Edward Snowden e seu histórico permanente

Edward Joseph Snowden nasceu em 21 de junho de 1983. Cresceu na Carolina do Norte e no subúrbio de Washington, onde sua mãe, Elizabeth, trabalhava como escriturária na Agência de Segurança Nacional (National Security Agency, NSA) e onde posteriormente Snowden trabalhou. Seu pai, Lonnie, servia na Guarda Costeira dos Estados Unidos. Descrevendo-se como um aluno menos que espetacular, Snowden afirma ter largado o ensino médio durante o segundo ano do colegial. Após isso, optou por fazer um GED – teste para aqueles que não concluíram o ensino médio e buscam um diploma – e, para isso, inscreveu-se em um curso de computação na faculdade comunitária de Maryland a fim de obter os créditos necessários para conseguir o diploma.

Entretanto, Snowden nunca terminou o curso e apenas fez o necessário para conseguir o diploma. Também estudou online para um mestrado em segurança de computadores na Universidade de Liverpool, no Reino Unido, mas não concluiu o curso. 

Enquanto adolescente, Snowden era fã de animes e parecia mais interessado em computadores e tecnologia do que em tarefas escolares e dever de casa. Por ressentir o modo como tarefas eram passadas a estudantes, Snowden buscou um método para burlar seus testes escolares, que eram feitos pelo computador. Analisando o sistema de pontuação, percebeu que poderia “hackea-lo”, até que, um dia, seu professor de matemática questionou-o e descobriu seu método. “Muito inteligente, Eddie, mas você deveria usar esse seu cérebro não para descobrir como evitar o trabalho, mas para fazer o melhor que puder. Você precisa começar a pensar em seu registro permanente.” Anos depois, “Permanent Record” tornou-se o nome da sua autobiografia.

Agora, será, infelizmente, necessário falar sobre as visões políticas do ativista enquanto um jovem adulto – tema recorrente em quase todos os perfis biográficos feitos sobre ele. Snowden ingressou no exército em 2001 com a proposta de “libertar iraquianos de forças opressivas”; tal frase é impactante, para dizer o mínimo. Após se tornar whistleblower, certas visões políticas do ativista enquanto jovem vieram à tona. Como apurado pelo Ars Technica – site que cobre notícias sobre tecnologia, ciência e política – Snowden discutia frequentemente tópicos políticos em fóruns do site dos anos 2001 até 2012 (de seus 18 a 29 anos) e foi responsável por falas extremamente preconceituosas, sob o pseudônimo de “TheTrueHOOHA”

Em uma discussão online sobre racismo, em 2009 (aos 26 anos), Snowden disse: “Fui a Londres ano passado, é onde todos os muçulmanos vivem, eu não queria sair do carro. Pensei que saíra do avião no país errado… foi assustador.” 

No mesmo ano, afirmou que leakers — cidadãos que vazam documentos de segurança nacional ao público — deveriam “levar um tiro”. No entanto, mesmo aparentando ser um grande ‘patriota’ e defensor da segurança nacional, Snowden não gostou da nomeação feita pelo então presidente Barack Obama para diretor da CIA (Central Intelligence Agency), afirmando que “Obama acabou de nomear um maldito político para dirigir a CIA.” Também se ofendeu com uma possível proibição de armas de assalto, escrevendo “Eu e todos meus compatriotas lunáticos e armados da NRA* estaríamos nas escadas do Congresso.” 

 *Associação Nacional de Rifles, organização responsável pelo lobby a favor da indústria de armas sob o pretexto de defender a “segunda emenda”, que garante, sob a Constituição norte-americana, o direito da população de portar armas. A organização declarou falência em janeiro de 2021. 

Snowden durou apenas quatro meses no exército e foi exonerado após quebrar as duas pernas em um exercício de treinamento. 

Entretanto, Snowden acabou conseguindo uma autorização de alto nível para trabalhar em agências de segurança e, assim, percebeu que empregos em tais agências eram escassos, enquanto empregos nas empreiteiras ou empresas ligadas a elas eram abundantes; então Snowden foi trabalhar para uma delas. No processo, ele notou que muito do trabalho das agências de inteligência e de segurança dos Estados Unidos era, na realidade, feito por empresas privadas, não por funcionários públicos. Isso é mais um dos truques administrativos, nesse caso, feitos para contornar limites federais impostos por legislação para contratação de funcionários públicos. 

