Especial

Precisamos retomar a coragem de maio de 1968.

Se o presente é motivo de dor, que a coragem de 68 nos inspire a transformar o futuro.

Por Alexandre Ramos e Sofia Schurig

A partir de maio de 1968, um período de agitação civil ocorreu em toda a França, durando cerca de sete semanas e sendo pontuado por manifestações, greves gerais, bem como a ocupação de universidades e fábricas.

Leia a edição digital do especial:

No auge dos eventos, que, desde então, se tornaram conhecidos historicamente como Maio de 68, a economia da França parou. Os protestos chegaram a tal ponto que o governo francês temia uma guerra civil ou revolução.

Noite das Barricadas

Em 6 de maio, a União Nacional dos Estudantes da França (Unef) — o maior sindicato francês até hoje — e o sindicato dos professores universitários convocam um protesto contra uma ação policial na Universidade de Sorbonne, que levou a prisão de mais de 600 universitários.

Mais de 20 mil manifestantes, entre eles alunos e professores, compareceram e no dia seguinte, centenas deles são presos injustamente. Por esse motivo, os sindicatos e associações estudantis se unem ao protesto e pedem a libertação dos estudantes, além da reabertura da Sorbonne, que ainda estava isolada pela polícia.

Quatro dias depois, vem a Noite das Barricadas. Uma enorme multidão de 20 mil manifestantes se reúne na parte sul da capital Paris, conhecida como Rive Gauche, e passa a erguer barricadas para impedir a ação policial e reivindicar a soltura dos alunos e professores presos no dia 6 de maio. Em um contra-ataque, manifestantes são atacados de madrugada.

Polícia parisiense invade as barricadas com escudos, cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. A brutalidade policial presente na ‘Noite das Barricadas’ acabou levantando diversas discussões na sociedade francesa, como pautas abolicionistas e antiarmamentistas. A violência policial também foi um dos motivos para a convocação posterior da greve-geral de 13 de maio. Fotografia por SIPAHIOGLU / SIPA.

O líder do Sindicato Nacional do Ensino Superior (Snesup) e o vice-presidente da UNEF pedem que o Quartier Latin, onde os confrontos estudantis se fortaleceram naquele mês de maio, e fossem ocupados “a todo custo”. Apesar das provocações, a polícia permanece impassível. De capa impermeável preta ou terno e gravata, munidos de capacetes sem viseira, óculos de motoqueiro, bolsa tiracolo (contendo máscara de gás), cassetete e escudo, a polícia está por toda parte. O Quartier Latin tornar-se-ia, naquele dia, um barril de pólvora.

Alunos do ensino médio, universitários, residentes e até comerciantes locais aderem ao movimento. Com uma picareta ou barra de ferro, os paralelepípedos decorativos das calçadas de Paris são extraídos das ruas.

“Ficamos felizes porque sabíamos da nossa força. Foi esse sentimento de força e unidade que criou a atmosfera de festa e barricadas. Tudo foi ficando simples, fácil. As barricadas deixaram de ser apenas um meio de autodefesa, tornaram-se símbolos de uma certa liberdade. Por isso, esta noite de 10 a 11 de maio será inesquecível”, escreveu Daniel Cohn-Bendit, um dos líderes do movimento estudantil. 

As barricadas se multiplicaram por minuto e se consolidam com blocos de concreto, andaimes e até arames de ferro, atingindo até dois metros de altura. Enquanto o Quartier Latin está bloqueado por todos os lados, tanto pela polícia quanto pelos manifestantes, a atmosfera fica ainda mais pesada. Nesse momento, os dois grupos enfrentam-se com as armas às mãos: pedras da calçada de um lado, bombas de gás lacrimogêneo do outro.

As bombas de gás lacrimogêneo caem sobre os jovens manifestantes, que respondem com o lançamento de pedras, coquetéis molotov e projéteis de todos os tipos. “Sob os paralelepípedos, a praia”, diziam em um único slogan. Mas nessa noite, a areia das ruas parisienses serve de meio de defesa, projetada na polícia graças aos compressores encontrados no local. Os manifestantes e jovens alunos também contaram com o apoio de alguns moradores da região, que das sacadas jogavam na polícia o que tinham em mãos.

