Sobre o Cara que Comeu a Foto do Jason Segel


Hoje eu presenciei algo horrível na internet, uma experiência tão traumática que infelizmente me obrigou a pensar. Essa frase, curiosamente, é também o primeiro período que escrevi na vida em um diário e, provavelmente, deve ser também uma queixa em ascensão em todos os divãs ao redor do mundo, provando como o conceito de se […]


Hoje eu presenciei algo horrível na internet, uma experiência tão traumática que infelizmente me obrigou a pensar. Essa frase, curiosamente, é também o primeiro período que escrevi na vida em um diário e, provavelmente, deve ser também uma queixa em ascensão em todos os divãs ao redor do mundo, provando como o conceito de se comunicar com o mundo, às vezes, não é uma ideia boa. 

Esse meu mais novo trauma de estimação começou no Twitter – coração selvagem desta entidade cósmica maléfica, construída nas ruínas de vídeos de gatinhos e suásticas, que chamamos de rede mundial dos computadores – ambiente no qual alguém até pediu ovo de Páscoa ao Felipe Neto. Essa pequena demanda com o mais distópico comentador político progressista poderia, por si só, ser um daqueles momentos chamados pelos jovens de cringe. Entretanto e infelizmente, alguém o respondeu, e não com uma piada, xingamento, ou clipe de K-pop, mas sim com um desenho que tinha em sua descrição: “claro amigo, pega aqui os ‘ovos’ da Magalu”. Por motivos que envolvem tanto o meu salário nesta revista quanto as próprias recomendações de minha psicóloga, meu psiquiatra e minha advogada (e irmã), deixo ao leitor – igualmente azedado pela criatividade humana – a tarefa de elocubrar na sua cabeça o motivo dos meus mais recentes choros no banho.

A Magalu em questão era a Lu, persona-mascote da – infelizmente considerada de esquerda – rede de lojas Magazine Luíza. A iniciativa de aproximar um perfil associado a uma marca com a casualidade e pessoalidade de um ser humano não é original – assim como todas as ideias saídas da cabeça de alguém que cursou marketing não ironicamente. Nos Estados Unidos da América – onde o povo é muito mais refinado na arte de ser sommelier do capitalismo tardio – houve, ao início da década passada, uma grande erupção de perfis relacionados a cadeias de Fast-Food; todos formulando essa mesma ideia de criar mascotes interativos para marcas. Naquela época, esses perfis, que inicialmente apenas expunham promoções e novos pratos, foram gradualmente possuindo um senso de humor, um gosto por postagens aparentemente desvinculadas do objetivo linear de comunicar as propriedades de sua marca até chegar a seu ápice, no qual uma marca conseguia entender, não ironicamente, ironia. 

Assim como um Golem, o atrativo desses pequenos monstros nunca foi o fato de eles se parecerem conosco, mas sim o vale entre a sua representação de como seria uma pessoa e o que de fato é uma pessoa. Sendo assim, não posso expressar como me espantei quando, ao ver aquele desenho, eu pensei: “rapaz, vazaram um nude da magalu”. E eu estou errado? Pois, se vale a interpretação de um ser que literalmente fala “job” ao invés de “trampo” para formar uma personagem como a Lu, não valeria a interpretação de alguém que certamente precisa ter uma aula de anatomia humana junto com uma consulta urgente ao psiquiatra? Além do fato de ambos provavelmente terem a mesma opinião sobre mulheres em geral, esses dois arquétipos centrais na lógica cultural do capitalismo contemporâneo – o marketeiro e o desenhista de hentai – unem-se também em um fato que eu, infelizmente, preciso admitir: eles entendem porque nós gostamos tanto de celebridades. 

