Precisamos superar o ‘lulismo’, mas quando?


Era uma tarde comum no dia 8 de março quando a principal notícia do ano – até o momento – começou a ser divulgada nos veículos de mídia: o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, anula todas as condenações sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Operação Lava Jato, tornando […]


Era uma tarde comum no dia 8 de março quando a principal notícia do ano – até o momento – começou a ser divulgada nos veículos de mídia: o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, anula todas as condenações sobre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no âmbito da Operação Lava Jato, tornando a principal liderança popular do país novamente apta a ocupar cargos públicos – em outras palavras, a disputar a presidência em 2022.

Lula fora encarcerado em 2018 e já havia saído da prisão no ano passado, mas não podíamos considerá-lo livre. Lula é um ‘animal político’, sem seus direitos tem a existência reduzida. Sua vida fora dedicada ao seu ser político, privá-lo de sê-lo é privá-lo de sua liberdade. Portanto, Lula só foi realmente liberto após a assinatura de Fachin no documento de 41 páginas.

Não demorou para que as consequências surgissem e uma onda de esperança se disseminasse por setores da esquerda. Esperança essa catapultada com a coletiva de imprensa realizada no dia 10 de março, na qual o ex-presidente falou sobre tudo: sua condenação, o apoio que recebeu tanto no Brasil como no exterior, a incompetência do governo, a desvalorização da vida, o papel vexatório do Brasil nas relações internacionais, um aceno aos setores de segurança e por aí vai. Até mesmo o Zé Gotinha entrou na pauta. Jair Bolsonaro, pela primeira vez desde setembro de 2018, quando sofreu a facada em ato de campanha, perdeu o poder de decidir a pauta a ser discutida.

A GloboNews cobriu seu discurso na íntegra e, aparecendo nos principais jornais e canais de televisão, Lula alçou-se em questão de 3 dias como o principal nome da oposição e recebeu espaços que, há anos, a mídia negava a ele. Na maioria dos casos, houve elogios à postura do ex-presidente e até mesmo o mercado respondeu positivamente: a bolsa de valores subiu após sua fala – É importante ressaltar que as falas de Lula foram um dos fatores impulsionantes, pois a Bolsa já tinha tendência de subida. É impossível mencionar quanto o discurso foi importante, porém outros fatores mostram como a fala teve uma recepção positiva.

Vendo toda essa sequência de acontecimentos, é impossível negar: Lula, mesmo após anos de acusações e processos, uma temporada na prisão e a tentativa de desmoralização de sua imagem, continua sendo a principal figura política do país. O personalismo, que poderia significar um problema, pode nos salvar.

As contradições:

A consolidação de uma cultura democrática e o desenvolvimento de instituições que tenham um papel claro, ético e funcional, e que, acima de tudo, sejam maiores que personalidades políticas – sejam elas do legislativo, executivo ou judiciário – é primordial para o desenvolvimento de um estado maduro e de uma democracia segura – fatores primordiais para o desenvolvimento humano e para o combate à violência, à insegurança financeira e à desigualdade. Se comparadas, a lista dos países mais democráticos do mundo é muito semelhante às listas dos países mais ricos, com os maiores IDH’s e os mais altos índices de qualidade de vida.

O Brasil sofreu, durante toda sua história, com a insegurança: o rumo do país vai de acordo com os ventos que sopram (tanto no cenário interno como no âmbito externo) e as políticas podem mudar do dia para a noite, até mesmo durante um mesmo governo, como aconteceu quando Dilma Rousseff, em 2014, trocou Guido Mantega por Joaquim Levy e depois por Nelson Barbosa – três perfis com características não só diferentes, mas quase opostas. Por isso, digo: o fortalecimento institucional e o projeto de país – que consiste no que queremos ser no futuro e em quais ações serão tomadas para atingir essa expectativa – precisa ser o aspecto principal ao se pensar no destino brasileiro. Modelo esse em que exista um caminho a se seguir com alterações pontuais, mesmo com a troca de presidentes que ocasionalmente possam ter visões de mundo diferentes, e não um projeto no qual em um mandato se constrói e n’outro se destrói.

Esse fortalecimento institucional só é possível através de uma consolidação democrática que ainda não existe no Brasil, onde o risco de um golpe militar nunca chegou a ser descartado – ainda mais após a eleição de Jair Bolsonaro, que militarizou o setor público distribuindo cargos. Essa ação, por sinal, escancarou a incompetência do Exército Brasileiro na execução de tarefas desde as mais simples até as mais complexa, como a atuação de General Pazuello no Ministério da Saúde, que foi capaz de errar até mesmo na hora de entregar doses de vacina – enviando as do Amazonas para o Amapá e as do Amapá para o Amazonas.

As instituições fracas e a instabilidade democrática são um fator dominante não apenas no Brasil, mas na maioria dos países da América Latina, que, com suas democracias frágeis e modelos muitas vezes atrasados – característica decorrente de sua história de colonização e de interferências imperialistas sobre sua política – só alcançaram a estabilidade em momentos de política personalista, como, por exemplo, durante a Argentina de Perón (que deu até mesmo origem ao ‘peronismo’, vertente política predominante no país, com ramificações na esquerda e na direita). Há uma discussão interessante sobre isso: seriam Chile e Uruguai os primeiros países a se livrar dessa ‘herança maldita’? Os militares continuam extremamente poderosos e com alto financiamento no Chile, mas, ao que parece, não são um risco à democracia. Já o Uruguai é considerado, pelo Index of Democracy de 2019, o 15º país mais democrático do mundo, sendo o melhor posicionado da América do Sul – à frente de países como Espanha, França, Portugal, Japão e Estados Unidos.

