O Quarto de André | Uma Cadeira

Capítulo 1


O Mundo não existe”, dizia ele sempre ao sair da porta do nosso quarto-dos-quartos e passar o dia inteiro para voltar com comida. Não há mundo, não é como se o mundo tivesse deixado de existir e agora existissem as ruínas dele; então, eu teria alguma vontade de lhe perguntar como era o mundo antes de ele deixar de existir. O mundo não existe; pode ter existido em algum momento, mas, agora, em algum momento do nosso passado, presente ou futuro, ele foi apagado de uma forma que, em tudo, ele não existe, não havendo, assim, a menor necessidade de lhe perguntar algo. Às vezes, quando jantamos no nosso quarto de comer, eu tento ensinar para ele o que significa ter senso de humor e pergunto: “E o mundo? Como era? Como vai?”, ao que ele responde sério, com a sopa de batata que eu lhe fiz pingando às barbas: “Não existe, e suponho que não existirá jamais”. 

Ele sempre age de maneira carrancuda, não irritada, mas sim cansada. Ele é uma pessoa cansada; eu julgo que um pouco de emoção lhe traria ânimo ou o faria sentir algo, expressar algo. Ele não é o mundo, ele existe e eu o vejo. Sendo assim, deve ter, dentro dele, algo que se mova além dos passos cansados diários que dá até a porta e os passos ainda mais cansados que dá quando volta. Tento, então, leva-lo um pouco aos limites e fazer mais perguntas sobre aquilo que acabou de falar, pois sei que tudo o que sai de sua boca é algo definitivo e que não foi feito com o intuito de abrir mais interrogações. Mas o que significa o mundo? Como eu posso entender que ele não existe se eu não entendo o que é, afinal, um mundo? “O mundo é uma palavra vazia de sentido”. Mas não seria inútil, então, dizer que algo que não tem significado não existe? “Não é inútil saber que algo sem significado não existe. Todas as coisas que não possuem significado não existem, mas elas, um dia, possuíram e se, agora, elas não têm mais, isso só significa que não existem e que não é possível saber qualquer significado que tenha se perdido por meio de perguntas inúteis como essa”. 

Passo os dias no meu quarto-quarto, alternando entre ficar de pé acordado com meus pés firmes ao chão, deitado acordado no colchão ou deitado dormindo, não existindo, assim como o mundo. Eu fico raramente sentado, a maior parte do tempo eu ando de uma extremidade até a outra, passando por cada canto desse quarto e dos outros enquanto ele não chega. As únicas cadeiras onde eu poderia sentar estão no quarto de comer, mas eu só as uso na hora da janta. Minhas caminhadas me dão uma posição de inspetor da casa, como se ninguém estivesse nela: eu vejo a tinta, antes branca, roxeando lentamente enquanto crescem, nas dobras do teto, bolores e mofos. Em momentos especiais, ela cansa de si mesma e quebra, abrindo pequenas fissuras que dão para nada, só mais buracos escuros. Quando cada um desses aparece, me sinto menos só; a casa também parece andar e me inspecionar quando durmo. Sei que, por dentro, eu não tenho chão nem paredes e nem um teto que possa formar dobras, mas eu tenho bolor; sinto que tenho bolores e fungos de todas as espécies, tão ricos quanto os da casa e, assim como ela pede que eu os limpe e os extermine, ela também me faz isso. Talvez por pedido dele também, me limpando, não sem antes uma comemoração. Tudo que acontece vale a pena ser comemorado, pois, nada acontece a maior parte do tempo. Então a casa também se enche de alegria quando há um fungo dentro de mim, ou quando eu fico doente e sem conseguir me levantar. Após prestar o seu respeito à dádiva de acontecer, ela me cura e, assim, eu faço o mesmo com ela. 

Tem uma cadeira também no meu quarto-quarto, mas ela é inacabada. Ela sempre esteve aqui, inacabada, então creio que acabou por ficar assim, com a madeira sem lixar e pinicando quando sento. Eu já tentei várias vezes sentar em meu quarto, mas as farpas e o desconforto sempre me fizeram desistir. Ele também não senta nela; assim como eu, seus dois modos de existir são de pé e sentado. Talvez seja cruel dizer que ela está inacabada, pois mesmo as coisas que ainda não foram completas ainda são completas em sua forma. Tenho uma hipótese muito forte dentro de mim que ela só não é uma cadeira na qual eu e ele possamos sentar; talvez seja a cadeira de outro alguém, alguém que ainda vai chegar. 

Ninguém nunca chegou aqui, mas essa cadeira me dá uma desconfiança. Talvez alguém tenha chegado aqui muito antes de mim e ele termos aparecido. A casa talvez guarde uma lembrança; talvez ela, assim como eu, espere alguém chegar ao final do dia. Não sei quantos dias meus cabem no dia de uma casa, provavelmente são muitos mais dias do que os meus dias cabem em meus dias. Talvez realmente, o final do seu dia esteja chegando e, então, alguém chegará, jantará conosco por um dia inteiro e dormirá por vários de nossos dias. Enquanto isso, eu sinto ser um tanto desrespeitoso com esse que chegará se nós sentarmos no lugar dele, por isso eu desisti, já tem vários dias, disso de tentar sentar lá. 

Antes de dormir, eu tento imaginar como seria quem quer que fosse que vai chegar. Será que ela usa sapatos pretos e gosta de sopa de batatas? Ou será que ela não tem barba? E prefere ervilhas? Eu pergunto para a casa todos os dias quem é que vai chegar: como é? E por que vale a pena esperar? Ela só racha e cria mofo, enquanto eu tento prever o seu e o meu destino entre as manchas de várias cores se expandindo, não importa o quanto eu limpe. Às vezes, eu sinto que o mofo conta a história da minha vida inteira enquanto o meu catarro conta para a casa sobre o dia da sua morte. Às vezes, eu não escuto nada e, nesses momentos, sei que, à noite, terei um sonho que irá me contar algo sobre alguém que não existe e talvez sobre o dia de minha morte também, que eu espero com felicidade.



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