Uma greve geral no 13 de maio

Na manhã do dia 11 de maio, dia após a Noite das Barricadas, o prefeito de Paris se pronuncia. É dito que nenhuma morte ocorreu, mas haviam 366 feridos, 22 em estado grave. A brutalidade da repressão policial não silenciou os protestos que se seguiram. Pelo contrário, a violência policial motivou novas manifestações ainda mais intensas e fez com que novos setores da sociedade civil adentrassem ao movimento nacional.

Esgotado após a noite de manifestações e motins, Daniel Cohn-Bendit se pronuncia pela rádio que, chocados com a brutalidade policial, todos os sindicatos da França entrariam em greve-geral na segunda-feira seguinte, 13 de maio, “em solidariedade aos estudantes e jovens trabalhadores”. Dois dos maiores sindicatos de esquerda na França, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e a Força Ouvrière (CGT-FO), participam na convocação da greve-geral em apoio a causa estudantil. Em um mesmo momento, artistas, poetas franceses e outras personalidades importantes fazem demonstrações públicas de apoio a causa.

O líder estudantil, Daniel Cohn-Bendit, discursando na Universidade de Sorbonne junto a outros líderes do movimento estudantil. A expulsão de Bendit da França geraria protestos e revoltas em todo o país. Não só isso, mas levantou um questionamento: se isso não ocorresse, será que outros movimentos estourariam em toda a Europa? Fotografia por Bruno Barbey.

A greve do dia 13 de maio contou com mais de 1 milhão de pessoas que marcharam nas ruas parisienses. O protesto desencadeou uma imensa reflexão criativa e discussão política em um âmbito nacional, à medida que trabalhadores buscavam refazer seus mundos e contribuir para a luta da forma que podiam. Além dos trabalhadores de fábrica, arquitetos e pintores também entraram na luta, atores entravam em greves fechando teatros em Paris e escritores renomados ocuparam o prédio da Sociedade dos Homens das Letras — fundada no século XIX por Honoré de Balzac, Victor Hugo, Alexandre Dumas e George Sand.

Quase todos os setores da economia foram paralisados, incluindo até mesmo a gestão pública e indústrias manufatureiras. Durante todo o mês de maio, os grevistas ou apoiadores da greve eram 1/3 da população francesa. Para além da causa estudantil, que ajudou a fomentar o movimento inicial da greve, os trabalhadores tinham motivos reais para reivindicarem uma melhoria nas condições do futuro do trabalho.

A jornada de trabalho semanal era de 46 horas, ou 9 horas diárias. Após a implementação de políticas neoliberais, se facilitou a contratação de horas extras, muitas vezes sem o pagamento adequado. Trabalhadores descreviam fábricas e usinas como quartéis em razão das condições sub-humanas e os péssimos salários. Considerado um dos piores de toda a Europa, o salário mínimo francês naquela época era o equivalente a 2,75 euros atualmente.

As greves de maio também contou com um movimento de invasão de fábricas por parte de militantes e estudantes da esquerda radical. Em uma fábrica da Citroën, estudantes ocuparam o local em protesto, e tanto eles quanto os funcionários foram agredidos por policiais e guardas por conta da leitura de “literatura subversiva”. Emocionado após essa repressão, um jovem funcionário apontou para as portas da fábrica e gritou: “quando chamamos de prisão, você entende o que queremos dizer.”

Reação do primeiro-ministro

Buscando conter os avanços da greve-geral e das manifestações estudantis, o então Primeiro-Ministro da França, George Pompidou, declarou que todos os estudantes presos durante os atos seriam soltos. No mesmo pronunciamento, Pompidou declarou que a Sorbonne seria desocupada por policiais e poderia voltar ao funcionamento regular.

Entretanto, os manifestantes não cederam. Após a desocupação das forças policiais de Sorbonne, estudantes ocuparam-na e declararam a universidade como “local do povo”. Então, surgiu uma transformação revolucionária de consciência política que guiava os jovens a desafiarem a ordem política existente na França naquele momento, além dos fundamentos da educação e pedagogia à qual eram submetidos nos locais de ensino.

Folhetos eram espalhados por todo o campus de Sorbonne, proclamando satiricamente como todos os alunos que participavam da ocupação haviam passado em seus exames obrigatórios — que ainda estavam suspensos, uma vez que tanto alunos, quanto professores, estavam nas ocupações. Um folheto específico, por exemplo, parabenizava os estudantes por “passarem nos testes de: Espírito de Iniciativa, Desenvolvimento de Consciência Política, Disciplina Revolucionária, Solidariedade, Protestos e Barricadas”.

