O dia em que Bolsonaro nada falou


O icônico filme de François Truffaut, de 1966, “Fahrenheit 451” termina com a encenação propagada pelo governo da morte de Montag, protagonista da história, que havia fugido do regime. Mais do que a morte física da personagem, ela representava uma tentativa daquele Estado totalitário de apagar as ideias dos opositores. Além disso, essa cena ilustra […]


O icônico filme de François Truffaut, de 1966, “Fahrenheit 451” termina com a encenação propagada pelo governo da morte de Montag, protagonista da história, que havia fugido do regime. Mais do que a morte física da personagem, ela representava uma tentativa daquele Estado totalitário de apagar as ideias dos opositores. Além disso, essa cena ilustra um aspecto fundamental da análise política: o controle das narrativas.

Em um mundo marcado pelo excesso de informações – na maré da “cibercultura” para Pierre Lévy –, a propagação de notícias falsas e governos autoritários, a maneira pela qual as notícias são propagadas, é de fundamental importância. E é justamente nessa lógica que o bolsonarismo se alicerça. Baseadas nos absurdos olavistas, negacionismos, messianismo e charlatanismo, as notícias passam a ser moldadas e, associadas a uma propagação pelas redes sociais, atingem em cheio sua base – agora mais diminuta que nunca.

Esse aspecto bolsonarista não é novo. Ainda em 1964, Murray Edelman, em The Symbolic Uses of Politics (“O Uso Simbólico da Política” em Português), nos ensina sobre a criação de inúmeros “símbolos desconexos” que mascaram a realidade do público. E exemplos não faltam nesse governo, em geral, para retratar sua política de morte. Desde a propagação da chamada “intoxicação precoce” com cloroquina até a afirmação de que tomar a vacina transformaria as pessoas em jacaré, havia uma tentativa de dominar as narrativas. Acontece que, em outros eventos, quando se demonstram as fraquejadas do presidente, ele fica inerte, indiferente, como se nada tivesse acontecido.

E essa foi a reação dele sobre as manifestações de 29 de maio de 2021, que aconteceram em mais de 200 cidades do Brasil e do mundo e foram muito superiores àquelas feitas pelos bolsonaristas no começo do mês. O impacto no Twitter também foi notável, com a parte azul inferior representando a quadrilha nazifascista enquanto o restante demonstra seus apoiadores. Consegue-se inferir, inclusive, que houve tentativas dos grupos governistas, mas que foram inundadas pela maré do #ForaBolsonaro.

A verdade é: Bolsonaro, que falava absurdos para tudo, ficou sem palavras. Perdeu a batalha, mas precisamos continuar agindo para ganhar a guerra de 2022. É preciso carregar essas manifestações como um aviso: o Brasil é muito maior que Bolsonaro.


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