Precisamos retomar a coragem de maio de 1968.


Se o presente é motivo de dor, que a coragem de 68 nos inspire a transformar o futuro.


A partir de maio de 1968, um período de agitação civil ocorreu em toda a França, durando cerca de sete semanas e sendo pontuado por manifestações, greves gerais, bem como a ocupação de universidades e fábricas. No auge dos eventos, que, desde então, se tornaram conhecidos historicamente como maio de 68, a economia da França parou. Os protestos chegaram a tal ponto que o governo francês temia uma guerra civil ou revolução.

Em 6 de maio, a União Nacional dos Estudantes da França (Unef) — que é, ainda, o maior sindicato estudantil do país — e o sindicato dos professores universitários convocam um protesto contra uma prévia invasão policial à Universidade de Sorbonne — uma das maiores da Europa — que levou à prisão de mais de seiscentos universitários. Mais de vinte mil alunos, professores e trabalhadores marcham em direção à universidade e, em pouco tempo, são atacados. Centenas deles são presos. No dia seguinte, sindicatos de alunos do ensino médio unem-se ao protesto e pedem a retirada de todas as acusações criminais, assim como a reabertura da universidade, que se encontrava isolada pela polícia. 

Já em 10 de maio, dia também conhecido como a Noite das Barricadas, outra grande multidão reúne-se na Rive Gauche — metade sul da capital francesa — e começa a erguer barricadas contra a polícia, que contra-ataca os manifestantes de madrugada. Os estudantes ainda lutavam contra a prisão de colegas e professores na Sorbonne, que ocorrera poucos dias antes, e queriam a reabertura da universidade. 

Já com vinte mil manifestantes, as primeiras barricadas desse fatídico dia começam a ser erguidas. O líder do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup, sigla em francês) e o vice-presidente da União Nacional dos Estudantes da França pedem que o Quartier Latin — bairro na metade sul da cidade de Paris, onde os confrontos estudantis se firmaram naquele mês — seja ocupado “a todo custo”. Apesar das provocações, a polícia permanece impassível. De capa impermeável preta ou terno e gravata, munidos de capacetes sem viseira, óculos de motoqueiro, bolsa tiracolo (contendo máscara de gás), cassetete e escudo, a polícia está por toda parte. O Quartier Latin tornar-se-ia, naquele dia, um barril de pólvora.

Alunos do ensino médio, universitários, residentes e até comerciantes locais aderem ao movimento. Com uma picareta ou barra de ferro, os paralelepípedos decorativos das calçadas de Paris são extraídos das ruas. “Todos ficamos felizes porque sabíamos da nossa força. Foi esse sentimento de força e unidade que criou a atmosfera de festa e barricadas. (…) Tudo foi ficando simples, fácil. As barricadas deixaram de ser apenas um meio de autodefesa, tornaram-se símbolos de uma certa liberdade. Por isso, esta noite de 10 a 11 de maio será inesquecível para quem lá esteve.”, escreve Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do movimento estudantil. 

As barricadas multiplicam-se e consolidam-se com blocos de concreto, andaimes e até arames de ferro, atingindo até dois metros de altura. Enquanto o Quartier Latin está bloqueado por todos os lados, tanto pela polícia quanto pelos manifestantes, a atmosfera fica ainda mais pesada. Nesse momento, os dois grupos enfrentam-se com as armas às mãos: pedras da calçada de um lado, bombas de gás lacrimogêneo do outro. As bombas de gás lacrimogêneo caem sobre os jovens manifestantes, que respondem com o lançamento de pedras, coquetéis molotov e projéteis de todos os tipos. “Sob os paralelepípedos, a praia”, diz o slogan; mas nessa noite, a areia das ruas parisienses serve de meio de defesa, projetada na polícia graças aos compressores encontrados no local. Os alunos também podem contar com o apoio de alguns moradores que, de suas janelas, jogam na polícia o que têm em mãos.

Polícia parisiense invade as barricadas com escudos, cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. A brutalidade policial presente na ‘Noite das Barricadas’ acabou levantando diversas discussões na sociedade francesa, como o fim da polícia e pautas abolicionistas. Não só isso, a violência policial foi um dos motivos para a convocação posterior da greve-geral de treze de maio. | Fotografia: SIPAHIOGLU / SIPA.

No final da manhã, já no dia seguinte, o Prefeito de Paris faz um pronunciamento após o fim dos protestos, anunciando que, milagrosamente, nenhuma morte ocorreu, mas há 367 feridos, dentre os quais 22 estão em estado grave. A brutalidade da repressão policial não consegue silenciar os protestos que virão, pelo contrário. Esgotado após a noite de motins e tomando nota da “crueldade da polícia”, Daniel Cohn-Bendit acaba de lançar, na estação de rádio Europa 1, um apelo à dispersão dos manifestantes. Mas também convoca “todos os sindicatos, todos os partidos de esquerda, a entrarem em greve geral a partir de segunda-feira, em solidariedade aos estudantes e jovens trabalhadores”.