No ano seguinte à sua exoneração, trabalhou como segurança em um centro de pesquisa da Universidade de Maryland afiliado à NSA. Mesmo com a relativa falta de educação e de treinamento formal – diplomas acadêmicos, cartas de recomendação e afins – ele demonstrava aptidão natural para mexer em computadores e aparelhos tecnológicos e acabou sendo contratado pela Agência Central de Inteligência (mais conhecida como CIA), em 2006.  

15 de junho de 2013 – Manifestantes em Hong Kong se reunem em apoio a Edward Snowden.

No mesmo fórum da Ars Technica, Snowden escreveu que não teve problemas para conseguir trabalho, pois era um “mago do computador”. Depois de se destacar na equipe, Snowden foi enviado para uma escola secreta da CIA disponível somente para especialistas em tecnologia, morando em um hotel por meses enquanto estudava e treinava em tempo integral. 

Seu próximo trabalho foi como uma espécie de “espião” para a agência. Foi designado para a “United States Mission to the United Nations” – missão diplomática que representa os interesses dos Estados Unidos perante as Nações Unidas e outras organizações internacionais – na Suíça, onde recebeu um passaporte diplomático e uma casa de luxo. 

“Fui treinado como espião no sentido tradicional da palavra, já que vivi e trabalhei disfarçado no exterior – fingindo trabalhar em um emprego que não sou – e até mesmo recebendo um nome que não era meu.”, disse Snowden em uma entrevista. “O governo pode negar essas coisas. Eles podem enquadrar isso de certas maneiras e dizer: ‘Bem, você sabe, ele é um analista de nível inferior’. Mas o que eles estão tentando fazer é usar uma posição que tive em uma carreira, aqui ou ali, para distrair da totalidade da minha experiência, que é que trabalhei para a Agência Central de Inteligência, disfarçado, no exterior.”

Ele descreveu sua experiência em Genebra como extremamente formativa, afirmando que a CIA deliberadamente embriagou um rico banqueiro suíço e, como se não fosse o suficiente, encorajou-o a dirigir para casa. Snowden afirmou que, quando o banqueiro foi pego e posteriormente preso por dirigir embriagado, um agente da CIA foi até a delegacia oferecer-se para ajuda-lo em troca de que ele se tornasse um informante. 

Porém, de acordo com o New York Times, o supervisor de Snowden na agência escreveu um relatório prejudicial em sua ficha pessoal, notando uma distinta mudança no comportamento do jovem e em seus hábitos de trabalho, afirmando que haveria uma suspeita preocupante. 

A CIA suspeitava que Snowden estava tentando invadir arquivos e documentos confidenciais aos quais ele não tinha acesso e, por isso, decidiram mandá-lo para casa naquele dia. Os ‘alertas’ foram ignorados já que, aparentemente, a nota de advertência de seu antigo supervisor não foi encaminhada para a NSA, ou Agência de Segurança Nacional, onde Snowden foi trabalhar posteriormente. 

Em 2009, Snowden saiu da CIA e começou a trabalhar como funcionário contratado para a Dell, que gerencia sistemas de computador para diversas agências governamentais — incluindo a Agência de Segurança Nacional — e, assim, ingressou na agência. Designado para uma instalação militar no Japão, próxima a Tóquio, Snowden era responsável por instruir altos funcionários e oficiais militares sobre como defender suas redes de hackers chineses. 

Em 2010, ele retornou aos fóruns da Ars Technica após uma longa ausência. A sua nova preocupação, no entanto, deixara de ser técnica e se transformara em política. “A sociedade realmente parece ter desenvolvido uma obediência inquestionável com pessoas de tipos fantasmagóricos”, escreveu ele. “Chegamos a um ponto onde estamos por meio de uma ladeira escorregadia que estava totalmente sob nosso controle para parar, ou foi uma mudança de mar relativamente instantânea que passou despercebida por conta do sigilo governamental generalizado?”

Ele disse ao The Guardian que, naquela época, estava desapontado com o fato de o então presidente Barack Obama “ter avançado com as mesmas políticas de seu antecessor”, mostrando que sofreu algumas mudanças ideológicas enquanto trabalhava na agência.  

Durante os quatro anos que trabalhou para a Dell, conseguiu passar do cargo antigo para “supervisor de atualizações do sistema de computador”, trabalhando como “ciber estrategista” e “especialista em contraespionagem cibernética” em várias localidades dos Estados Unidos segundo o que seu currículo afirmou. Nesse período, retornou aos Estados Unidos e recebeu o cargo de tecnólogo responsável pela conta empresarial da CIA com a Dell. 

