Chacina do Jacarezinho: 1 mês depois e nenhum “grande morto”


Há um mês a comunidade do Jacarezinho, na cidade do Rio de Janeiro, foi alvo do que ficou conhecido como a maior chacina da sua história. Truculência policial travestida de combate ao tráfico de drogas que tirou a vida de 28 pessoas, 1 delas de um policial civil. Sem histórias, sem passado e sem famílias, as vítimas são transformadas pela narrativa policial em suspeitos e não um “grande morto” e, muitas vezes, com a imprensa como transmissora desse discurso.



Era 6 de maio e, durante nove horas, a comunidade do Jacarezinho foi palco de uma operação que resultou na morte de 28 pessoas, entre elas o policial civil Andre Frias – única vítima identificada no mesmo dia – e dois passageiros do metrô que foram atingidos por balas e estilhaços. Essa cobertura, em especial, dominou o noticiário nacional e internacional por ter relevância jornalística, e por se tratar de uma ação policial, com grande números de mortos, que poderia ser caracterizada como uma possível chacina.

A justificativa para a operação veio da Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente (DPCA), que denunciava um possível aliciamento de menores para o tráfico de drogas. Justificativa que não foi mencionada no relatório final apresentado pela própria delegacia. As versões conhecidas até aquele momento partiram das corporações policiais, fazendo com que a comunicação fosse única, enviesada e com a já conhecida justificativa de combate ao tráfico de drogas. Não se sabia os nomes das vítimas, suas histórias, seu passado. Já pipocavam via redes sociais, meio de comunicação que frequentemente consegue furar a bolha da narrativa única da imprensa, de que execuções sumárias aconteciam em toda comunidade. Mas quem a polícia supostamente executava? Executava números, estatísticas, nenhum grande morto.

Maurice Mulhiaud, em seu livro “O Jornal da Forma ao Sentido”, chama de grande morto as pessoas que estão aptas às reportagens especiais, com desdobramentos dos casos, cobrança das autoridades por um desfecho. Alguns exemplos são a vereadora Marielle Franco, o jornalista Tim Lopes e a atriz Daniella Perez. Esses são os ‘grandes mortos’ que pautam a imprensa por um longo período.

Esse mesmo interesse prolongado da mídia não foi observado quando Ágatha, Kauã, Kauê ou João Pedro foram assassinados. Lembram da justificativa do DPCA para o início da operação na comunidade do Jacarezinho? Bem, essas cinco crianças não tiveram a proteção do Estado. Suas mortes foram possíveis devido a uma suposta guerra ao tráfico de drogas que, em grande maioria, dizima pessoas pretas e pobres.

Mas a letalidade da polícia não se faz presente apenas para crianças, certo? Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), nos 5 primeiros meses de 2020, 1239 pessoas foram mortas pela polícia fluminense, uma média de 3 pessoas por dia, entre elas estão as 28 do Jacarezinho que serão transformadas em dados ou estatísticas, que estarão em evidência, no máximo, até a próxima chacina, confronto entre facções ou a próxima operação policial.

Mas e a imprensa, qual o papel dela nisso tudo? Observa-se uma proximidade no mínimo questionável entre a imprensa e as forças de segurança, uma vez que muitas matérias usam apenas a própria polícia como fonte e não contém críticas profundas sobre como se dá a atuação desta mesma polícia. A violência veiculada para quem a consome é, quase sempre, a forma como a violência é observada pela polícia. Nas primeiras matérias sobre Jacarezinho, transformaram as vítimas, que até então não tinham qualquer evidência de crimes, em suspeitos, levando uma carga de desconfiança da sociedade acerca de quem mora em situação de vulnerabilidade passa a ser automaticamente “suspeito” – sobre mídia e proximidade com forças policiais, indico o livro “Mídia e Violência” de Anabela Paiva, Silvia Ramos e Jaime Gonçalves Filho.

Quando a imprensa não se aprofunda em investigar as narrativas desses discursos de via única, que é o discurso policial, que fala não raramente que a pessoa morta é suspeita, além colaborar para que tudo vire estatística, ainda há uma marginalização da vítima em nível triplo: da polícia, que repassa essas informações sem uma investigação prévia, da imprensa, que a veicula sem fazer os questionamentos necessários, e da sociedade brasileira, que geralmente se informa por títulos de matérias e que pouco lê.

Janguiê Diniz, Mestre e Doutor em Direito, Fundador e Presidente do Conselho de Administração do grupo Ser Educacional escreveu, em artigo de opinião, postado no site da Universidade da Amazônia (UNAMA), que o brasileiro ainda “lê pouco e mal”. Nesse artigo, ele cita os dados da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil do Instituto Pró-Livro, que diz que 30% dos brasileiros nunca comprou um livro, e para aqueles que que têm acesso aos livros, a média de leitura é de 4,96 livros ao ano; esse resultado cai para 2,43 quando se considera os livros lidos por completo.

Não é difícil entender o porquê a narrativa da imprensa não é questionada pela sociedade. A sociedade brasileira talvez seja incapaz de fazer esse debate, e a escassez de leitura do brasileiro é um importante dado sobre essa incapacidade.

O intuito aqui é fazer pensar em como a imprensa brasileira pode contribuir para que o problema de segurança pública no Brasil seja debatido de forma eficaz. Óbvio, a imprensa não pode fazer isso sozinha, parte da sociedade também deverá se empenhar em fazer as cobranças necessárias para que a realidade mude, mas não é demais lembrar que a sociedade é informada pela mesma mídia que insiro neste artigo. É um ciclo, e alguma parte desse ciclo terá que, em algum momento, alterar seu modo de agir. Que se inicie na imprensa.

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