Já faziam uns dois meses que eu trabalhava naquele jornal. Era o trabalho da minha vida, ganhar dinheiro por escrever? Eu estava no céu. Despreocupado e feliz com a vida, resolvi dar uma volta pela orla. Gostava de assistir às ondas quebrando e às pessoas pela areia, jogando bola, conversando ou só tomando sol mesmo. Volta e meia, me batia com alguma história e passava a escutar; temos que conseguir materiais para as crônicas, não é mesmo?

Depois de uns cinco minutos de caminhada, sentei num banco qualquer com uma água de coco e uma pose de quem fosse o Fernando Sabino menos conhecido do mundo. Escutar, observar, escutar, observar… é meu trabalho. No final das contas, sou pego por uma conversa entre dois namorados, super melosos. Aquela coisa bem início de relacionamento, que parece que aquela pessoa substituiria tranquilamente o seu rim e você não ligaria em perder nada por ela (bom, talvez um pedaço do fígado quando acabasse). Aquele moleque até que parecia um bom partido, ou talvez só cachorro mesmo, só sei que ele era bom de papo. Em meio a todo aquele discurso ultrarromântico, me ficou uma citação à lá Roberto Carlos “Eu gosto dos detalhes… Acho que na verdade todo apaixonado quer os detalhes: O cheiro, a pintinha embaixo do olho o jeito que você dá risada…”. Depois disso, me perdi um pouco, antes que acabasse interferindo e pedindo o pivete em casamento.

Lá do meio pro fim da minha água de coco, passei a reparar no grupo de senhores que estavam sentados numa mesa jogando dominó. Todos gritavam e pulavam como se fosse um gol de copa do mundo. Dois que estavam de pé tomavam cerveja em copos americanos de procedência duvidosa (Na verdade a cerveja também, a gente estava numa barraca de água de coco, não em um boteco). Dos que estavam jogando, uma dupla tomava, também, sua cerveja clandestina e a outra tomava água de coco. Mas… Um dos coroas era diferente, ele era tipo o rei dos coroas ou, pelo menos, o mais descolado. Chapéu Panamá, camisa de botão meio aberta com a corrente aparecendo (Algo entre Jorge Amado e bicheiro da Mata Escura) e um copo de dose que ele escondia atrás da perna. Observei tanto aqueles amigos e o exemplo de malandro da terceira idade que me sentia quase que um intruso naquela situação, mas tudo ficou mais tranquilo quando o “Gato” do Capitães da Areia com 70 anos levantou o copinho de dose com alguma cachaça prima do álcool, também 70, pra mim e deu um sorriso. Quero ser igual a esse coroa no futuro…

Acontece que, com tudo isso, eu só posso concluir uma coisa: Acho que, assim como os apaixonados tratam os detalhes do que amam como o divino, os cronistas são grandes apaixonados pela vida (será?). Existia algo de prazeroso em observar cada detalhe do que acontecia a sua volta e 3 horas parecerem cinco minutos, algo de reconfortante em saber que o moleque no ponto de ônibus conseguiu passar na Federal e até uma adrenalina em saber que meu vizinho tinha deixado de mobiliar a casa por conta da “namorada” que só dava corno nele. Quer saber? Talvez nós, cronistas, até sejamos grandes apaixonados pela vida, mas isso é só romantização. No fundo, nós somos só grandes fofoqueiros com um vocabulário bom.

Sabiá

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