Os dois maiores sindicatos de esquerda do país — a  Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a Força Ouvrière (CGT-FO, sigla em francês) — convocam greves gerais para o dia 13 de maio, em decorrência da violência policial e da simpatia com a causa estudantil. Nesse momento, diversos artistas e poetas franceses também demonstraram apoio aos estudantes. 

A greve geral de 13 de maio teve participação de mais de 1 milhão de pessoas, que marcharam pelas ruas de Paris. O movimento desencadeou uma imensa manifestação de criatividade e discussão política à medida que os trabalhadores, em todos os lugares, buscavam refazer seus mundos e contribuir para a luta. Além dos trabalhadores em fábricas industriais, arquitetos e pintores se juntavam à luta, enquanto atores entravam em greve fechando teatros em Paris e escritores ocupavam o prédio da Sociedade dos Homens de Letras — uma associação francesa de escritores fundada no século XIX pelos notáveis ​​autores franceses Honoré de Balzac, Victor Hugo, Alexandre Dumas e George Sand.

Durante uma manifestação estudantil, Place Denfert-Rochereau em Paris, 7 de maio de 1968. No fim do mês de maio, mais de cinco milhões de franceses estariam participando oficialmente, ou da greve-geral, ou de manifestações estudantis. | Fotografia por: AFP.

A greve geral atingiu quase todos os setores da economia francesa: empregos do setor público, indústrias manufatureiras e serviços de administração e gestão pública. Durante todo mês de maio, manifestantes em greve ou que iam frequentemente às manifestações representavam um terço da população total francesa.

Nessa época, a carga de trabalho era de quarenta e seis horas semanais. Isso é, oficialmente. Mas, após a imposição de leis trabalhistas neoliberais, houve uma facilitação de contratação de horas extras. Muitos trabalhadores franceses descreviam fábricas e usinas como ‘quartéis’, por conta das condições sub-humanas e o péssimo salário que lhes era imposto — para comparação, o salário mínimo da década de sessenta era de aproximadamente 2,22 francos por hora, o equivalente a 2,75 euros hoje em dia, um dos piores de toda a Europa na época.

Durante as greves de maio, alguns estudantes radicais invadiram uma fábrica da Citroën. Lá, guardas e policiais pararam nas portas, agrediram trabalhadores por conta da leitura de ‘literatura subversiva’ e intimidaram ativistas sindicais. Há um depoimento de um jovem trabalhador que, emocionado, apontou para as portas da fábrica e gritou: “Quando chamamos de prisão, você entende o que queremos dizer.”

Para tentar conter os avanços das greves gerais, o então primeiro-ministro George Pompidou declarou que todos os estudantes presos em decorrência das manifestações seriam soltos e não enfrentariam acusações. Além disso, a Universidade de Sorbonne — que ainda estava fechada e ocupada pela força policial parisiense — seria reaberta. Entretanto, as greves-gerais não cederam e os manifestantes tornaram-se ainda mais ativos.  Após a reabertura da universidade, ainda no dia 13 de abril, estudantes ocuparam-na e declararam-na um “local do povo”.

Cartazes em uma universidade francesa celebrando líderes comunistas, a ideologia e a filosofia marxista. | Fotografia por: Bruno Barbey.

Nas universidades e escolas secundárias então ocupadas, surgiu uma transformação revolucionária de consciência que levou os alunos a desafiarem fundamentalmente a ordem existente, a educação e a pedagogia à qual haviam sido submetidos. Folhetos foram espalhados em todo o campus, proclamando satiricamente o ‘sucesso de todos os alunos’ em seus ‘exames obrigatórios’. Um deles, em específico, parabenizava ‘todos os alunos por passarem nos testes de: Espírito de Iniciativa, Desenvolvimento de Consciência Política, Disciplina Revolucionária, Solidariedade, Protestos e Barricadas’.

Muitos dos relatos históricos da revolta estudantil focam somente nas instituições de ensino superior, enquanto o ativismo de estudantes do ensino médio é frequentemente esquecido. Membros dos Comités d’action lycéen (Comitês de ação estudantil) afirmaram: “A presença dos ‘liceus’ (estudantes) nas barricadas, nos comícios, nas ocupações, reflete a amplitude e a profundidade da crise de maio: é de fato uma crise que diz respeito ao conjunto da sociedade, onde a indiferença é impossível; e uma parte do meio do ensino médio escolheu o seu campo: desafiar o sistema, questionar instituições universitárias, sociais e políticas.”

Milhares de estudantes e manifestantes se reúnem na Universidade de Sorbonne. Era frequente que, durante todo o maio francês, manifestantes se reunissem em universidades ao redor do país com artistas, escritores, intelectuais e sindicatos para decidirem seus objetivos e demandas. | Fotografia por: Bruno Barbey.

