Eu

Eu Não Posso Dizer Eu

No início da quarentena, eu comecei com uma pequena brincadeira criativa que consistia nesta regra simples: eu deveria escrever um poema ou texto em que eu não usasse a palavra eu. Inspirado por uma prática religiosa na qual passava-se meses sem dizer a palavra eu, esse exercício era simples o suficiente para que eu conseguisse comprimir, em um pequeno momento, aquilo que eu não conseguiria fazer por meses a fio. Simples e também fácil. Acho que, na realidade, nada que eu tenha escrito naquele momento foi seriamente mudado por essa pequena regra, mas, ainda assim, a ideia de haver uma limitação deixava a própria escrita algo mais prazeroso. Por tudo isso, esse foi o meu passatempo favorito por alguns meses. Imaginar qualquer coisa em que eu não estivesse inserido era uma espécie de brincadeira de atuação inversa, na qual eu estava fazendo o papel de ninguém, imitando absolutamente nada, tentando expressar algo como se não houvesse algo para expressar, como se as letras estivessem se formando naturalmente da mesma forma que uma caverna se constrói ao longo dos milênios. 

Tudo isso me fez pensar bastante sobre o que eu estava tentando não citar, como um machucado na língua que pede incessantemente para entrar em fricção (?). Ao mesmo tempo, quanto mais eu pensava nele, mais esta palavra ia, de fato, se escondendo lentamente dentro de mim, em um lugar onde eu não saberia apalpar se me perguntassem onde eu sinto. 

Meu nome não sou eu; ao mesmo tempo em que, hoje, eu só consigo me identificar com ele. Não digo que ele não é meu no sentido de que eu gostaria de mudá-lo ou que ele não representa a minha pessoa. Na realidade, a carga semântica dentro de meu nome combina muito comigo. Se você procurar o significado de “Arthur” na internet, você vai encontrar dois significados celtas: o primeiro remete a uma palavra que significa “grande urso” e o segundo a “pedra”. Todo mundo que me conhece já ouviu a história que minha mãe adora contar sobre quando eu, com 3 anos, fiz uma sapateira de 2 metros cair em cima de mim e saí sem nenhum machucado e quem já foi a alguma praia comigo e me viu sem camisa sabe que as palavras “pedra” e “urso” combinam muito bem comigo. Para além disso, o meu segundo nome, “Augusto”, significa divino, o que combina muito bem com o fato de que, tendo passado por tantas situações de quase morte, algumas tristes e outras estúpidas, o fato de eu ainda estar vivo significa que existe algum grau de simpatia metafísica que eu angario, mesmo com a minha estupidez e o meu ceticismo pontual. 

Entretanto, eu também nunca falo o meu nome sem ser perguntado, assim como geralmente não falamos nossos nomes com frequência. Os nomes são palavras que os outros nos falam, colocando, com suas próprias vozes, quem nós somos e preenchendo aquilo que claramente é nosso com um recheio do reflexo que temos sobre todo o resto das pessoas que nos conhecem. Por conta disso, o meu nome sou eu. Nomes são propriedades dos outros e, mesmo me sentindo confortável em ter o próprio nome, ser nomeado, ainda assim, parece uma espécie de alarme de que eu deveria estar sendo eu. 

Lembro que esses pensamentos sobre nomes não necessariamente vieram de agora. Quando criança, sempre antes de dormir, a minha mente ecoava repetidas vezes todos os momentos em que chamaram o meu nome naquele dia. Eu escutava novamente todas as vozes de meus colegas, professores e parentes que me chamaram pelo nome naquele dia e, sendo eu uma criança com TDAH que tinha sérias dificuldade em ficar parado, o início da minha noite era um longo umbral que me lembrava constantemente da minha existência até que eu conseguisse cair de sono. Nesses momentos contemplativos, a repetição chegava no ponto de seu sentido se esconder cada vez mais profundamente, até que eu realmente ficasse incrédulo pensando no sentido daquele nome e onde ficava o significado daquela palavra – se é que ela tivesse algum. 