Foi nesse período que ele teve seu colapso. Em seus últimos meses trabalhando para a Dell, Snowden arquivou entre cinquenta mil e duzentos mil documentos secretos. Em março de 2013, demitiu-se após ver “o (então) Diretor de Inteligência Nacional, James Clapper, mentir diretamente sob juramento ao Congresso.” 

Então, assumiu um cargo na firma Booz Allen Hamilton, empresa que presta serviços de consultoria e gerenciamento envolvendo tecnologia e segurança, sobretudo para agências governamentais como a NSA.  “Minha posição na Booz Allen Hamilton me concedeu acesso a listas de máquinas, em todo o mundo, que a NSA hackeava. É por isso que aceitei essa posição”, disse Snowden ao South China Morning Post.

Pouco tempo após assumir a posição, foi enviado para o Centro de operações regionais do Havaí – propriedade da NSA –, que é focado no monitoramento eletrônico da China e da Coreia do Norte. 

Oficiais, em uma de milhares tentativas de descredibilizar Snowden após os vazamentos, afirmaram que sua posição era somente como administrador de sistema. Entretanto, ele era um analista de infraestrutura, o que significava que seu trabalho era procurar novas maneiras de invadir e hackear tráfegos de internet e telefone em todo o mundo. 

Durante esse período, Snowden afirma que sentiu dificuldade para contar a sua namorada, hoje sua esposa, Lindsay Mills, o que estava acontecendo. “Eu não podia dizer a ela que suas informações estavam sendo coletadas, que as informações de todos estavam sendo coletadas, o que era equivalente a uma ameaça do governo: se você sair da linha, usaremos sua vida privada contra você”, escreve Snowden em sua autobiografia. 

4 de julho de 2013 – ‘Pardon Edward Snowden’ (Perdoe Edward Snowden) no Justin Herman Plaza, Estados Unidos. Fotografia por Steve Rhodes.

Uma fonte anônima contou a Reuters que Snowden pode ter persuadido – ou tentado – 20 a 25 colegas de trabalho a lhe fornecer suas credenciais de login, alegando precisar delas para fazer seu trabalho. Em um memorando enviado ao Congresso pela NSA, a agência afirma que Snowden havia enganado um colega de trabalho para compartilhar seu certificado de infraestrutura de chave pública pessoal para obter maior acesso ao sistema da NSA. Ele contestou esse memorando, afirmando: “Eu nunca roubei nenhuma senha, nem enganei um exército de colegas de trabalho.” 

Os vazamentos | Como ele obteve os documentos?

Quando Snowden roubou os segredos da Agência de Segurança Nacional, ele não precisou usar nenhum dispositivo sofisticado ou contornar qualquer armadilha complicada. Na realidade, o processo foi bem, bem simples. Ele só precisou de alguns pen drives e a coragem de roubar documentos secretos. Jason Healey, ex-oficial de cibersegurança durante a era Bush, afirmou que o Departamento de Defesa e a Agência de Segurança Nacional “desperdiçaram anos” tentando acompanhar tecnologia e práticas de segurança usadas no setor privado. “O Departamento de Defesa e, especialmente, a NSA são conhecidos por sua incrível segurança cibernética, mas isso parece um pouco fora de lugar”, disse o ex-oficial. “Eles são ótimos em algumas tarefas sofisticadas, porém estranhamente ruins em muitas das mais simples.”

Durante seu tempo na base da Booz Allen Hamilton, Snowden possuía acesso aos servidores da agência por meio de um computador “thin client” que tinha uma configuração desatualizada, o que significava que ele tinha acesso direto aos servidores da sede da agência em Fort. Em um sistema “thin client”, cada computador remoto é, essencialmente, um monitor glorificado, com a maior parte do poder de computação atrelado ao servidor central. Os computadores individuais tendem a ser atribuídos a indivíduos específicos e o acesso da maioria dos usuários pode ser limitado a tipos específicos de arquivos com base em um perfil de usuário.

Como Snowden não era como a maioria dos usuários, ele possuía acesso quase ilimitado a informações confidenciais, assim como a função de um “administrador de sistemas”. Com essa função, tinha permissão para consultar qualquer arquivo dentro de suas limitações sem que suas ações fossem auditadas. 

Os vazamentos | O que os documentos diziam?