O movimento estudantil teve como objetivo particular o regime educacional de teste e punição, que dominava todos os níveis da educação francesa. Os líderes argumentavam que os exames eram “apenas a expressão do contrato aberrante e intolerável que conecta os usuários universitários uns aos outros por um lado, e a sociedade capitalista, por outro.” 

Os comitês também denunciaram os exames universitários como “absurdos e socialmente reacionários” e demonstraram-se preocupados com os currículos, dizendo: “estudamos, blefamos e aprendemos mais pelo exame do que para formar a nossa personalidade. Somos julgados pelo conhecimento livresco armazenado às pressas e que rapidamente esquecemos assim que termina o exame. O exame privilegia a competição, a emulação para o sucesso social e reforça hábitos mentais individualistas. Assim, incentiva um ambiente pedagógico no qual o homem é um lobo para os outros homens.

Outra motivação externa para a agitação era a guerra da Argélia, que era uma colônia francesa, e do Vietnã. Estudantes do ensino médio participaram de manifestações antifascistas e protestaram contra a visita do então vice-presidente norte-americano Hubert Humphrey à França. A Guerra do Vietnã, em específico, teve maior peso como movimento de contracultura, por conta de sua influência na história mundial. O conflito, que durou cerca de vinte anos, foi um dos maiores atritos geopolíticos da Guerra Fria, com seu saldo desolador de mortes, destruição e instabilidades.

Essa resistência sociopolítica e cultural tomou ainda mais forma a partir do Movimento Hippie, tendo sua maior representação com o Festival de WoodStock. Embora muito superestimado para alguns autores, é notável que o manifesto de “3 dias de paz e música” foi cumprido. Inclusive, houve a icônica apresentação de Jimi Hendrix tocando o hino americano e imitando mísseis em sua guitarra, em alusão à Guerra do Vietnã. Se o movimento hippie, que contestava o status quo norte-americano, não acabou com a guerra, sem dúvidas, ele foi essencial para uma revisão dos cidadãos americanos acerca do conflito, o que gerou sua derrocada em 1975.

Bebendo da mesma fonte do maio francês e da contracultura, o conflito foi mundialmente contestado por representar a brutalidade do imperialismo norte-americano através de centenas de atentados contra civis e da destruição de um território estrangeiro. Um fatídico exemplo é o agente laranja, um herbicida tóxico bombardeado durante dez anos em todo o território vietnamita pela Força Aérea dos Estados Unidos. O objetivo era dizimar as safras do norte e destruir a guerrilha comunista, que costumava se esconder na selva para combater os norte-americanos. Quarenta anos após o conflito, foi confirmado pelo Vietnã que mais de três milhões de vietnamitas foram mortos em decorrência dos ataques norte-americanos com o agente.

Mas não foram somente os valores militares e ocidentais que sofreram um abalo naquele mês de maio, valores patriarcais também foram chacoalhados pela segunda onda feminista. 

Mulheres francesas marcham por seus direitos e pedem a queda do general De Gaulle. | Fotografia por: Getty Images.

Para as minorias, as lutas não cessaram naquele mês. Na verdade, elas continuaram a lutar e atingiram importantes aspectos, já na década de 70, em questões de classe, raça, gênero e suas interferências. Como apontado por Diana Press, no livro ‘Class and Feminism’ (Classe e Feminismo), é preciso que a luta feminista “também confronte as opressões de raça e de classe, ampliando ainda mais a criatividade do movimento”. 

Ainda no âmbito feminista, a pressão pela liberdade sexual crescia naquele mês. A influência religiosa no território francês era enorme, não somente na sociedade, mas na política, o que prejudicava a luta pelo direito ao aborto. O maio francês foi o ponto de partida para a luta pelo direito de escolha, já que, nos anos conseguintes, a pauta se tornou ainda mais forte, culminando na aprovação da ‘Lei Veil’ — em homenagem à Simone Veil, então Ministra da Saúde do país, responsável pela elaboração do projeto de lei. 

“Digo com toda a convicção: o aborto deve continuar a ser a exceção, o último recurso em situações sem saída. Mas como tolerá-lo sem perder seu caráter excepcional, sem que a sociedade pareça incentivá-lo? Em primeiro lugar, gostaria de partilhar convosco uma convicção de mulher — peço desculpa por fazê-lo nesta Assembleia quase exclusivamente composta por homens: nenhuma mulher recorre com alegria ao aborto. Você apenas tem que ouvir as mulheres. Ainda é um drama e sempre será um drama. Por isso, se o projeto que vos é considerado a situação factual existente admite a possibilidade de interrupção da gravidez, é para controlá-la e, tanto quanto possível, para dissuadir a mulher de o fazer”. Esse foi o discurso da então Ministra na apresentação inicial do projeto de lei na Assembleia Nacional Francesa, em 1974.

