Xuxa e o veganismo despolitizado

Na última semana, Xuxa – sendo uma das mais famosas apresentadoras e defensoras do veganismo na televisão – participou de uma live com o Instagram da ALERJ acerca dos direitos dos animais. Nela, a apresentadora afirma:

Na minha opinião, existem muitas pessoas que fizeram muitas, muitas coisas erradas e estão aí pagando pelos seus erros num ad eternum, para sempre em prisões. Poderiam ajudar nesses casos… Pelo menos serviriam para alguma coisa antes de morrer, para ajudar a salvar vidas…

Nota-se, na perspectiva da apresentadora, a desumanização da população carcerária. Isto é, ao adentrarem aquela arquitetura, as pessoas deixam de ser pessoas e passam a ser presos. Inclusive, sabiamente, alguns perfis públicos definiram essa frase como “eugenista”. Esse termo refere-se à Teoria da Eugenia do matemático inglês Francis Galton, que buscava selecionar características da espécie humana, promovendo uma seleção em prol de uma raça “pura”.

Para explicar essa associação, irei recorrer aos dados: segundo o Infopen – desenvolvido pelo Ministério da Justiça – 61,7% das pessoas em situação de cárcere são pretas e 75% têm até o ensino fundamental completo (um indicador de baixa renda). Na lógica sugerida pela apresentadora, esses indivíduos “serviriam para alguma coisa antes de morrer”, revelando que se pode escolher essas pessoas como cobaias já que esses não seriam bem nascidos.

Aqui também fica claro o racismo e o preconceito social, que seguem paralelos à lógica nociva da eugenia. A desumanização desses corpos, mais uma vez, se faz presente nesse horizonte. O mais absurdo desse quadro é que essa figura pública prega o veganismo e diz lutar contra o especismo; isto é, todas as vidas valem, mas aparentemente, as negras e pobres não.

A mentalidade sobre os desrespeitos aos Direitos Humanos também foi exposta na live:

Aí vai vir o pessoal que é dos direitos humanos e dizer: ‘Não, eles não podem ser usados’….

A fala de Xuxa sobre os Direitos Humanos não constitui um fato isolado. Ela representa toda a ideologia exposta na sociedade dos que insistem que Direitos Fundamentais são “defensores de bandidos”. Essa situação esvazia seu conteúdo além de, simultaneamente, negar seus direitos, já que inviabiliza que a própria população perceba a importância deles.

O veganismo é um movimento que precisa ser encorajado, mas sua reprodução midiática é alienada da realidade. Quase todos os principais programas e expoentes são brancos, das classes abastadas, que ensinam receitas com ingredientes nada acessíveis para o restante da população – como amaranto e açúcar de coco. Somado a isso, ainda tem-se notícia, no passado recente, da promoção de preconceitos e intolerâncias como o dito “candomblé vegano” – que nada mais é do que uma intolerância religiosa.

Por isso, o veganismo despolitizado é perigoso. Ele nega as opressões e prega unicamente seu movimento, sem qualquer análise mais completa do restante, alienando-o da política. Com esse cenário alarmante, é importante compartilhar o veganismo plural, formado pela comunidade LGBTQIAPN+, periférica, preta e feminista.

Assim como afirmado pelo perfil no Instagram “Veganismo Periférico”:

O movimento vegano precisa urgentemente caminhar junto das demais lutas pelo fim das opressões humanas.



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