Claro que, por mais que meus amigos acreditem insistentemente, eu não nasci de bigode e, portanto, os meus pensamentos sobre este assunto nunca chegaram nesta profundidade quando eu tinha 5 anos. Porém, é agora que eu realmente penso com uma certa franqueza onde eu poderia encontrar esse tipo de essência, ou apenas o sentimento de que isto é assim ou isso é assado, de que eu realmente gosto disto ou desgosto disso, que eu me sinto confortável em tal situação ou não. Lembranças desse tipo colocam, pra mim, a sensação estranha de que talvez eu sempre estivesse brincando de não poder dizer eu. 

  1. Eu Não Sei Dizer Eu 

Talvez seja por isso que eu tenha passado tanto tempo sendo reconhecido pela minha volatilidade. Meu amigo, companheiro de escrita, revisor e herdeiro dos direitos autorais de todas as coisas que eu já escrevi antes de morrer, Fel, sempre comentava, quando publicávamos diariamente em nossa página de poesia no Facebook, a forma como eu pulava radicalmente de estilos e de tentativas, de uma maneira que eu nem poderia considerar como “fases” visto que algumas delas só duraram dois ou três textos – enquanto o meu hiperfoco em determinado assunto durasse e eu continuasse tentando martelá-lo, de certa forma, em minha identidade. Essa inconsistência e falta de substância sempre me colocou, também artisticamente, em uma posição novamente incerta. Ao ser perguntado – seja pela minha psicóloga ou por um formulário de envio de originais em editoras – sobre o quê eu estava falando nos textos que eu estava expondo, por exemplo, a única coisa que eu conseguiria exprimir com certeza seria um “hã” estendido por 30 segundos como se houvesse um pedal de piano dentro da minha garganta. 

Isso se coloca até nas coisas que eu escrevo sem tanta ambição artística. Esta coluna, por exemplo, você saberia me dizer sobre o quê ela é? Se a minha editora chefe não tivesse uma ainda inacreditável confiança na minha participação nesta revista, eu provavelmente estaria publicando estes textos no medium porque toda vez que eu tento entender qual a linha que todos eles seguem, qual é o interesse geral e até mesmo qual gênero de escrita eu estou praticando, eu simplesmente não consigo responder. E, pelo menos, agora eu posso deixar essa angústia também com você. 

Entretanto, por mais que sejam, também, incertas as ponderações aqui, elas não param simplesmente comigo olhando o espelho às três da manhã no banheiro onde fica a caixa de areia das minhas gatas e tentando escrever a minha bio no Twitter justamente pelo fato de que, quando eu falo sobre Eu, estou me referindo a uma rede de outras pessoas que seguram e modelam uma massa metaforicamente gelatinosa, condensando-a para ter um formato que certamente não será aquele esperado. E como falar desse amontoado de pontos que me fariam se mais de 300.000 deles estão mortos? Acredito que, assim como é impossível discutir a arte sem pensar em como ela se relaciona com o fato de que esse pode ser o último século de existência neste planeta, sinto, também, que é impossível discutir absolutamente qualquer questão sem me perguntar: “Como levar isto em frente sabendo que está acontecendo um genocídio no meu país?”.

As várias dicas de autocuidado e conteúdos produzidos sobre como “se descobrir” e “entrar em contato consigo mesmo” feitos nestes últimos meses parecem ignorar que é absurdamente difícil se descobrir quando os seus colegas são obrigados a trabalhar em empregos precários enquanto morrem quase três mil pessoas todos os dias. Não é um pouco ridículo refletir tanto sobre a palavra eu quando tem pessoas que não conseguem dizer mais nada? 