Mas, por mais que a pauta da libertação sexual feminina fosse levada a sério, as mulheres, como grupo político, não eram. “Tudo era questionado. As relações entre professor e aluno, patrão e trabalhador, rico e pobre… Tudo, menos a relação entre homem e mulher.”, relembra a socióloga francesa, Jacqueline Feldman. A pesquisadora relembra, em entrevista à revista Elle, o sexismo gritante da França naquele período — presente até dentre seus colegas manifestantes.

A revolução era cultural, proletária, sexual, tudo menos feminista. Quando nós abordávamos o assunto do local da mulher na sociedade, éramos chamadas de burguesas egoístas.” 

Jacqueline Feldman

Uma das maiores falhas do movimento foi levar a sério somente a questão da libertação sexual — talvez devido ao fato de esse evento histórico ter sido protagonizado por jovens, sobretudo universitários — ou pautas essenciais da relação entre classe e gênero. Mesmo assim, o progresso feito na época é admirável, ainda que imperfeito. Algumas figuras feministas francesas da época revolucionaram movimentos, como é o caso da filósofa existencialista Simone de Beauvoir, hoje em dia conhecida mundialmente. Beauvoir não é somente conhecida por suas obras acadêmicas, mas também por seu papel essencial no maio francês ao lado dos estudantes. 

É relatado em sua biografia, “Simone de Beauvoir: uma vida”, que ela e seu parceiro, o também filósofo Jean-Paul Sartre, davam assistência frequente aos jovens estudantes. Beauvoir costumava organizar reuniões em seu próprio apartamento para direcionar e auxiliar os estudantes em suas pautas e reivindicações. O casal – especialmente Sartre, que era mais chegado à vida política e à exposição pública de suas opiniões ideológicas – também participou de diversas reuniões em grandes universidades francesas, como Sorbonne e Nanterre, assim como reuniões organizadas pelos comitês de ação estudantil.

A filósofa Simone de Beauvoir (centro-esquerda) marchando ao lado de estudantes e colegas. Ela e seu parceiro foram extremamente ativos durante o maio francês, proporcionando até um direcionamento aos alunos. | Fotografia por: Getty Images.

Tais comitês surgiram em resposta à repressão contra os estudantes do ensino médio que participavam de manifestações e greves. Muitos eram presos pela polícia e até suspensos de suas escolas. Por esse motivo, os comitês foram criados, com o objetivo de mobilizar estudantes para democratizar suas escolas e apoiar demandas de universitários e trabalhadores em Paris. Após o início dos protestos e a já citada grande greve geral de 13 de maio, começaram a surgir panfletos em toda Paris tentando atrair cidadãos para se juntar aos comitês. 

Já na noite do dia seguinte à greve-geral, cerca de dois mil manifestantes ocuparam as primeiras fábricas, começando pela da empresa francesa de aviação Sud-aviation.  Os trabalhadores da Sud-aviation conseguiram manter a greve por um mês completo, permanecendo na fábrica quase a toda hora. Em certo momento, familiares de manifestantes começaram a viver no local, ajudando em tarefas e no movimento.

“Ao longo do dia 15 de maio, a fábrica e seus arredores pareciam um gigantesco canteiro de obras, mas os trabalhadores logo arrumaram o cenário e suas estruturas em ruínas, começando a construir coberturas e cabines. Não há necessidade de líderes ou ordens do sindicato para esta colônia de formigas. Solidariedade e autodisciplina podem fazer maravilhas. A ‘comuna’ tomou forma, uma ‘Administração do Povo’ colocando as coisas no lugar com uma eficiência surpreendente. Participantes, simpatizantes e moradores ficaram mudos com toda essa agitação. Em pouco tempo, a cerca de um quilômetro depois da fábrica, uma placa colocada pelo comitê conjunto dos sindicatos delineava as fronteiras da área ocupada.”, escreve François le Madec, ativista sindical que trabalhava na fábrica durante a ocupação e faz um relato de primeira-mão em seu livro “L’aubépin de mai” (Os espinhos de maio).

Fotografia (autor desconhecido) tirada nos primeiros dias da ocupação de fábricas da Sud-Aviation. A ocupação durou um mês completo e teve participação de familiares e até filhos dos operários.

Agentes municipais aderiram à greve geral e demonstraram suporte ao movimento, o que facilitou a continuidade da ocupação sem grandes disputas. Entretanto, o maior conflito durante a ocupação foi decorrente do sequestro do diretor da empresa, Pierre Duvochel e mais dezoito executivos, libertados em menos de dez dias e sem danos físicos.

No mesmo dia, cerca de quinhentos mil metalúrgicos entraram em greve em uma fábrica da Claas, empresa responsável pela produção de tecnologia agrícola. Com essas ocupações, os sentimentos revolucionários impulsionaram cada vez mais movimentos ao decorrer da semana, culminando na maior greve geral da história francesa, com a adesão de aproximadamente dez milhões de trabalhadores.

