Sempre vivi minha vida em função de sair, fugir do lugar onde eu estivesse; e os três últimos anos não foram diferentes. Na verdade, foi durante eles que esse desejo de fuga foi mais intenso. Estudar fora, sair do país, não estar no Brasil: era disso que eu precisava e aquilo que mais queria.

Alguns dias atrás, porém, tudo foi por água abaixo. Bastou acordar e abrir um e-mail para o vórtice se formar. Tudo que aprendi e ensinei sobre inscrições em universidades no exterior, todas as milhares de palavras e textos que tive que escrever falando de mim mesma, todos os monólogos e audições que preparei, tudo tudo tudo não serviu para nada. Quando chegou minha terceira rejeição como bolsista, meu chão estava a um sopro de ruir.

Bom, era só o que eu pensava, porque, na verdade, eu não senti nada.

Talvez sair daqui não fosse tão importante para mim, afinal. Talvez eu não tenha trabalhado o suficiente, ou nunca seja suficiente. Quem sabe o estado de anestesia em que me coloquei para sobreviver mentalmente à pandemia tenha ajudado esse sonho a desmoronar bem antes de eu perder minha última chance de atingi-lo. Enfim: eu acho que esse sonho nunca foi minha Vinland.

E digo isso por que, mais uma vez, venho aqui escrever sobre um anime. Dessa vez, no entanto, estou falando de “Vinland Saga“, um desenho japonês que se passa no norte da Europa durante a época em que vikings existiam. Sendo assim, conta a história de Thorfinn (Shizuka Ishigami e Yuto Uemura), o filho de Thors (Kenichiro Matsuda), um lendário guerreiro jomsviking que fugira para um vilarejo na Islândia, onde pôde viver sua vida junto à esposa e aos filhos.

“E aqueles que querem fugir daqui? Pra onde vão?”

Lá, os garotos sonhavam em fazer seus nomes por meio da guerra e Thorfinn não era diferente. Mesmo com seus 6 anos de idade, já tinha a mesma ambição e, para atingi-la, ansiava por escapar daquele lugar. O nome do anime é uma referência a Vinland, a terra onde se passavam as histórias fantasiosas do velho Leif Erikson (Yoji Ueda) e que povoavam o imaginário do pequeno Thorfinn.

“Muito, muito a oeste, do outro lado do mar, há uma terra chamada Vinland. É quente e fértil. É um lugar distante, sem comerciantes de escravos ou guerra. O que você acha? Venha viver conosco lá um dia”

Logo no primeiro episódio, a importância central dessa fantasia nos é mostrada quando, diante de um escravo foragido em seu leito de morte, Thors descreve esse lugar para que o homem possa ter pelo menos um pequeno vislumbre de esperança antes de expirar pela última vez. A quimera torna-se as últimas que ele ouve antes de morrer.

Ao longo da primeira temporada, vemos o garoto fofinho que vivia brincando com espadinhas de madeira se transformar em uma máquina de guerra. Por fora, ele é quase um animal, mas o mais triste é ver os vestígios de humanidade que restam em seus olhos e, quem sabe, assolam sua alma. Ele só vive para matar um homem em específico, mas, antes disso, terá que matar muitos outros a uma mistura de sangue frio e quente.

Agora, o que acontece se ele atingir seu objetivo? Após ceifar seu lado humano, sonhar com Vinland provavelmente será longínquo demais, ainda mais longe que sua terra natal.

E se ele não puder alcança-lo, como proceder? Como seguir em frente tendo perdido a única gota de esperança que se permitiu cultivar durante tantos anos?

Eu tenho me feito a mesma pergunta.

{Acho que muitos de nós temos}

Sabiá

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