Quando minha vida vai começar?

Logo no início da série “Euphoria“, nós somos apresentados a Lexi Howard (Maude Apatow)uma amiga de infância da protagonista, Rue (Zendaya). O traço principal de sua construção como personagem – ou seja, aquilo que marcaria sua trajetória ao longo da série – é simples: (em um contexto regado a sexo, drogas e eu nem lembro mais o que) ela é a certinha. Tão certinha que uma de suas primeiras contribuições para a história é urinar num potinho para o teste de drogas que a mãe da Rue fez a filha fazer.

E fica meio que por isso mesmo. Em cada início de episódio, um pouco da história dos personagem-chave é narrada, mas, pelo menos até o fim da primeira temporada, a Lexi fica de fora.

Ficar de fora é minha especialidade, viu? E, hoje – em meio a uma pandemia, estando todos nós sem perspectivas de quando retomaremos nossas vidas (não só as sociais) –, eu não poderia estar mais cansada de ser a Lexi.

Já posso ser presa, fumar, beber, apostar na Mega-Sena, dirigir; mas escolhi não viver. Não que “viver”, para mim, seja sinônimo apenas do que listei, mas putz. Todo dia é uma semicrise existencial só de lembrar como tudo está sendo cada vez mais adiado e sem previsão de acontecer.

Não só as minhas, como as de todas as Lexis mundo afora. Não estou sozinha nessa, eu sei, mas é difícil não se sentir a única pessoa cantando essa música, tendo mantido um isolamento acústico e físico erguido durante anos. No mínimo 4 anos antes de a pandemia começar.

Os 4 anos mais desperdiçados de minha vida foram alguns dos últimos tempos de normalidade a que o mundo assistiu antes de a programação mudar para noticiários anunciando absurdos saindo da boca do presidente, prolongações do lockdown, reduções da expectativa de compra de vacinas, novos recordes de mortes, milhares de histórias chegando ao fim nas últimas 24h… Me sinto absurdamente culpada de, em meio a tudo isso, estar fazendo um texto tão pessoal. Mas não sei escrever sobre política, então preciso caçar com gato.

Só queria encontrar um culpado. Culpar o Bolsonaro. Culpar o vírus. Culpar os deuses. Mas a culpa, no final do dia, só cai sobre mim. Eu, que desperdicei a minha adolescência tentando entender matérias que eu nunca compreenderia, deixando amizades de lado por medo de estraga-las, me colocando no plano de fundo porque nunca me senti digna de ser protagonista.

Ainda não sei o que fazer para mudar isto, mas o fato é: sou uma das Lexis do mundo e sei que não estou sozinha.

O que me resta, no momento, é ficar em casa enquanto as temporadas passam.

E mais algumas acabarão sem que o narrador conte minha história.



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