Somos o que podemos ser: uma reflexão sobre as condições humanas e seu tempo histórico


Desde a difusão das ideias de Hegel, somos capazes de compreender a íntima relação entre o homem e as características de seu tempo, além de entender como a moral é líquida, abstrata e subjetiva num movimento histórico que caminha sempre adiante. As ações políticas de determinado período não podem ser, em si, intencionadas a agir […]


Desde a difusão das ideias de Hegel, somos capazes de compreender a íntima relação entre o homem e as características de seu tempo, além de entender como a moral é líquida, abstrata e subjetiva num movimento histórico que caminha sempre adiante. As ações políticas de determinado período não podem ser, em si, intencionadas a agir como uma forma de moldar seu tempo; elas necessariamente devem contextualizar-se em seu período e garantir, através de atos, que o curso da história prossiga rumo à libertação tanto da humanidade quanto da natureza. E esse processo pode ser feito de maneira mais radical, como no pensamento marxista-leninista, ou de maneira progressiva, como na ideologia social-democrata, que perdurou na Europa pós-guerra – ambos com suas contradições e processos próprios.

Hegel inicia o processo dialético utilizando-se dos conceitos de tese, antítese e síntese, que aqui podemos colocar como motores do desenvolvimento histórico, pois, ao criticar uma ideia, necessariamente se desenvolve outra. Ao criticar as ideias anteriores, preserva-se o que nelas há de positivo para a construção de uma nova lógica de pensamento – desde que essa crítica seja realizada com algum embasamento ou contundência, pois o pensamento científico não se trata de mamadeiras de piroca nem do assim chamado e inexistente marxismo cultural e afins. As conclusões desenvolvidas não deixam de ser razoáveis quando percebemos o curso da história, que, apesar de não linear, se desenvolve através da ação e reação. Um período histórico de crise pode gerar os alicerces para o desenvolvimento de um período de progresso – e vimos isso com frequência na história da humanidade, como o grande crescimento do planeta após a Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, um período de progresso pode gerar a indiferença e inação que levam às crises, como a chegada do neoliberalismo nas décadas de 70 e 80. Mas é importante ressaltar: tanto o desenvolvimento como a recessão estão ligados à condição material do período analisado, e não apenas ao fato de haver ou não uma crise predecessora. Apesar de frequentemente a economia se movimentar da forma citada, diferentes crises ou modelos de desenvolvimento podem trazer diferentes resultados a médio e longo prazo. A grande questão a ser tratada é: dentro do desenvolvimento histórico, em que fase estamos e como fazemos para mantermos um desenvolvimento mais linear, com uma diminuição das crises e conflitos sociais?

Dei-me a liberdade de pensar na evolução real da qualidade de vida do ser humano através de minhas frágeis interpretações do materialismo histórico e da dialética (tanto em Marx como em Hegel). Ela pode ser, de forma também frágil, resumida no pseudográfico a seguir.

É claro que o desenvolvimento humano não tem um funcionamento tão homogêneo e as ondulações que representam as inovações e as crises, num gráfico real, estariam em alguns momentos mais espaçadas e em outros mais próximas, assim como seus picos poderiam ser maiores ou menores. A simplificação é apenas para facilitar o desenvolvimento do raciocínio.

Marx descreve de maneira brilhante os ciclos do capitalismo e as crises estruturais inevitáveis dentro do modelo econômico, mas, expandindo essa análise, é possível compreender também a evolução da qualidade de vida e dos aspectos intelectuais da vida humana no decorrer da história, seja ela vista ou não dentro do modo de produção capitalista – o qual, ao longo do tempo, é moldado por aspectos diversos, como foi a religião na assim chamada Idade Média ou a luta contra o terrorismo após os atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos.

A grande questão que devemos pôr em pauta é que, sendo nós sujeitos de nosso tempo, tomaremos decisões baseadas no que temos à nossa disposição – até mesmo o idioma que utilizamos é fator determinante para o que nós somos e como nos relacionamos. Muitas vezes, os resultados que podem vir a ser gerados por nossas ações são completamente desconhecidos e o controle que temos sobre o que colhemos é muito menor do que muitos tentam fazer parecer, sendo a razão uma questão dinâmica. Apenas a história tem a competência de julgar as ações, mas a história também pode ser caolha, afinal, está sujeita às condições de seu tempo, sejam elas materiais ou de poder ideológico. Citando George Orwell, “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.” e com essas contradições o mundo se desenvolve.

