Rússia e a sua política no Ártico

O aquecimento global é um problema grave e incontestável, ao menos dentre as pessoas com alguma razoabilidade. Seu combate se dá num caráter de urgência que poucas vezes existiu na história da humanidade, por isso, líderes de todo o mundo se unem em prol de medidas de abrangências diversificadas para controlá-lo, porém, é um erro pensar que todos são afetados da mesma maneira – e aqui não falo apenas da maneira clássica em que os pobres são sempre mais afetados que os ricos – mas numa perspectiva geopolítica: se existe um país que tem a ganhar com a mudança climática, esse país é a Rússia. Vou explicar o porquê.

Como sabemos, durante toda a história moderna o domínio do comércio marítimo e a descoberta de novas rotas de acesso a territórios distantes são essenciais para o comércio e o desenvolvimento econômico das nações, através disso Portugal, Espanha e Inglaterra tornaram-se potências coloniais a partir do século XV, com a chegada às Américas e a descoberta da rota marítima do Cabo da Boa Esperança, que barateou e encurtou o tempo do comércio entre a Europa e a Ásia.

Em 1869, a construção do Canal de Suez reduziu o tempo e os custos desse comércio em valores astronômicos e alçou a Inglaterra, que controlava o canal, a um status absurdamente superior a seus concorrentes – vale lembrar que a Guerra de Suez, em 1956, que causou o fechamento do canal gerou uma crise no comércio e aumentou o custo de produção e transporte em escala global, gerando um processo de inflação generalizada.

Sabendo disso, pode-se perguntar o que isso tem a ver com o aquecimento global e a Rússia? Nos últimos quarenta anos, a cobertura de gelo no ártico reduziu-se cerca de quarenta porcento – região da qual a Rússia tem o controle da maior parte do território marítimo.

Esse degelo está criando uma rota comercial pelos mares ao norte da Rússia, que poderá reduzir em milhares de quilômetros as distância para os navios entre China, Japão, Coreia do Sul e outras economias emergentes na Ásia, que vem crescendo vertiginosamente, a Europa e as Américas, principalmente os Estados Unidos e o Canadá, como podemos ver na imagem.

Tradução da imagem e texto alternativo: ao lado do traço vermelho, que circula a rota dos Países Baixos ao Japão, escreve-se: ‘Rota do Mar do Norte: navegável no nordeste sem quebra-gelos por dois a quatro meses do ano’.
Ao lado do traço azul, que circula toda a região do Canal de Suez, escreve-se: Rota do Mar do Sul.

Essa nova rota já dá seus primeiros passos. Em 2017, o primeiro navio petroleiro passou pela rota sem ajuda de navios quebra-gelo. Já no ano seguinte, um navio saiu da Coreia do Sul desembarcando na Europa utilizando-a, e comparando com o trajeto comum: a viagem foi encurtada em duas semanas, o custo do combustível foi reduzido em mais de trinta porcento, as altas tarifas do Canal foram evitadas, assim como a pirataria do Oriente Médio – que se encontra próximo à Somália, chifre da África. Cálculos mostram que a rota pode reduzir os custos das viagens em mais de quinze porcento.

A Rússia, detentora da maioria desse território, controla quem passa ou não, aumentando consideravelmente seu poder geopolítico – afinal, imagine o estrago que uma sanção a passagem navios de determinados países pode causar a suas economias quando a região estiver em plena operação, aumentando os custos perante os concorrentes. Recentemente, o presidente russo Vladimir Putin declarou que o desenvolvimento da infraestrutura da região será prioridade nos próximos anos, com a criação de portos, desenvolvimento de indústrias e construção de ferrovias. A expectativa é que em oito anos, mais de oitenta milhões de toneladas sejam transportadas pela rota.

Não é a primeira vez na história que a região ártica se torna espaço central de disputas geopolíticas, durante a Guerra Fria, o controle de suas rotas foi disputado pelos Estados Unidos e pela União Soviética, mas o degelo elevará isso para o aspecto comercial e não mais apenas de controle, defesa e poder.

Se engana também pensar que a rota marítima é a única novidade trazida com o degelo do Ártico. O derretimento das camadas mais grossas do gelo tende a liberar para exploração grandes reservas de recursos inexplorados. A região conta com cerca de um pouco mais de vinte porcento do petróleo e gás global e mais da metade está no território russo – estima-se que estejamos falando de valores de mais de 35 trilhões de dólares, valor próximo ao PIB de Estados Unidos e China somados. Junto a Rússia, o Canadá também é detentor de um vasto território na região do Ártico, porém, o espaço canadense é de mais difícil navegação e conta com menor infraestrutura, o país vem investindo altos recursos e incentivando a migração para essas áreas.

As disputas de poder já estão presentes e há alguns anos há a tentativa de tornar o Mar do Ártico um território de águas internacionais, proposta essa rechaçada pelos países da região, como Canadá, Noruega, Dinamarca, Groenlândia, Estados Unidos e, claro, a Rússia. A preservação do meio-ambiente é essencial, mas ela também faz parte das disputas de poder que acontecem no mundo. É a geopolítica, que muitos dizem ser coisa do passado, continua influenciando o jogo de poder. 



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