Cartazes em uma universidade francesa celebrando líderes comunistas, a ideologia e a filosofia marxista. Fotografia por Bruno Barbey.

Enquanto o ativismo no ensino superior era celebrado, a participação de adolescentes no Maio de 68 é frequentemente esquecido por jornalistas e pesquisadores.

Integrantes dos Comités d’action lycéen afirmaram que a presença dos estudantes – também chamados de liceus – nas manifestações refletia “a amplitude e a profundidade da crise de maio: é de fato uma crise que diz respeito ao conjunto da sociedade, onde a indiferença é impossível; e uma parte do meio do ensino médio escolheu o seu campo: desafiar o sistema, questionar instituições universitárias, sociais e políticas.”

No âmbito curricular, o principal objetivo do movimento estudantil era abolir o sistema de “teste e punição”, que dominava todos os níveis da educação francesa. Descritos como absurdos e reacionários, líderes da ação estudantil argumentavam que esses exames eram “a expressão do contrato aberrante e intolerável que conecta os usuários universitários mutualmente por um lado, e a sociedade capitalista, por outro.”

“Somos julgados pelo conhecimento livresco armazenado às pressas e que rapidamente esquecemos assim que termina o exame. O exame privilegia a competição, a emulação para o sucesso social e reforça hábitos mentais individualistas. Assim, incentiva um ambiente pedagógico no qual o homem é um lobo para os outros homens.”

Outra motivação externa para a agitação era a guerra da Argélia, que era uma colônia francesa, e do Vietnã. Estudantes do ensino médio participaram de manifestações antifascistas e protestaram contra a visita do então vice-presidente norte-americano Hubert Humphrey à França. A Guerra do Vietnã, em específico, teve maior peso como movimento de contracultura, por conta de sua influência na história mundial. O conflito, que durou cerca de vinte anos, foi um dos maiores atritos geopolíticos da Guerra Fria, com seu saldo desolador de mortes, destruição e instabilidades.

Milhares de estudantes e manifestantes se reúnem na Universidade de Sorbonne. Era frequente que, durante todo o maio francês, manifestantes se reunissem em universidades ao redor do país com artistas, escritores, intelectuais e sindicatos para decidirem seus objetivos e demandas. Fotografia por Bruno Barbey.

Paralelos com o Maio de 1968 ao redor do mundo

Maio foi um mês de resistência em todo o mundo. No Festival de Woodstock, protagonizado pelo movimento Hippie, houve uma demonstração sociopolítica e cultural de resistência ao neoliberalismo, sendo essencial. Iconicamente, Jimi Hendrix performou o hino americano imitando mísseis em uma alusão à Guerra do Vietnã.

Bebendo da mesma fonte do movimento francês, a contracultura e resistência a atuação do Exército dos Estados Unidos na guerra foi essencial para pressionar pelo fim do conflito, que se encerrou em 1975 com uma derrota da maior potência global. O Vietnã foi completamente destruído com, inclusive, armas químicas contestadas por convenções de direitos humanos, como o agente laranja — herbicida tóxico bombardeado durante dez anos em todo o território vietnamita pela Força Aérea dos EUA.

O objeto dos Estados Unidos era dizimar as safras de alimento, assim destruindo a guerrilha comunista vietnamita que geralmente se escondia nas selvas para emboscar os americanos. Décadas após o conflito, o Vietnã concluiu que 3 milhões de civis morreram. Mas naquele maio, não foram abalados apenas os valores de confiança sobre instituições militares, mas também os valores patriarcais.

A luta feminista

A segunda onda feminista participou das manifestações francesas, atingindo importantes objetivos nas lutas de raça e gênero no país. Uma das principais frentes era a libertação sexual contra valores católicos, além da luta pelos direitos reprodutivos. Aquele mês de maio foi o ponto de partida para uma luta histórica pelo direito ao aborto que culminou na aprovação da Lei Veil, autorizando o procedimento em 1978. O nome homenageia a então ministra da Saúde, Simone Veil, que elaborou o projeto de lei.

