Oxe, a vacina não era pra todo mundo?

Na última quarta-feira, 07/04, a PL 948/21, que permite a compra de vacinas contra a Covid19 pela iniciativa privada, foi encaminhada para o Senado. Caso aprovada, dependerá da sanção presidencial para ser estabelecida. Essa PL permite que empresas vacinem seus funcionários e a condição para a efetivação da compra é que a mesma quantidade de vacinas adquiridas seja doada para o Sistema Único de Saúde brasileiro.

Nesse ponto, uma ressalva importante deve ser feita: os empresários poderão adquirir vacinas que tenham o aval da Organização Mundial da Saúde, mas que não necessariamente tenham sido aprovadas pela ANVISA, o que implica diretamente na distribuição das doses que seriam destinadas ao SUS. Ora, como pode ser difundida para a população geral sem o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária?

A PL em pauta funciona como um grande driblador do respaldo científico que a ANVISA carrega. Esse é o único órgão no país que detém capacidade para aprovar medicamentos, além de possuir anos de dados e pesquisas sobre a saúde pública brasileira. Como garantir, portanto, a eficácia necessária e as condições de salubridade precisas para a ocasião? Não obstante, esse projeto trabalha contra a agilidade de vacinar a população em massa – uma das únicas formas corroboradas cientificamente para driblar a pandemia – uma vez que as farmacêuticas aprovadas pela ANVISA não pretendem negociar com iniciativas privadas neste momento. Além disso, não esqueça que tudo o que temos hoje, ao alcance geral, para enfrentar o vírus, ainda são APENAS uso de máscara, higienização das mãos e isolamento social.

A vacinação de funcionários por meio dessa PL é uma medida irresponsável tomada no desespero de reabrir as grandes empresas, pois esses grandes empresários têm poder monetário suficiente para realizar tais aquisições. Como garantir, então, que os assalariados estarão diante de uma boa vacina?

Então ficam os questionamentos: se vacinas podem ser compradas pelo setor privado sem o aval da ANVISA, como a fila da vacinação será reduzida? Onde estará o papel do SUS em garantir a vacinação para a população? Quem são as pessoas que serão vacinadas?

Essa situação é importante, ainda, para que possamos refletir sobre o papel da ciência na sociedade. Afinal, até onde os princípios morais do ser humano interferem nos produtos que a ciência nos entrega? A marginalização dos futuros não-vacinados – os não contemplados pelo privilégio dessa compra descabida – nos mostra como a ciência é amoral. Das suas pesquisas, obtemos resultados que apenas o ser humano é capaz de decidir como utilizar e, dito isso, é importante lembrarmos que a ciência é feita para a sociedade. Desse modo, deveria ser entregue a ela de forma igualitária e responsável, como todos têm direito.



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