O arquivo providenciado por Snowden é tão imenso que agências de mídia apenas publicaram uma pequena parcela. Entre todas as tramas, crimes e invasões de privacidade vistas nos arquivos, falarei de duas em específico que chamam a atenção: o caso de espionagem da empresa telefônica Verizon e o programa de inteligência denominado de PRISM.

O caso de espionagem da empresa Verizon começou através de uma ordem judicial secreta. A agência coletou, sem consentimento, os registros telefônicos de milhões de clientes da empresa. 

Durante a era Bush, era comum que funcionários de agências de segurança divulgassem a repórteres a coleta em grande escala de dados de registros de chamadas pela NSA, sobretudo em razão do ataque terrorista do Onze de Setembro – marcado na história não só pela sua violência, mas pelo início de uma nova era de vigilância mundial – e da chamada Guerra ao Terror.

A nova ordem obrigava a empresa a entregar informações sobre todas as chamadas telefônicas – feitas dentro e fora dos Estados Unidos – em seu sistema diariamente. As informações continham a localização e números de ambas as partes, identificadores exclusivos, hora e duração de todas as chamadas. O conteúdo da conversa em si não era, de acordo com o documento, coberto. 

Outubro de 2013 – manifestação ‘Stop Watching Us’ – ‘Parem de nos observar’, tradução livre – na capital dos Estados Unidos.

A natureza ilimitada dos registros entregues à agência foi extremamente incomum. As ordens judiciais da Fisa (Foreign Intelligence Surveillance Court – Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira, traduzido) normalmente direcionavam a produção de registros telefônicos pertencentes a um alvo nomeado específico, seja alguém suspeito de ser agente de um grupo terrorista ou estado estrangeiro, seja um conjunto finito de alvos nomeados individualmente. Dessa vez, todos os usuários da empresa estavam na mira. 

Em 2013, o jornal O Globo divulgou um infográfico baseado nos relatórios eletrônicos divulgados por Snowden, mostrando que o Brasil foi o país mais monitorado pela NSA, apenas atrás dos Estados Unidos. O Brasil teve mais de 2,3 bilhões de mensagens e telefonemas espionados no período de 2001 a 2013. 

No mesmo ano, um relatório produzido pelo Grupo Presidencial para Revisão da Inteligência e Tecnologia de Comunicações – painel criado pelo então presidente Barack Obama após a revelação dos programas de vigilância da NSA para rever as atividades do governo – concluiu que a parceria entre programas de vigilância, como o da NSA, com a colaboração de empresas como a Verizon “não é essencial para a prevenção de ataques terroristas”.

Entretanto, a espionagem através da empresa não chega nem aos pés do que foi (e possivelmente ainda é) o PRISM – ou SIGAD US-984XN para os íntimos –, o codinome de um programa dentro da Agência de Segurança Nacional o qual coleta comunicações de diversas empresas de Internet dos Estados Unidos. 

Além disso, o The Guardian reportou, na época, que o GCHQ – equivalente britânico à NSA – também estava secretamente reunindo inteligência das mesmas empresas de internet por meio de uma operação montada pela NSA. De acordo com documentos obtidos pelo The Guardian, o PRISM parece permitir que o GCHQ contorne o processo legal formal exigido na Grã-Bretanha para buscar material pessoal – como e-mails, fotos e vídeos – de uma empresa de internet sediada fora do país.

O programa também foi iniciado anos atrás, durante a era Bush, porém só foi revelado ao público após os vazamentos de Edward Snowden. O congresso norte-americano concordou com o Ato Protect America em 2007 – que removeu a exigência de um mandado legal de vigilância governamental para alvos de inteligência estrangeiros considerados como fora dos Estados Unidos –, o que imunizou empresas privadas que cooperaram com os programas norte-americanos. 

De uma maneira extremamente resumida, o programa funciona através de uma parceira entre as empresas privadas e ambas as agências. Coletando metadados – grandes conjunto de dados, podem ser chamado de dados sobre dados – a partir de suas redes sociais, ligações, mensagens e afins, as agências conseguem formar um ‘perfil’ sobre você: o que gosta, quem conhece e até o que pensa.

As empresas cujos dados são coletados incluem: Microsoft, Yahoo, Google, Facebook, PalTalk, YouTube, Skype, AOL e Apple. Outros serviços, incluindo o Dropbox, foram supostamente definidos para serem adicionados à lista. Em um slide divulgado, a agência explica o funcionamento do programa, como agentes de segurança podem e devem utiliza-lo, qual seu propósito, mas também citam outro programa, com potencial muito mais destrutivo e totalitário, denominado de MUSCULAR (DS-200B).

