Saudade e arte, uma breve viagem de trem.

“Saudade: Sentimento nostálgico e melancólico associado à recordação de pessoa ou coisa ausente […]“.
A palavra única da língua portuguesa, curta e afiada como adagas e adagas estas que perfuraram os corações de diversos homens assim fazendo com que estes sangrassem versos e derramassem poesia aos ouvidos do povo.


Serão três áreas a serem abordadas nesse texto, assim como três paisagens a serem apreciadas nessa viagem com bilhetes ilimitados: primeiro, uma viagem a pintura, em seguida de uma breve passagem na literatura e, por fim, uma última parada na estação musical.

Nos campos das telas e cores começa a viagem. O guia desse percurso é o pintor realista paulista José Ferraz de Almeida Júnior que, antes de tudo, apresenta a vista posicionada à esquerda pelas janelas do expresso – ou a imagem que você avistou assim que entrou nesse artigo – em seu quadro intitulado “Saudade”, pintado no ano de 1899. Uma dama lendo o que aparenta ser uma carta expressando um certo pesar em seu rosto. O que podemos pensar sobre a palavra saudade? A definição que um dicionário oferece está tão distante assim do que um mero brasileiro conseguiu transpor em suas humildes pinceladas?

Não existe uma resposta correta para isso porque o seu sentimento de saudade difere do seu próximo e de qualquer outra pessoa que você imaginar. Talvez o que nosso guia queira nos mostrar com sua obra é que em alguns casos a saudade pode ser uma mulher distante, lendo quem sabe uma carta antiga de um amor já esquecido. Quiçá a saudade seja o sentimento que inundou sua cabeça quando leu cada palavra desse texto até agora, e é por isso que a saudade é um sentimento incrível e invencivelmente único.

Deixando José Ferraz de Almeida Junior, um homem com um nome extenso, embarca-se agora na jornada com o homem de muitos nomes: Fernando Pessoa. Inúmeros heterônimos embarcaram na vida desse escritor nascido em Lisboa e que presentou o mundo com sua escrita. Muitos foram seus poemas, mas hoje ele nos aponta para “Venho de Longe e Trago no Perfil”.

“[…] Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim, vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi… [...] “


O português enfim traz a luz o que a saudade nos torna. Torna os homens sua própria melancolia, como a mulher observa a carta, se lembra do amor que passou e seu rosto se contorce em tristeza. O que se resta ao encarar tal sentimento é tornar-se ele próprio, tornar-se a lembrança daquilo que foi embora.

Assim se aproxima o fim da viagem, assim se aproximam duas pessoas magníficas que cantam sobre a sensação esmagadora que assola a todos os homens.

Abram seus ouvidos primeiro para o canto de Rodrigo Zin, jovem rapper curitibano que em seu álbum de 2018 intitulado Francisco Oceano nos leva a uma viagem sobre o que é a aceitação da saudade na sétima faixa “Flow de Quem Já Partiu”.

Em cenários de lembranças, modernidades e melancolia o artista descreve como pode ser uma relação com alguém, mas o que interessa neste texto é o que vem depois disso tudo: a aceitação de não ter mais aquele ser na nossa vida, não reviver os toques, os sons ou as palavras ditas. A aceitação de que tudo isso se foi e junto disso, uma parte da pessoa que era.


Agora se convoca para a roda o cearense Antônio Carlos Belchior, que tem a palavra final sobre esse texto e sobre a colocação da particularidade da palavra “saudade” como algo belo para nós.
Visto que, em sua música “Tudo Outra Vez”, o cantor reclama pelo “fim do termo saudade como charme brasileiro”. E não estaria ele correto? Temos o domínio sobre uma palavra que representa tudo aquilo que se foi, mas não sobre o sentimento. Onde está todo o charme nessa dor que consome o mundo diariamente? Toda a população mundial consegue expressar esse sentimento por meio de palavras, os falantes da língua portuguesa só tem a vantagem de terem um termo mais curto e as únicas vantagens que isso nos trouxe foram títulos mais curtos para artes mais dolorosas e longas.

Aqui acaba essa rápida viagem, sintam-se à vontade para sentir saudades dela.



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