Muitas vezes, principalmente quando se trata do campo político, as ações de curto prazo são mais vistas que as consequências do porvir e a análise é distorcida por não abranger a totalidade. Por exemplo, há historiadores que citam o ‘milagre econômico’ da ditadura brasileira, ignorando o fenômeno inflacionário gerado pelos gastos realizados no período, acarretando um desenvolvimento desigual e insustentável.

Como citado anteriormente, da mesma maneira em que nascemos imersos no idioma, também nascemos imersos em nosso tempo histórico e, apesar de nossas características individuais, nós somos apenas o que podemos ser de acordo com as condições materiais de nosso tempo.

A liberdade e as possibilidades de mudanças sistêmicas

Através de uma visão materialista, podemos reavivar também as discussões acerca da liberdade e do livre arbítrio num conceito que pode ser mais ligado ao pensamento religioso: voltando no tempo, em uma análise bastante explicativa baseada em Espinosa, o que é o livre arbítrio? Nós sempre o tivemos? Se a resposta é sim, relembramos o seguinte exercício de imaginação, que aparece no romance filosófico “O mundo de Sofia”:

“Um bebê recém nascido que chora e se debate, tem livre arbítrio? […] E quando essa pequena criança vai adquirir o livre arbítrio? Aos dois anos ela fica correndo por toda parte, apontando para tudo o que está ao seu redor. Aos três, faz birra e perturba sua mãe e, aos quatro, de repente passa a ter medo do escuro. Onde está a liberdade?” O mundo de Sofia, pág 274.

No ponto de vista de Marx, a liberdade também tem limitações bastante claras: ela se trata da possibilidade de exercer escolhas entre alternativas concretas, como genialmente o professor José Paulo Netto exemplifica de maneira clara e sucinta no vídeo a seguir:

Utilizando-se desses preceitos e da capacidade de correlacionar o pensamento histórico, as condições materiais e a liberdade, é possível colocar em debate um pensamento que pode gerar frutos bastante interessantes: uma ditadura histórica. Somos, afinal, reféns do que nos é entregue pelas gerações anteriores, assim como elas são – ou foram – em seu período. Portanto, os desafios de uma geração são postos pelas anteriores, as evoluções de uma podem ser a condenação das outras, assim como seus sacrifícios podem se tornar benesses. Por exemplo: é inegável que a Revolução Industrial melhorou imensamente a qualidade de vida da população mundial com o passar do tempo, mas a que custo? Ela não melhorou a vida dos operários em seu primeiro período, muito menos as das crianças e mulheres, assim como deixou para a atual geração o desafio de contornar as mudanças climáticas. Sabendo disso, é possível dizer que o mundo seria melhor se ela não tivesse acontecido? Eu tenho certeza de que não. As contradições dos tempos se desenvolvem e perduram, afinal, não existe a perfeição no que é desenvolvido pelas mãos humanas, mesmo que as ações sejam tomadas com propósitos nobres. Como diz o ditado popular, “de boas intenções o inferno está cheio”.

As ações que num dia são revolucionárias também se esgotam e tornam-se obsoletas e hoje somos reféns de um sistema que caminha rumo à morte. A revolução iluminista foi a mais importante da história, mas se esgota e deixa claro: precisamos de uma revolução em nosso tempo, em nosso pensamento, em nossas instituições, em nosso estilo de vida e em nosso modo de produção. Os desafios de cada tempo são diferentes, assim como suas ferramentas. A revolução do século XXI tem como aliadas a tecnologia e a ciência, e como inimiga as condições que nos foram entregues. A questão não é se ela irá acontecer, mas quando irá e com quais referências.

A boa notícia é que, apesar de o passado ter deixado os desafios, deixou também o caminho para encontrarmos as respostas e ele passa por diferentes pensadores: sejam os já citados Hegel e Marx, sejam outros grandes nomes do pensamento histórico, sociológico e filosófico. Eu acredito num mundo melhor, mas, apesar de a história se desenvolver, ela não o faz em piloto automático, são nossas ações que definem para onde vamos. O que faremos?


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