O escritor e jornalista Daniel Singer descreve como o potencial revolucionário irrompeu quando a luta desencadeou o debate político e questionou todos os aspectos da sociedade: “Nas fábricas ocupadas, nos escritórios, nos laboratórios, nas ruas, as pessoas conversavam, questionando as estruturas hierárquicas e sua função na sociedade. Professores, sociólogos, cientistas debatiam seu próprio papel na ordem existente. Por toda parte, as engrenagens pensantes estavam ponderando seu lugar na máquina.”

Ainda no mesmo dia, a Sorbonne autodeclara-se como uma ‘comuna livre’

Pouco tempo depois, já havia cerca de cinquenta fábricas ocupadas em toda a França. Trabalhadores recusavam-se a deixar seus postos com medo de serem demitidos e faziam enormes barricadas nas portas das fábricas, demandando salários justos e melhorias nas condições de trabalho. O comitê de ocupação da Universidade de Sorbonne ajudou a fomentar ainda mais a crise sociopolítica e demandou a ocupação imediata de todas as fábricas na França, somada à criação de conselhos de apoio aos trabalhadores grevistas.

Enquanto a imprensa internacional temia as revoltas populares francesas e já associava a nação a uma espécie de novo ‘socialismo europeu’, a imprensa francesa cobria os acontecimentos com orgulho e chegava a apoiar o movimento publicamente. A ORTF (Office de Radiodiffusion-Télévision Française; em português, Escritório Francês de Radiodifusão e Televisão) era a maior companhia de mídia do país e possuía praticamente um monopólio de audiência. Mais da metade dos lares franceses tinham-na como sua fonte primária de informação.

Jornalistas, produtores, cinegrafistas, redatores e diversos funcionários decretaram apoio e participação na greve geral e tiveram a colaboração de organizações gerais do cinema francês, assim como de sindicatos. Uma série de panfletos foi confeccionada e distribuída pelas ruas da capital explicando o porquê de os profissionais de comunicação aderirem à greve. 

Nele, é dito: “Os jornalistas de rádio e televisão pretendem exercer nossa profissão livremente. Sempre procuramos fazer isso. Mas as pressões do governo e da gestão da ORTF, escolhida por esse governo, estão privando você de algumas das informações que coletamos para você. Uma grave crise estourou no país. Estamos cientes de nossas obrigações para com você, tudo fizemos para mantê-lo informado até o dia em que fomos totalmente impedidos. Recusamos então um noticiário truncado e juntos protestamos parando de trabalhar.

Entretanto, certas partes da imprensa francesa — incluindo jornais e profissionais de esquerda, ou centro-esquerda — criticavam a atuação dos jornalistas da ORTF. Uma dessas partes é o jornal francês Le Monde, que criticou o fato de a agência ser financiada por verba estatal e ser considerada como um monopólio de mídia. Neste artigo, o jornal observa haver a “estranheza com que a ORTF reforçou, em vez de tentar suavizá-la, a intransigência do governo, criando inquietação entre os jornalistas. Vamos permitir a ideia de que existem duas categorias de jornalistas na agência: os ‘condicionados’, que estão sujeitos aos constrangimentos da propaganda e censura governamental, e os ‘emancipados’, que pretendem exercer sua profissão de jornalista com preocupação e honestidade.”

A greve dos jornalistas se fortaleceu ainda mais logo depois que o então Ministro das Comunicações Yves Guén, um gaullista, decidiu cortar qualquer meio de transmissão do Quartier Latin — bairro francês que era um dos focos dos manifestantes. Poucos dias depois, jornalistas aderiram oficialmente à greve com apoio dos sindicatos. Dessa forma, mais profissionais de empresas privadas resolveram aderir ao movimento, assim como grandes nomes do jornalismo francês. 

Estudantes no Quartier Latin sendo conduzidos a uma delegacia de polícia em 11 de maio. Centenas de estudantes foram presos durante os protestos daquela noite e centenas mais hospitalizados, assim como vários policiais. | Fotografia por: Getty Images.

O sindicato dos jornalistas criou uma “comissão permanente” para o “respeito da objetividade da informação”. Essa assembleia votou pela greve e confeccionou uma lista de reivindicações, incluindo autonomia jornalística diante do poder que o Estado possuía na ORTF — por conta do financiamento estatal — e a criação de um ‘estatuto pessoal’ para os membros da imprensa. Contudo, a ORTF só iria aderir oficialmente à greve geral no dia 25 de maio. No mesmo dia da adesão — não oficial — dos jornalistas franceses ao movimento grevista, uma fábrica da montadora Renault foi ocupada. Mais de quatro mil trabalhadores sequestraram diretores e executivos da empresa e mais de 70 mil metalúrgicos aderiram à greve-geral. 