Em um discurso durante a apresentação inicial do PL na Assembleia Nacional da França, em 1974, a ministra disse que o aborto deveria ser a exceção. “Peço desculpa por fazê-lo nesta Assembleia quase exclusivamente composta por homens: nenhuma mulher recorre com alegria ao aborto. É preciso apenas ouvir as mulheres. Isso ainda é um drama, sempre será um drama. Por isso, se o projeto que vos é considerado a situação factual existente admite a possibilidade de interrupção da gravidez é para controlá-la e, tanto quanto possível, dissuadir a mulher de fazê-lo”, disse a ministra.

No entanto, apesar de a pauta da libertação sexual estar se popularizando na política tradicional e no entretenimento global, a luta feminina ainda não era levada a sério. Estudantes mulheres que posteriormente deporiam a historiadores dizem relembrar uma situação de preconceito e machismo em meio às ocupações. “A revolução era cultural, proletária, sexual, tudo menos feminista. Quando abordávamos o assunto do local da mulher na sociedade, éramos chamadas de burguesas egoístas”, disse Jacqueline Feldman, socióloga francesa, em entrevista à revista Elle.

Essa pode ter sido uma das únicas, porém principais, falhas do maio francês. Por ser protagonizado por homens jovens e universitários, pautas essenciais como o alinhamento da classe ao gênero e a raça poderiam ter ajudado nas ocupações.

A filósofa Simone de Beauvoir (centro-esquerda) marchando ao lado de estudantes e colegas. Ela e seu parceiro foram extremamente ativos durante o maio francês, proporcionando até um direcionamento aos alunos. Fotografia: Getty Images.

Mas é importante ressaltar que figuras feministas históricas participaram dos eventos de maio, como Simone de Beauvoir, uma das principais filósofas atualmente. Em sua biografia, é relatado que a filósofa e seu parceiro, Jean-Paul Sartre, frequentemente davam mentorias aos jovens estudantes e os instruíam em como continuar no movimento. O casal era chegado à exposição pública na luta política e participou das assembleias nas grandes universidades, como Sorbonne e Nanterre, além de reuniões orquestradas pelos comitês de ação estudantil.

O saldo da greve-geral de 13 de maio

Em 14 de maio, mais de 2 mil manifestantes começaram uma ocupação de fábricas, começando pela Sud-aviation, empresa francesa de aviação. Seus funcionários mantiveram a paralisação total por um mês.

François le Madec, um ativista sindical que participou das ocupações, descreve em seu livro Os Espinhos de Maio como a fábrica e seus arredores inicialmente pareciam um canteiro de obras, mas funcionários arrumaram o local. Foram construídas coberturas e cabines, também para acomodar as famílias dos grevistas, que passaram a viver na fábrica. Madec diz que não haviam líderes ou ordens do sindicato para o que chama de “colônica de formigas”, e que a ocupação se sustentou na “solidariedade e autodisciplina”.

Funcionários municipais na cidade onde a fábrica era alocada aderiram à ocupação, o que também evitou grandes disputas e confrontos com as autoridades. No entanto, na França, essa ocupação é conhecida por conta do sequestro do diretor da Sud-aviation, Pierre Duvochel, além de dezoito executivos da empresa. Eles foram libertos em menos de dez dias, sem danos físicos.

O saldo das ocupações é que sentimentos revolucionários e esperançosos foram fomentadas, no que se tornou a maior greve geral da França. Foram 10 milhões de trabalhadores, estudantes e apoiadores.

Fotografia de autor desconhecido tirada nos primeiros dias da ocupação de fábricas da Sud-Aviation. A ocupação durou um mês completo e teve participação de familiares e até filhos dos operários.

Daniel Singer, jornalista, descreve como o potencial de revolução irrompeu na sociedade francesa quando eles resolveram desencadear o debate político e questionar todas as estruturas do mundo a sua volta. “Nas fábricas ocupadas, nos escritórios, nos laboratórios, nas ruas, as pessoas conversavam, questionando as estruturas hierárquicas e sua função na sociedade. Professores, sociólogos, cientistas debatiam seu próprio papel na ordem existente. Por toda parte, as engrenagens pensantes estavam ponderando seu lugar na máquina.”

Pouco após o começo das ocupações em fábricas, já haviam 50 paralisadas em todo território francês. Funcionários se negavam a abandonar os postos com medo de serem demitidos ou sofrerem represálias, e passaram a construir enormes barricadas nas portas das fábricas, demandando por salários justos e melhores direitos trabalhistas.

