Percebo que há, entre um fato e outro, o limiar que desabrocha o sentir. Eis saber qual é. 

Às vezes eu sinto uma distorção tão grande no meu modo de enxergar o mundo. Isso acontece rapidamente, como quando acontece de se enxergar algo e não conseguir descrever os detalhes, mas sabe-se que se viu. Algumas vezes nesta semana, pensei, sem desespero, que muitas coisas em que eu acreditava não faziam o menor sentido. Crio pedestais e, em seguida, eu mesma os desfaço. Nem sempre tão em seguida, mas, quando se desfazem, me dão a sensação de que eu realmente não sei nada. Não há problema em não saber. Posso dizer que, em alguns momentos, é reconfortante perceber que nossos paradigmas não passam de meros equívocos e visões turvas condicionadas a uma experiência individual. Eu não sei se você já sentiu que tinha uma crença forte que talvez, sem que você percebesse, pudesse te aprisionar e, de repente, você descobriu que era apenas uma crença. Como é o nome desse sentimento? Só sei que se vai um peso enorme.

Ontem eu falei na sessão de terapia que, por ter ficado um tempo me sentindo meio oca (para não dizer apática), ao perceber que a sensibilidade havia retornado, me peguei perplexa com a presença dela. Eu vi uma foto e quis chorar e, ao querer chorar, me senti feliz por perceber que estava sentindo alguma coisa. Veja bem, a foto remeteu a emoção. Mas também acontece de ver uma foto e não sentir nada. Percebo que há, entre um fato e outro, o limiar que desabrocha o sentir. Eis saber qual é. Minha analista disse, não com essas palavras, que tirar de mim a sensibilidade que sempre me fora habitual seria uma agressão a minha existência. Às vezes sinto que ela luta por mim até mesmo quando eu estou de saco cheio de ser. Acho bonita essa capacidade de escuta num completo esvaziamento de si, que não coloca as próprias convicções em uma arena com o outro. Eu a agradeço e falo da sua importância, ela diz que é recíproco. Na hora, eu sou acometida por um sentimento enorme de gratidão e, escrevendo isto agora, eu senti de novo. Nem sempre, quando me agradecem ou quando eu digo “obrigada”, estou sentindo, de fato, alguma gratidão.

Quando eu escuto uma música, quando eu leio uma frase que me toca, uma conversa sincera em torno dos acontecimentos da vida, eu percebo que qualquer um desses cenários (e até mesmo outros) possui a capacidade de me fazer sentir viva, a sensação de que, mesmo por alguns segundos, viver realmente vale a pena. Não é em todos os momentos, mas, quando acontece, é fantástico. E a isso, chamo de um dos prazeres de existir. Mas também acontece o contrário. Às vezes eu sou capaz de colocar tanta emoção em algo irreal e sofrer tanto com aquilo que, quando o sentimento passa ou percebo meu equívoco, fico toda atônita por ver mais uma fantasia demolida. Seria interessante ter a capacidade de se desfazer de tudo o que te pesa os ombros e te faz se culpar por não estar ao alcance, coisas que você acredita que sejam necessárias para alguma coisa lá na frente. Valorizado? Acho que é amado. Sabemos que, no fundo, é isto: querer ser amado. Imagina esse esvaziamento? Do que você seria livre?

Houve um tempo em que eu gostava de observar a rua, não a rua em si, mas a composição. De um papel amassado a um galho caído, pensava em como aquilo foi parar ali. E, em seguida, pensava se, quando eu retornasse, o formato se manteria. Mas nunca se manteve. Agora vejo que era mais uma forma de sentir a própria existência.

Eu sei quando estou vivendo no modo automático. Eu sei quando as coisas não me tocam e quando nada parece ter a capacidade de me atingir em cheio. Já fiquei desesperada com medo de não voltar a ser quem sou quando percebia que estava oca de emoções. Mas ainda bem que, numa esquina ou outra, a sensibilidade sempre emerge me deixando toda boba de novo. Eu sorrio quando ela aparece e falo dela como quando se vê o grande amor vir ao seu encontro.

E acho que no fundo é isto: ela também é meu grande amor.