Eu acredito que tudo começa quando a gente se acostuma a aceitar. Esse pensamento me ocorreu após assistir a um vídeo sobre o príncipe Hamlet e a uma situação em que houve a perda da sua capacidade de fingir; por fingir, entende-se a máscara que criamos para nos adequarmos à realidade. Ao seu redor, pensavam que ele enlouquecera. Houve algum acontecimento que, nele, causava perplexidade, mas não causou espanto em seu entorno, e então ele se viu atônito na sua solidão subjetiva.  O vídeo fala sobre rupturas da própria imagem e coisas nesse sentido. Como eu já senti isso algumas vezes, fiquei me perguntando se, de tanto sentir, a gente começa a aceitar; e, de tanto aceitar, para-se de sentir?

Todos os dias, o lembrete do Outlook me pergunta como está a minha saúde e como estão minhas emoções. Sobre a saúde, respondo que até então não tive nenhum sintoma da COVID-19. O que me faz agradecer diariamente. Quanto às emoções, numa escala que se altera entre muito feliz e muito triste/angustiado, eu respondo “indiferente”. Ontem, ao responder, fiquei pensando nessa palavra, “indiferente”, o dia todo. Se o Outlook não tivesse me perguntando, eu acho que não pensaria em como ando me sentindo. Talvez porque as demandas da vida exigem tanto ou então porque me lembram aquela frase do Nietzsche que diz que: – Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você. Na hora senti angústia. Parece que realmente adentrei a área dos indiferentes e fiquei tentando entender em que momento as coisas doeram tanto a ponto de se tornarem insuportáveis. Eu, numa tentativa de proteção, silenciei em mim algo que, há pouco tempo, tinha dito que era o meu grande diferencial.

Semanalmente minha terapeuta pergunta como estou no início da nossa sessão. Uma vez por semana eu respondo que estou bem. E, logo em seguida, começo a me questionar por que é que consigo dizer que estou bem. É porque a gente sempre acha que o contrário de estar bem é estar mal e, no entanto, não se considera a apatia como contenção de danos.

Estou me dando conta do que pode ter me trazido até aqui. Por exemplo, quando resolvi acompanhar a política brasileira, fiquei horrorizada. Eu tinha uma ideia completamente distorcida de que aquela gente de ótimos salários eram tão superiores moral e intelectualmente que, quando vi que não era bem assim, um choque me ocorreu. Eu pensava que, ao menos, representavam teatralmente seus papeis de bons cordeiros dos deuses, mas nem isso. Foi aí que senti uma espécie de horror diante do abominável, mas o que eu encontrei ao entorno foram olhares apáticos cheios de submissão. Eu leio o noticiário e sinto raiva, mas não encontro, ao meu redor, alguém tão indignado que ouse me dizer que podemos combater o absurdo, ainda que por encontro de olhares que se reconhecem iguais e se confortam. E é aí que a derrocada acontece. Normaliza-se o que não deveria e a vida vai se tornando um enorme engodo de coisas ruins que precisam ser tratadas com uma certa permissividade. Acho que é daí que vem o “A vida é assim mesmo”. E eu sei que precisamos fazer coisas para a manutenção da própria existência e que isso nos consome até a tampa. Eu sei que a gente se vê muitas vezes sem vontade e sem força para existir e seguir. Eu sei que todas as vezes em que nos abrimos para o amor, ganhamos de brinde a vulnerabilidade que é capaz de destroçar. E eu sei que o caminho de se erguer novamente é doloroso demais depois de uma queda dura e alta; talvez por isso a gente desista das relações e, consequentemente, das pessoas. Vamos desistindo tanto que começamos a desistir do que nos mantém vivos. E o que sobra é um enorme vazio que não sei se será preenchido novamente, nem como. Eu não gostaria de estar apática enquanto as pessoas morrem aos montes por aí e sofrem a perda dos seus. Eu não gostaria de disfarçar minha apatia com tweets de críticas ao governo na condução desse genocídio a que estamos assistindo dia após dia. Eu queria dizer que sinto tanto que seria capaz de morrer por cada pessoa que sofre nesse país, porque sei que valor é sempre subjetivo. Somos invariavelmente humanos. Mas, por hora, não sei onde está essa sensação e nem se ela volta. Olhando para fora, o que encontro, são pessoas tão apáticas quanto eu vivendo no modo automático, achando que controlam alguma coisa quando, na verdade, rastejam por escombros enquanto gritam Fora Bolsonaro.

Sabiá

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