O comitê de ocupação de Sorbonne ajudou no movimento e no mesmo dia que se declarou como uma “comuna livre”, demandou a ocupação imediata de todas as fábricas franceses, somada à criação de conselhos de apoio aos trabalhadores grevistas.

Telecomunicações, imprensa e mídia combativos

Enquanto a imprensa tradicional temia a revolta popular e associava a França a um novo “socialismo europeu” alinhado à União Soviética, a imprensa nacional cobria os atos com orgulho e chegava a apoiar o movimento publicamente.

A maior empresa de telecomunicações do país, ORTF (Office de Radiodiffusion-Télévision Française), foi uma das que participou do movimento. Com quase o monopólio de audiência, mais da metade dos lares franceses a tinham como sua principal fonte de informações. Seus funcionários decretaram seu apoio a greve geral e colaboraram com organizações no audiovisual francês, além dos sindicatos e comitês.

Jornalistas, produtores, cinegrafistas, redatores e diversos funcionários decretaram apoio e participação na greve geral e tiveram a colaboração de organizações gerais do cinema francês, assim como de sindicatos. Uma série de panfletos foi confeccionada e distribuída pelas ruas da capital explicando o porquê de os profissionais de comunicação aderirem à greve. 

Nele, é dito: “Os jornalistas de rádio e televisão pretendem exercer nossa profissão livremente. Sempre procuramos fazer isso. Mas as pressões do governo e da gestão da ORTF, escolhida por esse governo, estão privando você de algumas das informações que coletamos para você. Uma grave crise estourou no país. Estamos cientes de nossas obrigações para com você, tudo fizemos para mantê-lo informado até o dia em que fomos totalmente impedidos. Recusamos então um noticiário truncado e juntos protestamos parando de trabalhar.

Entretanto, certas partes da imprensa francesa — incluindo jornais e profissionais de esquerda, ou centro-esquerda — criticavam a atuação dos jornalistas da ORTF. Uma dessas partes é o jornal francês Le Monde, que criticou o fato de a agência ser financiada por verba estatal e ser considerada como um monopólio de mídia. Neste artigo, o jornal observa haver a “estranheza com que a ORTF reforçou, em vez de tentar suavizá-la, a intransigência do governo, criando inquietação entre os jornalistas. Vamos permitir a ideia de que existem duas categorias de jornalistas na agência: os ‘condicionados’, que estão sujeitos aos constrangimentos da propaganda e censura governamental, e os ‘emancipados’, que pretendem exercer sua profissão de jornalista com preocupação e honestidade.”

A greve dos jornalistas se fortaleceu ainda mais logo depois que o então Ministro das Comunicações Yves Guén, um gaullista, decidiu cortar qualquer meio de transmissão do Quartier Latin — bairro francês que era um dos focos dos manifestantes. Poucos dias depois, jornalistas aderiram oficialmente à greve com apoio dos sindicatos. Dessa forma, mais profissionais de empresas privadas resolveram aderir ao movimento, assim como grandes nomes do jornalismo francês. 

Estudantes no Quartier Latin sendo conduzidos a uma delegacia de polícia em 11 de maio. Centenas de estudantes foram presos durante os protestos daquela noite e centenas mais hospitalizados, assim como vários policiais. Fotografia por Getty Images.

O sindicato dos jornalistas criou uma “comissão permanente” para o “respeito da objetividade da informação”. Essa assembleia votou pela greve e confeccionou uma lista de reivindicações, incluindo autonomia jornalística diante do poder que o Estado possuía na ORTF — por conta do financiamento estatal — e a criação de um ‘estatuto pessoal’ para os membros da imprensa. Contudo, a ORTF só iria aderir oficialmente à greve geral no dia 25 de maio. No mesmo dia da adesão — não oficial — dos jornalistas franceses ao movimento grevista, uma fábrica da montadora Renault foi ocupada. Mais de quatro mil trabalhadores sequestraram diretores e executivos da empresa e mais de 70 mil metalúrgicos aderiram à greve-geral. 

