Não preciso dizer com todas as letras quem é, Você sabe sobre quem eu estou falando. Alguns que participaram indiretamente do ocorrido talvez também saibam, mas isso agora pouco me importa.

Chegou um momento em que eu não tenho mais medo de Você e nem das consequências que a minha fala pode ter. Preciso falar para Você e para vários “vocês” que infelizmente sei que existem por aí.

Por muito tempo não me permiti falar, ser ouvida e entender tudo o que acontecera. Era mais fácil “ex maluca” do que uma mulher definida pela sua violência. Isso me consumia, me envergonhava e me fazia morrer de medo. Toda a manipulação que eu e pessoas a minha volta passamos pelas histórias muito bem criadas e pelo seu discurso de coitado um dia iria cair. Por mais que o medo me tonteasse, disso eu tinha certeza!

Não te considero um monstro. Monstro é alguém que faz maldade cego pelo seu poder. Sabemos que Você não tem nada de cego! Você teve, e ainda tem consciência de tudo o que fez e faz. Conhece cada uma das suas violências e violentadas, lembra de cada mínimo detalhe, não esquece nenhuma palavra de manipulação que já usou contra nós. Você não é um monstro, Você é pior!

Um dia li em um desses portais de fatos desconhecidos na internet que a cada 7 meses nossa pele se renova, e elimina todas as possíveis células de alguém que teve contato conosco. Não sei se é real, mas só a possibilidade de não ter nunca mais pelo menos uma lembrança de Você no meu corpo conseguiu ser meu eixo por muito tempo. Durmo de luzes acesas, porta fechada, verifico a tranca do meu apartamento mais ou menos três vezes antes de me deitar. E aí, sim, me cubro e tento procurar alguma coisa sua online. Porquê? Porque eu tinha certeza que nunca iria me perdoar se soubesse que depois de mim, poderiam vir outras. Da mesma forma que eu sei, que as que me antecederam sentem culpa pelo que Você me fez.

Você sabe o efeito que ainda tem nas mulheres que viveram o que Você é. E honestamente, acredito que esse é o motivo de Você ainda se esconder nessa persona criada para quem vê de fora. Eu entendo até! Deve ser mais fácil se fingir de vítima, coitado e “apenas um menino”, para não ter que assumir as vidas que Você quase destruiu.

Admito que a coisa mais difícil que já aconteceu na minha vida foi Você. Não o que fez, mas Você e as inúmeras consequências da sua passagem.
Não tomei só uma dose de coragem para conseguir escrever para Você, tomei a garrafa inteira, e ainda uns petiscos de muito amor, apoio e terapia.

Sobrevivi a Você! E pela primeira vez em quase cinco anos, não me falta mais a parte de mim que Você me tirou.


Nunca mais vou me calar. Essa história é minha e Você já não tem mais o efeito que tinha.

Sabiá

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