“Minha especialidade é matar, não curar ninguém” – uma frase, uma promessa.


Ainda como candidato à presidência, Jair Messias Bolsonaro afirmou que sua especialidade era “matar, não curar ninguém”. Eu jamais saberia que essa frase seria, na realidade, uma promessa. Avançamos para o presente, onde o país se encontra em um colapso do sistema de saúde por conta da pandemia de coronavírus. Não se pode negar que […]


Ainda como candidato à presidência, Jair Messias Bolsonaro afirmou que sua especialidade era “matar, não curar ninguém”. Eu jamais saberia que essa frase seria, na realidade, uma promessa.

Avançamos para o presente, onde o país se encontra em um colapso do sistema de saúde por conta da pandemia de coronavírus. Não se pode negar que a pandemia foi uma surpresa para todos e que pegaria qualquer governante de surpresa, mas quantos desses estariam dispostos a levar uma frase tão sério quanto o nosso atual presidente da República?

Como criança, jamais pensei que viveria na situação atual do país. Não posso afirmar que sou uma pessoa otimista, mas o que vivemos no presente é imaginação demais para minha mente pessimista. Enquanto médicos, enfermeiros e cientistas vivem diariamente – há mais de um ano – a morte e a solidão nos hospitais e clínicas, existe a parcela populacional infantil, abjeta e dissociada da realidade que prefere negar a infeliz realidade do país e perder-se no mar de ilusões fabricado pelos apoiadores do presidente da República.

Me faltam palavras, termos, construções sociais e sociológicas para explicar o porquê é necessário que você se importe com outras pessoas. Eu não sei mais como eu posso, em palavras ou desenhos, convencer uma parcela da população brasileira de como a sua ideologia política não é mais importante do que a vida de milhares de pessoas. Também me falta vontade de viver para conseguir explicar como um auxílio emergencial não é ‘mamata’ e não é privilégio, é o mínimo para que a maior parte da população brasileira – que é pobre, caso você seja de classe média e também fora da realidade – sobreviva em meio a desgraça e ao sofrimento que é o Brasil de hoje.

Eu, pessoalmente, sempre tive uma visão muito clara da vida: só viverei uma vez e não existe nada além disso (nem céu e nem inferno), assim como para todas as pessoas, por isso tentarei ser o melhor por mim e por quem está ao meu redor. Viver com essa visão é uma facada no coração todos os dias nesse país, pois cada vez que assisto o noticiário, leio o jornal ou abro uma rede social eu penso: a única vida de milhares de pessoas foi completamente desperdiçada, desprezada, mastigada e cuspida no chão por absolutamente nada. Nada.

Com essa visão, é impossível não ter raiva. Raiva do mundo, por não fazer nada. Raiva da administração atual brasileira, por não fazer nada. Muitas vezes raiva de mim, porque penso que poderia fazer algo. Raiva de cada vida desperdiçada por conta de uma ideologia política abjeta e nojenta. Desperdiçada por um grupo de pessoas que se autodenomina ‘a favor da vida’ e a favor de ‘um Brasil melhor’, enquanto corpos são jogados em chãos frios de hospitais municipais.

Tenho um amigo morador de rua, e frequentemente me pego chorando pensando o que pode acontecer com ele. E se ele ficar doente? Obviamente ele não tem plano de saúde. Ele pode morrer em um chão de hospital, eu nunca saberia e apenas sentiria falta das mensagens de SMS que ele me manda todos os dias. Não só penso que isso pode acontecer com ele, mas com todos os moradores de rua da minha cidade.

Suas vidas não importam? Ou importam menos do que a sua saída no shopping? Você realmente precisa submeter todos perto de você a risco só porque seu ego é tão frágil que sua personalidade está tão entrelaçada a materialidade de bens?

Porque para mim, isso só quer me dizer que para que você viva a sua vida ‘como se fosse a última vez’, você realmente precisa acabar com a única vida de alguém.

Em meus devaneios mais pessimistas, nunca imaginei que teria que passar por isso em silêncio. Que deveria achar normal ver pessoas morrendo todos os dias em prol de nada, que deveria sofrer com o pensamento de que um ex-professor querido pode ser o próximo, que um pai de um amigo pode ser o próximo. Não irei mentir que muitas vezes, durante a quarentena, cogitei rezar para que eu fosse a próxima e não precisasse assistir tudo isso.

Mas posso dizer que a fala do nosso presidente da República é realmente um fato, a especialidade dele é matar. Todos os dias, brasileiros acordam mortos, sem futuro, sem esperança – seja literalmente ou poeticamente.


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