Enquanto o jornalismo francês se revolucionava através de uma maior aproximação da população e de uma ampla cobertura dos protestos daquele mês, o jornalismo brasileiro manipulou uma boa parte da população do país para apoiar um golpe militar e a derrocada da democracia. Porém, existem exemplos de quando essa manipulação saiu das folhas de papel e se materializou na história. 

A Comissão Nacional da Verdade durante o governo de Dilma Rousseff, buscando punir crimes e violações de direitos humanos durante a ditadura militar, revelou que a Folha de São Paulo emprestava carros da redação para a Operação Bandeirante, centro de investigações do Exército que combatia organizações de esquerda e perseguiu opositores políticos durante a ditadura. Octávio Frias de Oliveira, dono do jornal na época, também fazia visitas frequentes ao Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), responsável pela censura da comunicação e cultura nacional, além da tortura e assassinato de múltiplos inocentes.

É chocante como, após cinquenta anos desse feito, uma retratação formal às vítimas do regime nunca foi feita por tais veículos. Além disso, uma requalificação dos profissionais em tais redações nunca foram feitas — o corpo pode ter mudado, mas a cabeça ainda é a mesma.  Não só esqueceram, aparentemente, de se desculpar pelo apoio a um regime sanguinário que traz terror ao país até hoje, como fazem questão de transformar esse apoio em piada. 

“Mas, se as chamadas “ditabrandas” – caso do Brasil entre 1964 e 1985 – “partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso. O líder eleito mina as instituições e os controles democráticos por dentro, paulatinamente.”, assina o jornal Folha de São Paulo no Editorial “Limites a Chávez”. Nesse material, o corpo editorial acredita que a ditadura militar brasileira foi amena, tranquila, já que possuía “formas controladas de disputa política e acesso à Justiça”. Ademais, fazem um aceno positivo a Alberto Fujimori, ditador peruano responsável por dezenas de massacres orquestrados, perseguição de opositores políticos e esterilização forçada e ilegal de mais de duzentas e cinquenta mil mulheres. 

O jornalista André Oliveira, do El País, expressa bem a sensação dos brasileiros da época ao dizer que ‘maio de 1968 não foi um mês no Brasil, mas um ano inteiro’.

Outra semelhança entre brasileiros e franceses da época é o espírito de mudança presente nos estudantes. A Sexta-Feira Sangrenta, em 21 de junho de 1968, é uma data histórica marcada pela inspiração juvenil, já que, nesse dia, estudantes cariocas reuniram-se em frente à sede do Jornal do Brasil buscando um aumento da verba pública e o fim da violência dos militares contra os estudantes. Em resposta, vinte e oito estudantes foram assassinados e mais de mil presos. Nota-se que, nesse dia em específico, a repressão contra os estudantes foi consideravelmente mais violenta. Um dos motivos é a ascensão de movimentos revolucionários e de contracultura — como o maio francês – ao redor do mundo, o que preocupava Estados autoritários. Não é uma coincidência que o Ato Institucional n° 5 (AI-5) tenha sido promulgado ao fim daquele ano.  

No entanto, mesmo veladas, as manifestações contra o governo militar — inspiradas no maio francês — permaneceram. Seja por músicas, receitas de bolo nas capas dos jornais censurados ou poemas, a resistência permaneceu ativa. Nomes como Gilberto Gil, Zuzu Angel e Vladimir Herzog marcaram sua presença, fundamentais para manter o sentimento de insatisfação latente no povo, assim como a esperança firme.

Mas, retornando à Europa, houve outra parte da comunicação francesa afetada pelos protestos: o Festival de Cannes, um dos festivais cinematográficos mais prestigiados em todo o mundo. Dias antes do evento, a Associação Francesa de Críticos emitiu uma nota pedindo aos participantes que se juntassem às manifestações de apoio aos estudantes grevistas, além de pedir a suspensão do festival. A Associação alegou que “a violenta repressão policial atenta contra a liberdade cultural da nação, as tradições laicas de suas universidades e seus princípios democráticos”. Poucos dias depois, a Assembleia Geral de Professores de Cinema também pediu a suspensão do festival. No entanto, sua organização se recusou a suspendê-lo.