Todo dia, ao acordar, eu consulto um planner, vejo as tarefas do dia, que eu escrevi na noite anterior, e penso “Bem, eu vou me focar nisso hoje” enquanto eu coloco comida para as minhas gatas e vou escovar os meus dentes. Lá, quando eu fecho a porta do armário e vejo o espelho já um pouco desgastado, eu me olho seriamente nos olhos com uma espécie de vergonha e uma pontada de desconfiança. Não é um desrespeito tentar fazer algo normal quando a nossa normalidade é uma máquina de moer gente? E, para além disso, porque procurar qualquer resquício de mim quando muitas daquelas vozes que eu ouvia quando eu era criança, hoje em dia, podem muito bem estar mortas por falta de leitos? Quando eu comecei aquele exercício de não dizer a palavra eu, sinto que era como me libertar um pouco do peso que é ter que pensar em que Eu se produz depois de um crime contra a humanidade ser cometido na sua pátria.

  1. Eu Tenho Medo de Dizer Eu

Sendo assim, há um peso aqui. Acho que, se me pedissem para apalpá-lo, eu o colocaria simultaneamente no meu maxilar, passando pelo lado direito do meu tronco e indo até os meus pulsos, fazendo pressão e pesando, em especial, o meu punho. O Punho, na realidade, não é meu, ou pelo menos eu não acho que seja meu. Esse peso talvez se traduza nos dois meses entre a concepção desta coluna e o fato de eu tê-la realmente escrito, mas também passa pelo sentimento de vergonha que vem ao ter escrito tudo isso. Para além do constante medo de ser cringe (coisa que seria o tema para outra coluna), há uma consciência de que esse é um sentimento proveniente de um erro. Sempre que alguém morre, vem o sentimento de um erro. Será que eu deveria ter resolvido com essa pessoa aquela questão que ficou pendente entre nós? Será que, se eu tivesse ligado pra ela naquela noite, ela ainda estaria aqui? Será que, se eu não tivesse ido naquela consulta e chamado essa pessoa pra sair, talvez ela não tivesse sofrido aquilo? São todas essas indagações sobre um pedaço de nós mesmos que morreu junto. Agora vaza um pouco de você mesmo por um buraco nesta rede. É verdade que erramos, e talvez poderíamos ter feito alguma coisa, mas a verdade é que não poderia ter sido tomada uma atitude individual para fazer uma (alguma coisa faltando aqui) será melhor do que este, e creio que eu não estou trazendo qualquer coisa de inédita. Os corpos, cada vez mais juntos e aglomerados, parecem colocar um luto – também aglomerado – de pessoas vivas, um peso que passa por qualquer instância. Uma promessa que eu fiz para mim, tentando quebrar essa barreira comigo mesmo, seria tentar dizer eu, ou melhor, fazer um texto sobre eu. Mas são tantos nomes de outras pessoas empilhados, com as suas vidas agora jogadas no nosso ralo do comum, que eu me pergunto sinceramente: “Será que, algum dia, vamos conseguir fazer qualquer coisa sem este peso estar entre nós?”. Eu tive um sonho, no mês passado, em que eu entrava dentro de uma construção antiga e abandonada, que era uma ruína de mim mesmo. Ela era longa e profunda, geometricamente arquitetada e muito escura. Eu ia descendo uma escada em espiral, colocada de maneira tosca em seu centro, enquanto eu via, emolduradas em suas paredes, várias fotos de coisas de que eu gostava, como eu fazia no meu quarto quando eu tinha 16 anos. A sensação que eu tive foi de que eu passei horas e mais horas descendo essa profunda e, ao mesmo tempo, brega escada de alumínio quando eu encontrei algo no fundo, bem no fundo, que eu não consegui ver, mas que eu sentia ter uma espécie de barulho. Pensei comigo mesmo “Finalmente direi meu próprio nome para mim!” e, então, eu fiquei lá e esperei com a paciência de um amante. Quando ela ligou, saiu uma espécie de luz vermelha como vinho. Eu sentia meu ar acabar lentamente enquanto eu esboçava algumas lágrimas. Finalmente, saiu um som: era a voz do William Bonner falando que atingimos 250 mil mortes.
Eu estava dormindo no sofá da sala. Eu não consigo dizer eu, e não sei dizer seriamente se isso é um problema puramente meu ou deste mundo pesado que, ao mesmo tempo, tem a sensação de ser apenas a ruína de um espaço que não existe mais.



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