Vai ver o Brasil deu certo e a gente nem sabe.

A moça que vende tapiocas na entrada do shopping estava com a loja vazia quando eu cheguei alvoroçada pensando se eu não já não deveria pedir duas tapiocas de uma vez. Perguntei seu nome de ímpeto e, nesse dia, apesar da fome, estava conseguindo perceber ambientes e pessoas sem a ansiedade que dificilmente tem me abandonado. Eu já falei sobre o automatismo de uma vida pandêmica e, para ser colunista, como disse o saudoso Contardo Calligaris, você precisa encontrar, naquela semana, na sua vida, alguma coisa que valha a pena ser contada para os outros. E isso também melhora a intensidade com que se vive. É preciso estar atento, bem mais que forte.

Com um ar autocentrado, elogiei sua agilidade no preparo da iguaria e contei a ela sobre as minhas tentativas frustradas que desembocavam em panela queimada, tensão e zero feito. Ela sorriu entre solidariedade e acolhimento e talvez tenha pensado o que eu mesma também penso sobre mim: sou um completo desastre na cozinha. Em seguida, ela disse que, quando a massa era boa, era mais simples e que as farinhas de tapiocas vendidas no mercado mais pareciam restos do que realmente uma legítima massa de tapioca.

Ju disse que acorda bem cedo todos os dias para o início do ritual de um dia de trabalho. Faz a massa e, quando acaba, infelizmente não improvisa com o que tiver, o que ela chamou de “Se acabar, acabou”. Me contou que seus filhos não tomam café da manhã tradicional, com pães e bolos; quando acordam, por terem massa de tapioca pronta, logo comem. Seu marido, mineiro, casado com ela, cearense, também sabe fazer tapiocas – afinal, para que serve um casamento senão uma boa troca? Seu filho mais velho e sua filha de sete anos também compartilham o mesmo aprendizado. Ela ria enquanto preparava minha tapioca e falava de como o barulho do shopping aberto a fazia sentir-se em casa. A quantidade de pessoas que passavam diante dos seus olhos, todos os clientes, suas particularidades e conversas, traziam à tona o tempo vivido no Ceará, os vestígios de uma mocidade apressada pelo labor e pela iminência da necessidade de se viver uma vida mais justa. Me falou do céu da sua cidade, das pessoas e que a professora do seu filho a chamou à escola pela advertência dada à criança, que soltou fleumático à colega de turma: “Mulher, senta a bunda aí e faz o dever”. Era difícil explicar à diretora da escola e à professora do menino que a forma coloquial da linguagem eram puro regionalismo e, além disso, um estilo de vida. Não é que falassem com uma certa braveza ou arrogância; a entonação, seus vocábulos cheios de circunflexos originavam-se da mulesta, da peste, do sertão e de um Brasil altamente tropical.

Ju me ensinou sobre tapiocas em poucos minutos de conversa. Pela sorte do destino, resolveu morar na minha cidade e trazer seu aprendizado, sua vontade de trabalho, sua agilidade, sua misericórdia e devoção a um lugar que nunca a pertenceu, mas ela achou uma boa ideia inseri-lo na sua vida pessoal e intransferível.

Pensei nas mais diversas pessoas que tiveram o impulso de trocar de cidade na busca por uma vida melhor. Levaram o que sabiam no bolso e a possibilidade de impactar tantas outras pessoas com o conhecimento de uma vida sofrida e tão cheia de deveres. Elas, assim, fazem deste país um emaranhado de gente que sonha, que se dá ao trabalho, dá o sangue e a própria vida para fazer essa engrenagem funcionar. Assim, com o sorriso no rosto e, ao que parece olhando a Ju, muito amor no coração.



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