Tinha uma pedra no meio dos poetas: convergências entre Drummond e Bob Dylan

O que Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), o gauche de sete faces, tem em comum com Bob Dylan (1941), o trovador atravessado por multidões? Ambos são poetas, evidentemente. O primeiro eternizado pela palavra escrita; o segundo, pelas canções, em que se entrelaçam verbo, oralidade e musicalidade. Escondem-se, abaixo da superfície, outros diversos pontos de convergência entre eles, propõe Fernando Baiao Viotti, doutor brasileiro em Teoria da Literatura e em Literatura Comparada pela UFMG, em sua tese de doutorado Um mundo feito de ferro: a lírica de Drummond e Bob Dylan (2018).

Partindo do berço, tanto um quanto o outro nasceram e cresceram em pequenas cidades mineradoras. Drummond nasceu em Itabira, no interior de Minas Gerais; Robert Zimmerman, em Duluth e, pouco depois, mudou-se para Hibbing – ambas pertencentes ao estado de Minessota. Em suas poéticas, os signos relacionados ao processo da mineração são recorrentes: os trens, trilhos e metais forjam muitos dos seus versos. Em 1934, com 32 anos, Drummond passa a viver na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Em 1961, com 20 anos, Dylan passa a viver na cidade de Nova York, então capital dos negócios mundiais. Dois homens sensíveis e provincianos engolidos por metrópoles gigantescas, estrangeiros do concreto, dos carros e das multidões. Com experiências biográficas próximas, encontramos uma porção comum dentro dos seus extensos repertórios simbólicos.

Um dos poemas mais importantes de Drummond (e um dos mais conhecidos pelos brasileiros) tem a pedra estática como sua metáfora central (No meio do caminho). Uma das músicas mais importantes de Dylan (e uma das mais conhecidas mundialmente) tem a pedra rolando como sua metáfora central (Like A Rolling Stone). Simbolizando ideias diferentes, a pedra aparece justamente nas duas produções incontornáveis para compreender a poesia brasileira e o rock internacional no século XX.

Críticos absolutos de tudo e de todos, inclusive deles próprios, Drummond e Dylan produziram marcantes obras engajadas social e politicamente. Em relação ao primeiro, destaco o livro A Rosa do Povo, com seus poemas A Flor e a náusea e Morte do leiteiro. Em relação ao segundo, destaco o álbum The Freewheelin’ Bob Dylan, com suas canções Blowin’ in the Wind e Masters of War. Faço um recorte bastante pequeno, porque eles possuem um vastíssimo número de peças artísticas. Em adição, ambos reinventaram-se com frequência durante suas vidas de escritores, um comportamento central em suas produções: são impossíveis de serem rotulados por serem muitos dentro de um. Vociferaram contra as injustiças do mundo e verteram os seus pensamentos e sentimentos mais íntimos em incontáveis estrofes eternas. Como o poeta versificado por Fernando Pessoa, foram fingidores: fingiram que era dor a dor que deveras sentiam. E doeu dor dolorida em seus leitores e ouvintes.

Poetas interioranos cidadãos do mundo e desbravadores dos mistérios da alma humana, viveram e deram vida ao século XX. Andaram de mãos dadas com o presente, dormiram com a vida e com a morte na mesma cama e mineraram fundo no fértil e infindável terreno das palavras. Somos sortudos por partilhar da sublime poesia minerada por eles. Passageiros, como todos. Eternos, como poucos. Obrigado, Carlos Drummond de Andrade e Robbert Zimmerman.



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