A existência da Lu do Magalu não é uma aberração por meio da qual uma equipe de marketing tenta imitar a formação aparentemente orgânica de uma celebridade, é uma inovação dentro da indústria cultural pois, pela primeira vez, não foi necessário utilizar de um símbolo humano para a criação de seu produto. A sexualização da Lu nessa lamentável prova a favor do anarcoprimitivismo não se distingue, aos olhos do público, das fotos criminalmente vazadas de celebridades reais que acontecem sazonalmente, pois a sexualização e a objetificação acontecidas nesses dois processos vêm do mesmo caminho afetivo. As relações de amor, ódio, cringe, gosto irracional, obsessão, tesão e devoção ecumênica que temos com qualquer celebridade não vêm da mesma fonte que nossa finada convivência real, mas sim de como nós consumimos nossas ideias de como talvez esse ser seja em seu íntimo – tendo apenas como base uma série de conteúdos mediados pelo cheque de pagamento que mantém as barrigas dessas mesmas celebridades cheias de caviar e, mais recentemente, de Monster Energy.

Tudo bem, talvez o amor irracional que você tenha pelo Jungkook seja algo enlatado, mas, se te consola, o meu profundo despertar espiritual em todos filmes do Ryan Gosling também o é. Isso, porém, não faz deles menos verdadeiros pois, mesmo que do outro lado não exista de fato esse objeto por meio qual criamos nosso afeto, as possíveis lágrimas, risadas e sorrisos bobos vindos do consumo dessas personalidades são genuínos e nada jamais tiraria isso de dos nossos corações. Entretanto, ao refletir sobre tal questão, é impossível deixar de se perguntar: o que isso tem a dizer sobre nós? O que isso significa em relação ao nosso desejo de nos expor e de consumir a pele nua da exposição alheia? 

Antes de eu te responder o que eu acho sobre isso, aqui vai um pequeno aviso: escute aqui, amigão, eu não apenas não sou psicanalista como também não tenho a sensualidade distante, a pronúncia do Francês e nem a capacidade de ficar 50 minutos em silêncio sem perguntar a aparência de sua mãe para sê-lo. Meu nome é Arthur Albuquerque, não Christian Dunker, mas, infelizmente para você, eu tenho a mesma disposição de dar as minhas opiniões – com uma camisa informalmente meio aberta enquanto penso na aparência de Lacan quando dava os seus famosos seminários nos anos 60. 

Os nossos afetos não são apenas um pequeno calor que você sente na bochecha ao dar bom dia para o coroinha da sua paróquia ou os sentimentos contraditórios que você teve ao ver novamente um crucifixo depois de ter presenciado a bela obra-prima mística chamada La La Land nos cinemas. Eles são um processo dialético por meio do qual quem ama consome quem é amado enquanto o próprio fato de ser amado é também consumir uma parte do amante. Winnicott, famoso psicanalista inglês, dizia que as mães de recém-nascidos, na sua primeira lactação, formavam com seus filhos um laço afetivo em que ambos se consumiam intrinsecamente. Podemos pegar também essa imagem e pensar que a indústria cultural tenta – e às vezes de uma maneira demasiadamente freudiana – ser a nossa mãe. Não apenas somos colocados para ninar ouvindo a reafirmação de uma falsa segurança em um mundo que diariamente redefine o conceito de colapso, como também somos infinitamente tratados como crianças. Essa cuidadora nos traz os nossos heróis de infância, nossos filmes preferidos e cozinha repetidamente como se fosse a receita daquele bolo que sempre pedíamos em nossos aniversários; tudo aquilo que nos fazia brilhar os olhos quando tínhamos 6 anos. 

Entretanto, o que pode parecer, ao leitor desatento, um ato que possui afeto é, como tudo no capitalismo, uma prisão. Essa mãe revela-se, então, como um demiurgo visto que, ao contrário de uma mãe de carne e osso, a nossa cultura pop não é um ente orgânico, com desejos e esperanças em relação ao nosso bem-estar, mas sim uma indústria, que quer que sejamos para sempre as crianças que assistiram a Star Wars na fita cassete ou que jogaram Super Mario World no Nintendinho do seu primo. Por mais tentador que seja estar eternamente nessa posição, o que podemos fazer das nossas vidas quando somos crianças? O que podemos experimentar, viver e entender quando sempre nos colocamos em uma posição que precisa de um pai, de uma mãe? 