Enquanto o jornalismo francês se revolucionava através de uma maior aproximação da população e de uma ampla cobertura dos protestos daquele mês, o jornalismo brasileiro manipulou uma boa parte da população do país para apoiar um golpe militar e a derrocada da democracia. Porém, existem exemplos de quando essa manipulação saiu das folhas de papel e se materializou na história. 

A Comissão Nacional da Verdade — realizada no governo da ex-presidente Dilma Rousseff em busca de punir crimes ocorridos no período militar — revelou, em um relatório, que a Folha de São Paulo — o maior jornal do país — emprestava carros da redação para a Operação Bandeirante, um centro de investigações do Exército que combatia organizações de esquerda e perseguiu opositores políticos durante a ditadura. Octávio Frias de Oliveira, dono do jornal na época, também fazia visitas frequentes ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), responsável pela censura de meios de comunicação e cultura, além da tortura de centenas de brasileiros.

É chocante como, após cinquenta anos desse feito, uma retratação formal às vítimas do regime nunca foi feita por tais veículos. Além disso, uma requalificação dos profissionais em tais redações nunca foram feitas — o corpo pode ter mudado, mas a cabeça ainda é a mesma.  Não só esqueceram, aparentemente, de se desculpar pelo apoio a um regime sanguinário que traz terror ao país até hoje, como fazem questão de transformar esse apoio em piada. 

“Mas, se as chamadas “ditabrandas” – caso do Brasil entre 1964 e 1985 – “partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.”, assina o jornal Folha de São Paulo no Editorial “Limites a Chávez”. Nesse material, o corpo editorial acredita que a ditadura militar brasileira foi amena, tranquila, já que possuía “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”. Ademais, fazem um aceno positivo a Alberto Fujimori, ditador peruano responsável por dezenas de massacres orquestrados, perseguição de opositores políticos e esterilização forçada e ilegal de mais de duzentas e cinquenta mil mulheres. 

O jornalista André Oliveira, do El País, expressa bem a sensação dos brasileiros da época ao dizer que ‘maio de 1968 não foi um mês no Brasil, mas um ano inteiro’.

Estudante sendo perseguido pela força policial, durante a ‘sexta-feira sangrenta’, dia de protestos ao redor do Rio de Janeiro marcado pela violência e brutalidade da polícia. Mais de vinte e oito pessoas morreram e aproximadamente mil foram presas.  | Fotografia por Evandro Teixeira. 

Outra semelhança entre brasileiros e franceses da época é o espírito de mudança presente nos estudantes. A Sexta-Feira Sangrenta (21 de junho de 1968) é uma data histórica marcada pela inspiração juvenil, já que, nesse dia, estudantes cariocas reuniram-se em frente à sede do Jornal do Brasil buscando um aumento da verba pública e o fim da violência dos militares contra os estudantes. Em resposta, vinte e oito estudantes foram assassinados e mais de mil presos. Nota-se que, nesse dia em específico, a repressão contra os estudantes foi consideravelmente mais violenta. Um dos motivos é a ascensão de movimentos revolucionários e de contracultura — como o maio francês – ao redor do mundo, o que preocupava Estados autoritários. Não é uma coincidência que o Ato Institucional n° 5 (AI-5) tenha sido promulgado ao fim daquele ano.  

No entanto, mesmo veladas, as manifestações contra o governo militar — inspiradas no maio francês — permaneceram. Seja por músicas, receitas de bolo nas capas dos jornais censurados ou poemas, a resistência permaneceu ativa. Nomes como Gilberto Gil, Zuzu Angel e Vladimir Herzog marcaram sua presença, fundamentais para manter o sentimento de insatisfação latente no povo, assim como a esperança firme.

Mas, retornando à Europa, houve outra parte da comunicação francesa afetada pelos protestos: o Festival de Cannes, um dos festivais cinematográficos mais prestigiados em todo o mundo. Dias antes do evento, a Associação Francesa de Críticos emitiu uma nota pedindo aos participantes que se juntassem às manifestações de apoio aos estudantes grevistas, além de pedir a suspensão do festival. A Associação alegou que “a violenta repressão policial atenta contra a liberdade cultural da nação, as tradições laicas de suas universidades e seus princípios democráticos”. Poucos dias depois, a Assembleia Geral de Professores de Cinema também pediu a suspensão do festival. No entanto, sua organização se recusou a suspendê-lo.

Foi nesse momento que surgiu um movimento na sétima arte conhecido como Nouvelle Vague. Esse movimento trouxe para o cinema as transgressões dos movimentos de 68, destacando-se pela quebra das regras do cinema comercial em prol do fazer artístico. Os filmes, que possuíam baixo orçamento e atores principiantes, retratavam a vida e suas modificações trazidas pelos movimentos de maio — como o amor livre, por exemplo. Entre seus diretores, destacavam-se Godard, Truffaut e Varda. Os dois primeiros seriam, posteriormente, responsáveis pelo maior boicote cinematográfico daquele ano. 