Foi nesse momento que surgiu um movimento na sétima arte conhecido como Nouvelle Vague. Esse movimento trouxe para o cinema as transgressões dos movimentos de 68, destacando-se pela quebra das regras do cinema comercial em prol do fazer artístico. Os filmes, que possuíam baixo orçamento e atores principiantes, retratavam a vida e suas modificações trazidas pelos movimentos de maio — como o amor livre, por exemplo. Entre seus diretores, destacavam-se Godard, Truffaut e Varda. Os dois primeiros seriam, posteriormente, responsáveis pelo maior boicote cinematográfico daquele ano. 

Em uma entrevista coletiva à imprensa na manhã do dia 18 de maio, foi criado um painel de discussão dos membros do Comitê de Defesa da Cinemateca, com a presença dos diretores Jean-Luc Godard e François Truffaut – esse último seria banido posteriormente do Festival por seu apoio aos manifestantes. “A França está em estado de sítio, depois que uma onda de protestos estudantis recentes se transformou em greves nacionais e distúrbios violentos. O rádio anuncia a cada hora que as fábricas estão ocupadas ou fechadas”, disse Truffaut. “Os trens pararam, o metrô e os ônibus serão os próximos. Portanto, anunciar a cada hora que o Festival de Cinema de Cannes continua é simplesmente ridículo. ” Godard foi mais direto: “Estamos falando de solidariedade com estudantes e trabalhadores, enquanto você está falando de fotos e closes de bonecos. Você é um idiota. “

Cineastas, artistas e manifestantes tentando impedir a exibição de filmes no Festival de Cannes. É importante ressaltar que os artistas se prejudicaram ao pedirem o cancelamento do festival, mas fizeram a ponderação de que se alinhar aos movimentos sociais franceses era mais essencial do que a exibição de suas artes. Fotografia por Bruno Barbey.

Como o festival, que também seria no dia 18, ainda não havia sido cancelado pela organização, cineastas tiraram seus filmes da competição e membros do júri renunciaram suas funções. Outros tentaram se agarrar às cortinas vermelhas do festival para impedir a exibição dos filmes. Manifestantes subiam ao palco e impediam que qualquer sessão fosse exibida. No fim do dia, a direção do festival anunciou o cancelamento da competição, mas com a continuação das exibições. No entanto, dos 28 filmes que seriam exibidos, somente 11 apareceram nas telas e não houve premiação.

Ao longo dos próximos dias, as manifestações tornaram-se ainda maiores e cada vez mais trabalhadores aderiam à revolta. A situação implodiu logo após uma ordem executiva do Ministro do Interior para impedir a entrada de um dos líderes do movimento estudantil, Daniel Cohn-Bendit, em território francês. Daniel estava em uma viagem para tratar de assuntos políticos com movimentos estudantis estrangeiros em Saarbrücken, cidade alemã. Poucos dias depois, ele conseguiu retornar para a França escondido, após pintar seus cabelos e se esconder em um porta-malas. Ele ficou no país por somente quatro dias, mas chegou a participar de protestos e reuniões abertas em universidades. Sua expulsão do território francês durou dez anos, mesmo com o fim das manifestações. 

Na semana que se seguiu, diversos setores públicos, como os correios e o transporte público, aderiram às paralisações. Com a escalada da agitação e da radicalidade dos manifestantes, autoridades francesas começaram a entrar em contato com sindicatos, políticos e líderes sociais para a elaboração de um acordo que preferencialmente culminasse no fim dos protestos. 

Mas a elaboração foi demorada demais para conter um dos maiores feitos dos manifestantes: o incêndio na Bolsa de valores de Paris. Duas horas antes, Charles de Gaulle anunciou aos franceses um referendo em junho “sobre a renovação”, que levaria à sua saída se o “não” vencesse. “Adieu de Gaulle, Adieu” (“Adeus de Gaulle, adeus”), cantaram em resposta. 

Na praça da Bolsa, em Paris, cerca de três mil manifestantes estavam reunidos e, após o pronunciamento, começaram a se chocar entre si. Alguns, considerados moderados, queriam retomar os protestos no bairro do Quartier Latin, enquanto outros queriam invadir a Bolsa parisiense. “Vamos galera, quebrem tudo, esse é o templo do capitalismo”. A princípio hesitantes, depois gradualmente encorajados pela emoção de gritos, ordens, insultos e o som das janelas, cada vez mais numerosas e estilhaçadas, os manifestantes invadiram o edifício.

