Cartum na capa de autoria de Nate Beeler

Se, para a história, o acontecimento corresponde à emergência das repercussões percebidas no cotidiano, no jornalismo, essa noção significa a construção do Acontecimento enquanto notícia que “constrói” a realidade.

É na linguagem que se traduz o acontecimento em notícia. É nela que está a materialidade do jornalismo, colocando-se como uma mediação entre os acontecimentos públicos e a sociedade. Os elementos que compõem essa ponte (seu formato, seleção, redação, opinião) revelam sobre os próprios processos compositores da realidade social.

Partindo desse ponto, alguns problemas surgem e merecem atenção. Como, por exemplo, pensar os limites e potencialidades desse lugar de mediação do jornalismo, quais reações seus processos tendem a disparar e seus desdobramentos sobre as pessoas.

Parte dos sentidos construídos sobre o mundo têm como núcleo o jornalismo: não é pouca coisa. Conforme o professor e pesquisador Ronaldo Henn afirmou:

“Existem camadas no acontecimento que não são plenamente traduzidas, como se fugissem da linguagem, escapassem, tal como o coelho na narrativa de Alice. Entretanto, a experiência do acontecimento se dá fundamentalmente na linguagem. É através dela que ele materializa-se publicamente e os sentidos são produzidos. E é nesse jogo que, no meu entendimento, as narrativas sobre os acontecimentos ganham especial sabor e deveriam ser pensadas em potências mais complexas. É desse lugar que vejo saídas para o jornalismo, no efetivo exercício da diversidade das vozes sociais e da incorporação efetiva do outro. É dessa maneira que aquilo que escapa à linguagem no acontecimento pode ganhar textura, vivacidade: densidades narrativas, num jogo entre tensões e fruições estéticas.”

Fazer com que as possibilidades de sentido se ampliem é uma necessidade contemporânea proposta ao jornalismo no momento em que formas de mediação se consolidam sobre o “Aconteci- mento”.

A comunicação deve buscar modos de abordar e narrar que, em algum nível, consigam restituir algo da singularidade que se perde nas convenções da linguagem jornalística e nos enquadramentos hegemônicos. Desenquadrando e criando novas linguagens que escapem do certo ou errado, pensando a formação estética da profissão para ir além do ensino das técnicas vigentes do ofício. Buscando a forma como o jornalismo poderá desempenhar o seu papel social: dar voz às mais diversas realidades.

(Abaixo às) Dicotomias

Preeminência da classificação binária no discurso das ciências humanas; taxonomia, grupo de organismos; se a dos grupos dessas ciências fosse bem conhecida, certamente nos informaria a respeito daquilo que chamamos de imaginário intelectual de nossa época;

Sentir, racionalizar; criativo, ridículo; visão, insanidade; um só pode ser entendido em relação ao outro;

Realidade inclassificável cuja unidade não se pode isolar já que participa, com dinamismo, do conjunto das forças que movem e animam o ser. E sinergia: ação ou esforço simultâneo de cooperação/coesão, do físico, do fisiológico e do psíquico, do individual e do social;

Criatividade + visão= Visatividade, visa à atividade, vida à atividade: crescimento de pensamentos que, para entender, criam; imaginação como instrumento para ir à luta; desejo de ir atrás do que se quer;

Ridículo + insano= Ridiculano: relâmpago que ilumina o céu e logo apaga; novas perspectivas e possibilidades;

Ligatividade: mistura de palavras complementares de diferentes dicotomias; nem tríade, nem únicas; at infinitum, misture como quiser; como quis, aqui fiz;

Encantamento + sedução = Sedutamento: “se” do verbo ser, “duta”, embaixador na língua Indonésia, e “mento”, do Latim -MENTUM, sufixo muitas vezes usado para representar resultado ou produto de uma ação;

Porém, já que notícias são palavras que pedem responsabilidade, posso apenas afirmar: fui vítima de um ataque sem precedentes dos sentidos, de um falacioso caleidoscópio de desejos ainda não nomeado. Desenhei apenas os braços;