Em uma entrevista coletiva à imprensa na manhã do dia 18 de maio, foi criado um painel de discussão dos membros do Comitê de Defesa da Cinemateca, com a presença dos diretores Jean-Luc Godard e François Truffaut – esse último seria banido posteriormente do Festival por seu apoio aos manifestantes. “A França está em estado de sítio, depois que uma onda de protestos estudantis recentes se transformou em greves nacionais e distúrbios violentos. O rádio anuncia a cada hora que as fábricas estão ocupadas ou fechadas”, disse Truffaut. “Os trens pararam, o metrô e os ônibus serão os próximos. Portanto, anunciar a cada hora que o Festival de Cinema de Cannes continua é simplesmente ridículo. ” Godard foi mais direto: “Estamos falando de solidariedade com estudantes e trabalhadores, enquanto você está falando de fotos e closes de bonecos. Você é um idiota. “

Cineastas, artistas e manifestantes tentando impedir a exibição de filmes no Festival de Cannes. É importante ressaltar que os artistas se prejudicaram ao pedirem o cancelamento do festival, mas fizeram a ponderação de que se alinhar aos movimentos sociais franceses era mais essencial do que a exibição de suas artes. | Fotografia por: Bruno Barbey.

Como o festival, que também seria no dia 18, ainda não havia sido cancelado pela organização, cineastas tiraram seus filmes da competição e membros do júri renunciaram suas funções. Outros tentaram se agarrar às cortinas vermelhas do festival para impedir a exibição dos filmes. Manifestantes subiam ao palco e impediam que qualquer sessão fosse exibida. No fim do dia, a direção do festival anunciou o cancelamento da competição, mas com a continuação das exibições. No entanto, de 28 filmes que seriam exibidos, apenas 11 conseguiram aparecer nas telas e nenhuma premiação foi feita. 

Ao longo dos próximos dias, as manifestações tornaram-se ainda maiores e cada vez mais trabalhadores aderiam à revolta. A situação implodiu logo após uma ordem executiva do Ministro do Interior para impedir a entrada de um dos líderes do movimento estudantil, Daniel Cohn-Bendit, em território francês. Daniel estava em uma viagem para tratar de assuntos políticos com movimentos estudantis estrangeiros em Saarbrücken, cidade alemã. Poucos dias depois, ele conseguiu retornar para a França escondido, após pintar seus cabelos e se esconder em um porta-malas. Ele ficou no país por somente quatro dias, mas chegou a participar de protestos e reuniões abertas em universidades. Sua expulsão do território francês durou dez anos, mesmo com o fim das manifestações. 

O líder estudantil, Daniel Cohn-Bendit, discursando na Universidade de Sorbonne junto a outros líderes do movimento estudantil. A expulsão de Bendit da França geraria protestos e revoltas em todo o país. Não só isso, mas levantou um questionamento: se isso não ocorresse, será que outros movimentos estourariam em toda a Europa? | Fotografia por: Bruno Barbey.

Na semana que se seguiu, diversos setores públicos, como os correios e o transporte público, aderiram às paralisações. Com a escalada da agitação e da radicalidade dos manifestantes, autoridades francesas começaram a entrar em contato com sindicatos, políticos e líderes sociais para a elaboração de um acordo que preferencialmente culminasse no fim dos protestos. 

Mas a elaboração foi demorada demais para conter um dos maiores feitos dos manifestantes: o incêndio na Bolsa de valores de Paris. Duas horas antes, Charles de Gaulle anunciou aos franceses um referendo em junho “sobre a renovação”, que levaria à sua saída se o “não” vencesse. “Adieu de Gaulle, Adieu” (“Adeus de Gaulle, adeus”), cantaram em resposta. 

Na praça da Bolsa, em Paris, cerca de três mil manifestantes estavam reunidos e, após o pronunciamento, começaram a se chocar entre si. Alguns, considerados moderados, queriam retomar os protestos no bairro do Quartier Latin, enquanto outros queriam invadir a Bolsa parisiense. “Vamos galera, quebrem tudo, esse é o templo do capitalismo”. A princípio hesitantes, depois gradualmente encorajados pela emoção de gritos, ordens, insultos e o som das janelas, cada vez mais numerosas e estilhaçadas, os manifestantes invadiram o edifício.

Bombeiros tentam controlar o incêndio iniciado por manifestantes na Bolsa de Valores de Paris, em 24 de maio. Ato ficaria marcado posteriormente para os jovens como uma ‘luta contra o capitalismo e as ordens patriarcais’.| Fotografia por: AFP.

