Feiticeira Escarlate muito provavelmente será capaz de trazer sua família de volta e findar seu luto. O luto por perder seus filhos utópicos. Por perder o amor de sua vida. E por ser obrigada (pela moral, pela ética ou pelo que você prefira chamar) a acordar do sonho em que se mantinha.

Quem dera existisse magia. E quem dera nós fôssemos capazes de aprender a usá-la para materializar sonhos ou, pelo menos, fazê-los durar um pouquinho mais.

Ainda que eu tivesse a plena consciência de que eles não passariam de uma quimera, tê-los ao meu redor bastaria. E eu seria feliz; eu acho.

Mas tudo que me resta é acordar. E acordar dói.

Dói demais.



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