Coluna escrita de maneira anônima por um de nossos colunistas.


O meu processo de quem faz terapia há pouco tempo tem um lado incômodo: existem histórias que ficam martelando na minha cabeça depois que a sessão acaba. Fico com aquela sensação de “será que eu tô louca?”

Há algum tempo, li na página ‘Pra Preto Ler’ que o profissional da psicologia deve ser bem escolhido, pois, não há como ser imparcial. Ora, como pode um ser branco entender as dores de um ser negro e os reflexos que o racismo provoca nessas pessoas?

Em minhas últimas sessões, relatei à profissional que me atende como é difícil para mim, receber amor das pessoas com quem me relaciono afetivamente. Me relacionei com um homem branco do cabelo liso, que ao me apresentar aos amigos, me submeteu a ouvir “Ih! Mas que cabelão né? Volumoso demais para mim”; “Até que a mulatinha do olho verde é bonitinha”. Bastou a não-aprovação da suprema corte branca para ser trocada por uma mulher igualmente branca, loira do cabelo liso, magra. Como manda a sociedade.

Levar isso na consulta e não se atentar ao racismo escondido por baixo dos panos nessa relação pesou na minha cabeça. Como essa profissional enxerga meu corpo no mundo? Como enxerga a minha bagagem de não-amores? Por que é difícil para o outro me amar?

O problema de estar no meio do caminho é justamente esse. Você é branca demais para ser preta e negra demais para ser branca. Você pode ouvir de brancos que “você nem é tão negra assim”, ou ser apontada por seus traços negroides que te “enfeiam”. Mas os negros não te enxergam como igual. De um povo marcado por dor, é compreensível o afastamento. Afinal, os negros de pele clara nunca vão entender a vera o que um retinto sofre.

Mas, então, de onde receber amor? O não-lugar dói, cria traumas e nos separa. É preciso trabalhar as nossas famílias inter-raciais e seus frutos! Mas isso é história pra outro dia.

Essas reflexões fazem parte do pensamento de uma mulher em descobrimento das suas dores e de quais caminhos estas percorrem na sua vida. Você, mulher que me lê e sente essa bagunça também, se cuide e cuide de sua mente, senão Orí adoece. E lembrem para vida: Orí doente, corpo doente.