Após perceberem que a polícia estava chegando, alguns juntaram caixotes, cadeiras e destroços e incendiaram o local. O prédio não foi totalmente danificado e não houve nenhum ferido, mas o ocorrido se tornou um dos diversos marcos históricos e culturais do mês de maio daquele ano.

Porém, os esforços e as motivações revolucionárias do maio francês encerrar-se-iam pouco tempo depois. O então primeiro-ministro George Pompidou havia assumido informalmente as funções do presidente de Gaulle — já que esse perdera apoio popular — e elaborou um acordo entre os manifestantes, a classe trabalhadora e o governo. Após quase um mês completo de protestos e greves gerais, os Acordos de Grenelle são postos à mesa. Naquele mesmo dia, o país inteiro estava sem gasolina e sem linhas telefônicas.

Os acordos representavam um conjunto de reformas na área econômica e melhorias nos direitos trabalhistas, como: um aumento de 35% no salário mínimo, que iria para 3 francos por hora, a criação de uma secção sindical em todas as empresas com mais de cinquenta empregados e uma diminuição na jornada de trabalho para quarenta horas semanais. 

Paris, em 27 de maio de 1968, o primeiro-ministro Georges Pompidou, membros do governo e representantes sindicais no Ministério de Assuntos Sociais elaborando o que seria conhecido posteriormente como os Acordos de Grenelle. Ele se resume em uma série de melhorias salariais e trabalhistas, além da garantia da formação de sindicatos em empresas com mais de cinquenta funcionários. | Fotografia por: AFP.

Com um mês de luta, os trabalhadores franceses conseguiram o mínimo: condições dignas de trabalho. Mas não se engane, essa luta não foi feita somente por grevistas, e sim por toda a sociedade francesa. Durante todo o mês, diversas regiões do país ficaram sem luz e água. A gasolina foi escassa e quase causou um desabastecimento dos mercados. Pessoas comuns sacrificaram bens materiais, como carros e até móveis, para a criação de barricadas nas ruas. 

Foram contabilizados quase dois mil manifestantes feridos por forças policiais – dentre os quais duzentos estavam em estado grave – e existem documentações oficiais e não oficiais de mil até cinco mil prisões. Vários estudantes do ensino médio que participavam ou apenas visitam os comitês de ação estudantil foram suspensos e até expulsos de seus colégios. Universitários de todos os cursos reprovaram em seus exames por se recusarem a frequentar aulas até que melhorias educacionais fossem feitas. 

Esse não é o fim oficial do maio francês, mas é onde iremos encerrar para fazer um questionamento. Falamos por parágrafos e parágrafos sobre a década de sessenta no mundo, esperando que você note a semelhança entre tal época e a atual. Com o pior dos dois mundos, o Brasil de hoje tem o contexto social da ditadura militar e a economia da França gaullista. 

Mas a economia francesa da época não só era sustentada através da exploração de trabalhadores, mas também por valores tradicionais e conservadores que mantinham a estrutura sólida. Um desses exemplos é o ultranacionalismo presente nas falas de gaullistas, que afirmam que instituições estatais devem ser sempre respeitadas e jamais questionadas. Por esse motivo, organizações sindicais eram inimigas do gaullismo tradicional e sua doutrina, já que questionavam seriamente as políticas trabalhistas do governo. 

Esse ultranacionalismo também é presente no ódio que eles possuíam de organizações internacionais, como as Nações Unidas, pois julgavam que a base de pensamento da sociedade francesa jamais poderia ter influência externa. Para eles, a única cultura a ser adorada é a francesa. Além disso, gaullistas defendiam que o poder Executivo deveria ser o mais forte e estável, com o adicional de um Presidente da República intocável. Certa vez, De Gaulle esbravejou: “a [única] Suprema Corte é o povo!”, não deixando dúvidas da hostilidade que gaullistas possuíam não só contra a Suprema Corte francesa, mas, na realidade, contra qualquer órgão ou instituição que pudesse limitar os poderes do general. Foram valores como esses que sustentaram governos gaullistas. Entretanto, há uma contradição — ou uma hipocrisia — também semelhante a um governo latino-americano que você talvez conheça. 

Enquanto o general gritava para seus apoiadores que os sindicalistas estavam errados e eram criminosos, que “tanto visões de esquerda, como de direita eram ultrapassadas, assim como discussões entre capitalismo e socialismo” e que o país deveria se libertar da dependência externa, o trabalhador francês médio ganhava menos de cinco baguetes por hora. Enquanto isso, o grande general, que claramente lutava pelas massas francesas, recebia noventa e três mil euros por ano. 

Então, se o presente é motivo de dor, que a coragem de 68 nos inspire a transformar o futuro. O Gaulismo de ontem é o bolsonarismo de hoje. A chama do maio francês continua tão acesa quanto o incêndio na bolsa de Paris.

Leia a edição digital do especial:

Precisamos retomar a coragem de 1968.

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Por Alexandre Ramos e Sofia Schurig



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