Nossa coletiva falta de reflexão em relação a esses afetos construídos socialmente pela indústria cultural também nos faz cúmplices. Cúmplices porque queremos, de pessoas reais, o comportamento constante da Lu do Magalu. Porque, diante de toda figura pública que tem a chance de nos trazer algo realmente importante, nós demandamos e refletimos as esperanças, tristezas e ilusões que produzimos com a Lu do Magalu. Sendo assim, somos também como Cronos: devorando nossos próprios semelhantes irracionalmente, não nos constituindo com um outro, mas de fato devorando-o, em uma farsa, junto à nossa ideologia. 

Sendo classicamente também um tipo de farsa e possuindo uma relação muito íntima com esse processo afetivo, a arte aqui também serve para atentar contra essa mãe. Adorno, nos anos 50, apontava como, para atentar contra a marcha de uma realidade coisificada que diminui o valor de nossa humanidade perante o sistema capitalista, a literatura havia atentado contra a própria representação da realidade pois só a quebrando seria possível mostrar sua verdadeira lógica de uma maneira realista. Lembrando isso, vejo ecos desse tipo de atentado no que foi, para mim, uma das performances mais interessantes da internet nos últimos anos. No dia 16 de Fevereiro de 2017, Noah Maloney, em seu canal do YouTube intitulado dogshirt, publicou um vídeo chamado “Eu Como Uma Foto do Jason Segel Todos Os Dias Até Ele Comer Uma Foto Minha. Dia 1”, em que ele cumpre exatamente aquilo que prometeu no título. Eu, naquela época com meus ainda não feitos 16 anos, apenas expressei um solene e juvenil lol quando vi esse primeiro vídeo. Entretanto, ao ver o dia dois, três, quatro, cinco…, eu havia compreendido que algo mais estava acontecendo. Não era apenas um conceito que geraria um pequeno print irônico no mar da interne, era um atentado. Assim como o grupo Baader Meinhof, no início da sua atividade clandestina, foi amplamente aceito sobretudo pela juventude, o trabalho de dogshirt foi abraçado, sendo performado em programas de televisão ao vivo, performances teatrais e tendo contado com dezenas de figurantes que se dispuseram a contribuir nessa singela procissão de rebeldia. Mas rebeldia contra o quê? Jason Segel? O Labrador Humano da série How I Met Your Mother? Não, claro que não, esse visionário rebelava-se contra esse afeto e, sendo assim, rebelar-se era justo.

Perto do dia 30, eu já estava perplexo. Eu precisava de alguém com conhecimento acadêmico que pudesse me dar uma luz nesse abismo dentro de mim. Sendo assim, eu fui até o meu então professor de História – e o portador, até hoje, do maior conjunto de cabelos que já vi na vida – para perguntar sobre o assunto. Me surpreendo até hoje com a minha astúcia em tê-lo dito: “mas, professor, este homem é um terrorista dadaísta, isto é incrível!”. Eu ainda não tinha tanto conhecimento sobre as discussões do dadaísmo, mas (agora eu vejo) não poderia estar mais correto em minha observação. Se Marcel Duchamp, exatamente cem anos antes de dogshirt, atentou contra a farsa da representação artística ao botar um Urinol em sua exposição, ao comer a foto de Jason Segel diariamente por cem dias, contando apenas com um líquido e terminando com um saudoso “Hi Jason” ao fim, esse homem estava tentando explodir o Der Spiegel dos nossos afetos. Pois claramente Jason nunca iria comer uma foto dele. Não importa quantos dias passassem e quanto mais deixassem que sonhássemos com nossa rebeldia tosca tomando o poder, nem mesmo o mais carismático dos labradores humanos poderia responder a esse tipo de chamado pois, no fundo, esse labrador é um Cérbero fofo que amansa nossa revolta com ternura enquanto queimamos neste Hades. Entretanto, com o seu rosto igualmente agradável, lembrando-nos daquele amigo que, pela primeira vez nos apresentou Final Fantasy, dogshirt colocava uma causa simples mas que, direta ou indiretamente, tinha a capacidade de nos fazer rebelar contra essa farsa; a farsa da Lu do Magalu. E, mesmo que tenhamos sido derrotados ao dia 100, aqueles foram 100 dias em que, pela primeira vez, eu conclui que o agradável também era mortífero e que o confortável é um veneno. Por isso, rebelar-se contra o comum sempre seria uma das posições artísticas mais justas.



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