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“Acho que já eram meados da década de 70. Eu trabalhava em um galpão de uma produtora onde eram guardados alguns muitos rolos de filme e outras “coisas audiovisuais”. Éramos eu e mais uns quatro funcionários: o Batata, o Messias, Nelsinho e Gerson. Nosso trabalho era basicamente fazer o estoque, passávamos dias ou noites etiquetando […]


“Acho que já eram meados da década de 70. Eu trabalhava em um galpão de uma produtora onde eram guardados alguns muitos rolos de filme e outras “coisas audiovisuais”. Éramos eu e mais uns quatro funcionários: o Batata, o Messias, Nelsinho e Gerson. Nosso trabalho era basicamente fazer o estoque, passávamos dias ou noites etiquetando as latas de filme e organizando nas devidas prateleiras de aço. Eu geralmente ficava na parte de esportes (amo futebol) e os caras se dividiam lá pelo resto.

Eu curtia muito o meu trampo, não pagava muito, mas era divertido. Por outro lado, eu sempre tava muito preocupado, né? Trabalhar com cultura por esses tempos não parecia muito seguro, não sei. Os militares, apesar de tudo, pareciam fechar um pouco os olhos com relação ao cinema. Seu Márcio, dono da produtora, dizia que era por conta dos americanos; eles tinham alguma relação aí que eu nunca entendi muito bem. Acho, inclusive, que o governo injetava dinheiro nos filmes com uma empresa aí (“Brafilme”… “Embra alguma coisa” sei lá), então aparentava ser mais seguro. Mas não sei. Ser contra a ditadura é quase sempre fatal hoje em dia, matam o povo tudo.

Com o tempo, os caras ficaram mais relaxados, apesar de tudo. O Batata era músico, mas morria de medo de lançar um samba, o Nelsinho já tinha começado a trabalhar com cinema também e Messias e Gerson faziam parte de um grupo comunista. Eu ficava surpreso em como eles já não tinham mais medo de trabalhar abertamente no galpão. Pra mim, ali todo mundo podia virar cadáver ou enfeite de pau de arara a qualquer momento.

Certo dia, os caras apareceram na porta da minha casa me chamando pra ir trabalhar (a gente pegava a condução juntos). Falei que nesse dia não ia porque tava meio mal e depois me acertava com o seu Márcio. Fui dormir mais um pouco. Passei o dia com a minha família, fizemos uma feijoada (pra lembrar dos tempos da Bahia) e ficamos até de noite dando uma relaxada ouvindo meu filho tocar uns sambas.

Acordei com o rádio no outro dia. O galpão tinha pegado fogo, acharam o corpo do Nelsinho queimado; de resto, todos desaparecidos. No bairro, os boatos circulavam, diziam que os militares fizeram uma batida por causa de um filme do Glauber, botaram fogo em tudo e deixaram o Nelsinho lá. Seu Márcio teria sido exilado, Batata morto e jogado no mar, e o Messias e o Gerson ninguém sabia. Mas, se não estivessem mortos, estavam de cabeça pra baixo tomando porrada e choque por serem comunas.

Eu sobrevivi e tô contando essa história hoje, em 85, inspirado pelo Casagrande e o Sócrates. Minha família tá bem e eu tenho esperança pro futuro, espero que meu filho possa viver num país livre e se torne o sambista que ele tanto sonha. Sei que essa carta no final ficou com tom de despedida, mas é porque não sei se quando lerem isso ainda vou estar vivo. Minha vida foi boa e agora não tenho mais tanto medo, é tudo um ciclo. Quem sabe eu não nasci, trabalhei e volto em filme?”


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