Uma volta de Lula com a imagem de ‘salvador da pátria’ pelo trabalho que fez quando presidente entre 2003 e 2010 poderia significar a vitória de certo messianismo sobre o fortalecimento institucional, mas o contexto atual tem um aviso muito claro: é preciso derrotar a extrema direita e não há espaço para arriscar.

Dezenas de nomes, de uma diversidade de vertentes ideológicas, já foram aventados para esse papel, mas, ao que parece, nenhum deles decolou: Ciro Gomes, o principal nome da esquerda fora do Partido dos Trabalhadores, não passou dos 10% nas pesquisas; Fernando Haddad, natural sucessor de Lula e candidato do PT nas últimas eleições (nas quais teve mais de 40 milhões de votos) não se consolidou e manteve-se, também, na casa dos 10%, até mesmo abaixo dela; João Dória, o principal nome tucano, que tentou lançar-se como o candidato da direita antibolsonarista e teve papel importante para a chegada das vacinas ao país, não viu seu apoio crescer. Outras especulações também não empolgam: Luiz Henrique Mandetta, Luciano Huck, João Amoedo, Marina Silva, Guilherme Boulos, Flávio Dino, Eduardo Leite e vários outros. No momento, apenas Lula parece ser capaz de derrotar Bolsonaro, e uma união seria ainda melhor, mas ela parece ainda muito distante: Ciro Gomes já declarou que não pretende se aliar ao PT para a disputa em 2022.

O caminho para as próximas eleições:

Dado o cenário, gostando ou não, o ex-presidente parece a principal opção para o retorno à normalidade democrática, para a reconquista de direitos e um projeto que coloque novamente o Brasil rumo ao crescimento econômico. Mas essa volta traz, também, uma missão à população e ao governo: o fortalecimento da democracia e a busca por um projeto de sucessão em que não haja mais medo.

Mas Lula é realmente o único nome capaz de vencer Bolsonaro? Talvez essa seja uma das partes mais complexas da discussão: é impossível imaginar uma candidatura de Lula que não chegue ao segundo turno. Ao mesmo tempo, os concorrentes invocam sempre o ‘antipetismo’ e os casos de corrupção dos antigos governos petistas como uma das razões para que seja outro o representante da oposição no pleito. Há uma grande dificuldade em formar, a partir do caráter democrático, um único bloco para derrotar Jair Bolsonaro: ninguém pretende ceder.

Mas, afinal, qual vaga está sendo disputada, a de Lula ou de Jair? As pesquisas divergem e, no momento, não sou capaz de dar uma resposta.

Como estratégia para capturar um eleitorado que ficou com Bolsonaro em 2018, Lula repete as práticas de 2002 e já aventa o economista do Insper, Marcos Lisboa, para o comando da Fazenda, fazendo um claro aceno aos liberais – que já havia sido feito em 2018, mas fracassou, vale ressaltar – e que pode ser positivo tanto para a reorganização econômica quanto para a expansão democrática em reformas políticas e administrativas necessárias para uma efetiva colocação do Brasil no século XXI, que deve ser feita com diálogo entre democratas das mais diversas linhas políticas.

A esquerda precisa ser capaz de falar e propor, mas também de ouvir, para, através disso e com quadros qualificados, desenvolver uma nova institucionalidade que supere a insegurança vigente.


Tem uma pauta?
Estamos aqui

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser totalmente anônimo, tá?


  • Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    ,

    Dois dias após o primeiro turno das eleições, usuários de esquerda passaram a infiltrar grupos bolsonaristas no Telegram. O resultado foi o reforço da moderação por parte dos administradores, e a aposta em teorias conspiratórias.

  • Todo fascista é corno

    Todo fascista é corno

    ,

    Não é difícil entender que a vontade de escrever é nula, assim como a vontade de acordar, sair da cama e realizar que esse bando de corno não tem mais medo de cantar aos quatro ventos: “sou fascista na avenida e minha escola é a mais querida dos reaça nacional!”.

  • No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    ,

    Grupos bolsonaristas no Telegram reforçam táticas xenofóbicas e criam fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste.

  • Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciamos as notas, reportagens curtas sobre temas relacionados às eleições de segundo turno.

  • A falta da política externa

    A falta da política externa

    , ,

    Às vésperas da eleição mais importante desde a redemocratização, e ainda sob efeito da ressaca moral que assola o país após o clássico debate presidencial da Rede Globo, a ausência da política externa como pauta de discussão demonstra o enorme apequenamento do Brasil.

  • Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam  apoio militar na Ucrânia

    Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam apoio militar na Ucrânia

    , , ,

    Muitos americanos pensam que Biden deveria se apressar e encontrar um acordo diplomático. Mas para os apoiadores da Ucrânia, seja à esquerda ou à direita, a resposta é que Biden se apresse e vença, dando à Ucrânia mais ajuda militar e aceitando mais riscos.

Seja notificado de novas publicações, assine.

Ao se inscrever, o WordPress te atualiza gratuitamente toda vez que publicamos algo novo. Assim, você pode acompanhar nossa redação! Não se esqueça de nós seguir nas redes sociais.

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos criado e equipado por jovens. Buscamos usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança do futuro das novas gerações.