Os documentos mostram que a diretoria de aquisições da NSA envia milhões de registros e documentos todos os dias do Yahoo! e redes do Google para armazéns de dados na sede da agência em Fort Meade, Maryland. O programa opera por meio de um ponto de acesso que fica fora dos Estados Unidos e através de uma operadora de telecomunicações não identificada para fornecer acesso secreto para a NSA e o GCHQ. De acordo com o Washington Post, o MUSCULAR coleta duas vezes mais informações do que o PRISM. 

Em um post-it anexado na apresentação de slides, a agência mostra um interesse em invadir nuvens privadas de empresas como o Google e o Yahoo. A nota fala que, como o Google não utilizava criptografia ao transmitir informações em sua nuvem privada, eles seriam fáceis de acessar.  De acordo com o Washington Post: “Dois engenheiros próximos ao Google explodiram em palavrões quando viram o desenho.” 

Depois que as informações sobre o MUSCULAR foram publicadas pela imprensa, o Google anunciou estar trabalhando na implantação de comunicação criptografada entre seus datacenters. 

O PRISM também foi utilizado para espionar líderes mundiais, como a ex-presidente brasileira, Dilma Rouseff. O Fantástico noticiou na época que diversos assessores da presidente foram vigiados pelos Estados Unidos. Eles também levaram a espionagem a outro nível, monitorando não somente assessores, mas as comunicações entre assessores e outras pessoas. Dessa maneira, criou-se uma rede de comunicações da ex-presidente e pessoas próximas a ela.

De acordo com o documento, o objetivo de espionar a ex-presidente era “melhorar a compreensão dos métodos de comunicação e dos interlocutores da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, e seus principais assessores”. Também afirmam que o método é uma “filtragem simples e eficiente, que pode ser repetido contra alvos de alto escalão”.

O programa foi renovado pelo Senado norte-americano em 2018, mas encerrado no ano seguinte. A divulgação de que o programa aparentemente foi encerrado por meses “muda todo o cenário do debate”, disse Daniel Schuman, o diretor de políticas da Demand Progress, um grupo de defesa que se concentra nas liberdades civis e responsabilidade governamental.

Já que “o céu não caiu” sem o programa, disse ele, a comunidade de inteligência deve argumentar que revivê-lo é necessário – se, de fato, a Agência de Segurança Nacional julgar que vale a pena continuar tentando fazê-lo funcionar.

O programa de registros telefônicos nunca havia impedido um ataque terrorista, um fato que emergiu durante o debate pós-Snowden.

“Se houver um programa em andamento, mesmo que todos nós tenhamos dúvidas sobre ele, isso é uma questão política muito diferente do que se o programa realmente fosse interrompido”, disse Schuman. “Então a questão é: ‘Por que reiniciá-lo?’ em vez de desligá-lo. ”

No ano passado, um painel de três juízes afirmou que “o papel do programa, em um caso criminoso de arrecadação de fundos para atividades ilegais contra quatro imigrantes somalis, foi tão pequeno que nem chegou a prejudicar suas condenações”. O tribunal não discordou da maior parte dos argumentos do Departamento de Justiça – tampouco disse que a espionagem era definitivamente inconstitucional – mas afirmou que “coletar os metadados não equivalia a uma busca sob um precedente legal porque os clientes voluntariamente compartilham informações com empresas telefônicas e de internet”.

Com isso, o painel considerou como ilegal a espionagem da agência.

A vida após o exílio:

Snowden começou a fugir das autoridades norte-americanas logo após os vazamentos. Primeiro foi para Hong Kong, depois fez um voo para a Rússia e buscou ir para seu destino final: a América Latina.

É necessário fazer um adendo: foi fabricada uma história, por parte de autoridades e representantes políticos norte-americanos, que o ativista teria ido à Rússia com apoio do país, buscando ‘manchar’ a imagem dos Estados Unidos. Isso é uma mentira. Na realidade, autoridades russas só tiveram noção de que Snowden estaria indo para a Rússia enquanto ele já estava no avião.

Junho de 2013 – manifestação em apoio a Edward Snowden na Alemanha.