Após perceberem que a polícia estava chegando, alguns juntaram caixotes, cadeiras e destroços e incendiaram o local. O prédio não foi totalmente danificado e não houve nenhum ferido, mas o ocorrido se tornou um dos diversos marcos históricos e culturais do mês de maio daquele ano.

Porém, os esforços e as motivações revolucionárias do maio francês encerrar-se-iam pouco tempo depois. O então primeiro-ministro George Pompidou havia assumido informalmente as funções do presidente de Gaulle — já que esse perdera apoio popular — e elaborou um acordo entre os manifestantes, a classe trabalhadora e o governo. Após quase um mês completo de protestos e greves gerais, os Acordos de Grenelle são postos à mesa. Naquele mesmo dia, o país inteiro estava sem gasolina e sem linhas telefônicas.

Os acordos representavam um conjunto de reformas na área econômica e melhorias nos direitos trabalhistas, como: um aumento de 35% no salário mínimo, que iria para 3 francos por hora, a criação de uma secção sindical em todas as empresas com mais de cinquenta empregados e uma diminuição na jornada de trabalho para quarenta horas semanais. 

Com um mês de luta, os trabalhadores franceses conseguiram o mínimo: condições dignas de trabalho. Mas não se engane, essa luta não foi feita somente por grevistas, e sim por toda a sociedade francesa. Durante todo o mês, diversas regiões do país ficaram sem luz e água. A gasolina foi escassa e quase causou um desabastecimento dos mercados. Pessoas comuns sacrificaram bens materiais, como carros e até móveis, para a criação de barricadas nas ruas. 

Foram contabilizados quase dois mil manifestantes feridos por forças policiais – dentre os quais duzentos estavam em estado grave – e existem documentações oficiais e não oficiais de mil até cinco mil prisões. Vários estudantes do ensino médio que participavam ou apenas visitam os comitês de ação estudantil foram suspensos e até expulsos de seus colégios. Universitários de todos os cursos reprovaram em seus exames por se recusarem a frequentar aulas até que melhorias educacionais fossem feitas. 

Esse não é o fim oficial do maio francês, mas é onde iremos encerrar para fazer um questionamento. Falamos por parágrafos e parágrafos sobre a década de sessenta no mundo, esperando que você note a semelhança entre tal época e a atual. Com o pior dos dois mundos, o Brasil de hoje tem o contexto social da ditadura militar e a economia da França gaullista. 

Mas a economia francesa da época não só era sustentada através da exploração de trabalhadores, mas também por valores tradicionais e conservadores que mantinham a estrutura sólida. Um desses exemplos é o ultranacionalismo presente nas falas de gaullistas, que afirmam que instituições estatais devem ser sempre respeitadas e jamais questionadas. Por esse motivo, organizações sindicais eram inimigas do gaullismo tradicional e sua doutrina, já que questionavam seriamente as políticas trabalhistas do governo. 

Esse ultranacionalismo também é presente no ódio que eles possuíam de organizações internacionais, como as Nações Unidas, pois julgavam que a base de pensamento da sociedade francesa jamais poderia ter influência externa. Para eles, a única cultura a ser adorada é a francesa. Além disso, gaullistas defendiam que o poder Executivo deveria ser o mais forte e estável, com o adicional de um Presidente da República intocável.

Certa vez, De Gaulle esbravejou: “a [única] Suprema Corte é o povo!”, não deixando dúvidas da hostilidade que gaullistas possuíam não só contra a Suprema Corte francesa, mas, na realidade, contra qualquer órgão ou instituição que pudesse limitar os poderes do general. Foram valores como esses que sustentaram governos gaullistas. Entretanto, há uma contradição — ou uma hipocrisia — também semelhante a um governo latino-americano que você talvez conheça. 

Enquanto o general gritava para seus apoiadores que os sindicalistas estavam errados e eram criminosos, que “tanto visões de esquerda, como de direita eram ultrapassadas, assim como discussões entre capitalismo e socialismo” e que o país deveria se libertar da dependência externa, o trabalhador francês médio ganhava menos de cinco baguetes por hora. Enquanto isso, o grande general, que claramente lutava pelas massas francesas, recebia noventa e três mil euros por ano. 

Então, se o presente é motivo de dor, que a coragem de 68 nos inspire a transformar o futuro. O Gaulismo de ontem é o bolsonarismo de hoje. A chama do maio francês continua tão acesa quanto o incêndio na bolsa de Paris.