Se tem uma palavra que eu não suporto ouvir é “cult”. Não me considero parte desse grupo de pessoas e, sinceramente, espero nunca ser; não quero entrar no exército que se julga superior aos outros porque seus gostos são parte da suposta verdadeira cultura nacional – ou internacional, não esqueçamos do lema “Como assim você não vê filmes franceses?!”

E, OK, eu admito que não posso generalizar todos os cult como possuidores de complexo de superioridade. Mas a parcela dos que são assim parece ser tão grande que o saco enche, sabe?

Afinal, quem dita o que é culto e o que não é? Só porque eu não resumo meus momentos de entretenimento a consumir livros e filmes que estão na lista dourada, eu tenho que ouvir tantas e tantas vezes como sou inferior ou ignorante ou alienada ou “aculta” (olha a palavra de novo aí).

A impressão que tenho é que esse tipo gente vive à base do lema “só sei que muito sei” e, para mim, esse é um dos piores tipos de alienação. Sócrates que o diga. Dessa forma, as pessoas acabam se fechando apenas ao sublime, ao que consideram digno de ser consumido. Perdem a chance de ver um filme tosco com seus amigos e cair nas gargalhadas na noite de sábado, ou formar amizades baseadas no anime favorito, ou, até mesmo, perdem a chance de encontrar significados nas coisas mais superficiais. Usemos o próprio Big Brother Brasil de exemplo.

Acredito que, desde o começo do programa, tenham surgido aqueles que se julgam melhores porque não vão “dar mídia a essa banalidade”. Para ser sincera, eu não tenho o menor interesse no programa, mas preciso lembrar as polêmicas que recentemente circundaram o BBB21: o quanto das atitudes que os participantes tiveram e que os telespectadores criticaram sem papas na língua , são presenças assíduas no nosso dia a dia?

Eu espero que o programa de 2021 tenha servido não só para dar destaque às nossas contradições particulares e diárias, mas para que mudanças por menores que sejam sejam adotadas por nós, os espectadores de todas as brigas e discussões. Tá aí: existe sim uma forma de tirar algo produtivo além do escapismo de que precisamos para não engolir a realidade a seco de um reality show como o BBB

É fato que o conteúdo desse tipo de programa costuma ser muito banal – a própria premissa deles é superficial, admito –, mas o gosto por assistir a isso é tão inválido ao ponto de ser justo classificar as pessoas como melhores ou piores com base naquilo que consomem (seja na televisão, em livros, filmes…)?

Ao escrever este texto, também não estou defendendo o consumo apenas de conteúdos rasos. Ao meu ver, contanto que nós não nos mantenhamos alienados da realidade e imparciais aos absurdos ao nosso redor, cada um que cuide do que escolhe para seu entretenimento. O que mais parece fazer mal, na verdade, é manter o nariz em pé e torcido para os outros.

Pode ficar com seus filmes, músicas e escritores favoritos; confie que eu estou plenamente ciente quanto ao que consumo. Cuidemos, ambos, de nossas próprias listas da Netflix.