Durante uma entrevista com o documentarista Oliver Stone, o presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, descreveu como a Rússia se envolveu na saga de Snowden. Inicialmente, o país não quis se envolver por conta de sua relação tensa com os Estados Unidos, que não queria piorar. Depois disso, souberam que o ativista já estava em um avião com destino a Moscou a fim de ser transferido para outro com destino à América Latina. Enquanto ele estava a bordo, países latino-americanos ficaram relutantes em deixá-lo desembarcar – com medo de represálias dos Estados Unidos – e Snowden ficou preso na área de trânsito do Aeroporto Internacional Sheremetyevo de Moscou. Durante o tempo em que estava lá, autoridades norte-americanas pediram à Rússia que extraditasse Snowden.

No entanto, isso não foi possível. Pouco tempo antes de toda essa situação, a Rússia propôs um tratado de cooperação em questões jurídicas, exigindo a extradição mútua de criminosos, com o qual os Estados Unidos não concordaram e logo o acordo foi descartado. Além disso, os Estados Unidos nunca extraditaram nenhum criminoso russo que tivesse pedido asilo nos Estados Unidos, portanto, a extradição de Snowden não teria precedentes. Ele não havia cometido nenhum crime de acordo com a lei russa e, por isso, não foi extraditado.

No ano seguinte, foi revelado pelo BuzzFeed que um funcionário anônimo do Pentágono disse querer assassinar Snowden. “Eu adoraria colocar uma bala em sua cabeça”, disse o oficial, chamando Snowden de “o maior traidor da história americana”. Membros da comunidade de inteligência também expressaram sua hostilidade violenta. “Em um mundo onde eu não seria impedido de matar um americano”, disse outro analista da Agência de Segurança Nacional, “eu pessoalmente iria matá-lo eu mesmo“. Um porta-voz do Departamento de Estado condenou as ameaças pouco tempo depois.

Atualmente, Snowden possui residência permanente na Rússia – o que não equivale a uma cidadania. Sua fonte de renda é, majoritariamente, palestras nas quais ele fala sobre segurança digital, privacidade de dados e assuntos relacionados. Ele se recusou a receber os lucros vindos da publicação de seu livro, Permanent Record.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos também arquivou mais um processo em um tribunal de Massachusetts, alegando que o ativista teria recebido mais de 1.2 milhões de dólares – aproximadamente 6.8 milhões de reais – em palestras nas quais ele ‘expunha’ segredos de Estado do país, buscando a pena de perjúrio. Esses documentos também foram utilizados para manter a narrativa de que o ativista teria feito isso em prol de benefícios pessoais – além de claro, ser um suposto ‘espião russo’.

Um fenômeno interessante surgiu dos vazamentos, chamado de ‘Efeito Snowden’. Jay Rosen, professor de jornalismo da Universidade de Nova Iorque, descreve o efeito como “ganhos diretos e indiretos no conhecimento público da cascata de eventos e relatórios adicionais que se seguiram aos vazamentos de informações confidenciais de Edward Snowden sobre o estado de vigilância nos Estados Unidos.”

Uma pesquisa feita pelo instituto norte-americano Pew Research também demonstrou como o ‘Efeito Snowden’ gerou uma oposição global às táticas de vigilância dos Estados Unidos.

Em quase todos os países presentes na pesquisa, a maioria dos entrevistados opõe-se ao monitoramento pelo governo norte-americano de e-mails e ligações de líderes estrangeiros ou de seus cidadãos. Em contraste, os norte-americanos tendem a acreditar que escutar líderes estrangeiros é uma prática aceitável e estão divididos quanto ao uso dessa técnica em pessoas comuns de outros países. A maioria dos norte-americanos também acredita que é aceitável espionar suspeitos de terrorismo ao redor do mundo, mas acreditam que é inaceitável espionar cidadãos americanos.

Além disso, a maior parte dos países entrevistados se opõem fervorosamente ao uso de drones como ferramenta de vigilância ou ‘combate ao terrorismo’. Em 39 dos 44 países pesquisados, a maioria se opõe aos ataques de drones dos Estados Unidos em países como Paquistão, Iêmen e Somália, em prol da ‘luta contra o extremismo’. Além disso, a oposição aos ataques de drones aumentou após os vazamentos de Edward Snowden. Israel, Quênia e os Estados Unidos são as únicas nações pesquisadas onde pelo menos metade do público entrevistado apoia os ataques.

A trajetória de Snowden se assemelha a história de Chelsea Manning, assim como de Julian Assange. Todos possuem um ponto em comum: aparentemente, se atentar contra o eterno estado de vigilância e guerra dos Estados Unidos pode ser considerado como algo mais grave do que os crimes cometidos pelo próprio país.



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