Murakami e a viagem pela melancolia.

Não penso duas vezes antes de admitir que sou, e sempre fui, um ser melancólico. Não de um modo colérico, mas uma melancólica quieta, absorta, levemente pessimista e chorosa. Sendo quem sou, dificilmente não me apaixonaria por Murakami.

É fácil descreve-lo, apesar de ser um autor que foge do convencional, sua narrativa é característica e marcante. Há de o reconhecer em todos os parágrafos de suas obras. Mulheres misteriosas, gatos, jazz, sexo esquisito, nomes nada usuais, estações de trem e realismo fantástico são característicos em seus romances, que apesar de beirarem ao repetitivo, são surpreendentemente únicos, dentro de seus respectivos universos.

Admito que, dois anos atrás, quando tive meu primeiro contato com o autor, demorei certo tempo para desvendar que tipo de sentimento nutria por seu trabalho. Seu livro 1Q84 é, como sua maioria, um romance de realismo fantástico, uma trilogia que faz o leitor acompanhar Tengo e Aomame, aonde partem de uma plena normalidade à realidades paralelas e seitas com seres mágicos, através de linhas distintas, de uma mesma história, que se entrelaçam no final. Apesar de ter sido obra fundamental para eu poder nutrir tamanho carinho e admiração aos trabalhos do autor, e também seu livro mais conhecido, eu simplesmente detestei o final.

É uma trilogia tão ambiciosa que se perde no meio da inserção de tantos elementos, e o sentimento que tive foi que ele não soube como amarrar tantas pontas soltas, resultando num final medíocre em comparação as expectativas que são criadas no decorrer da narrativa. Foi decepcionante.

Apesar de desiludida, 1Q84 continuava a ressoar em minha mente por dias seguidos. Diálogos, citações e cenas inteiras eram reverberadas continuamente. Não havia como não lembrar de Aomame ao fazer exercícios físicos, ou de Tengo ao entrar no metrô durante o pôr-do-sol, ou de ambos ao observar a Lua no céu noturno. Já era. Havia sido conquistada! Percebi que, havia sido encantador o desenrolar de seu romance, o final pouco importava quando estava tão inserida em todo o resto.

Li mais um, e mais um, e mais um e mais vários. Sul da fronteira, oeste do sol, se tornou meu favorito justamente por sua simplicidade. Lido em uma única madrugada, fui sugada ao universo de Murakami logo nas primeiras páginas.

Ele é carregado por de sensações de incompletude, fragilidade, incertezas e sensualidade. De fácil ambientação e sinopse simples, é um livro que atinge no âmago. Acompanhamos Hajime na inseguridade da sua satisfação com sua própria vida, é um mergulho nostálgico ao desenvolvimento da pessoa em que se tornou, analisando erros, escolhas e obsessões. Ele fala com todos ao falar com si mesmo.

Murakami me desperta sensações mistas, gosto especialmente da delicadeza das inserções fantásticas nas narrativas, quando ao acrescentar uma segunda lua ao céu de Tokio, de modo tão natural e realista, lhe faça duvidar se nosso satélite sempre foi um ser solitário. E como seus personagens são de uma maturação lenta, mas gigantesca, sendo na última página irreconhecíveis ao comparados a sua primeira aparição. Mas, principalmente, como suas histórias são cotidianas e pacatas, como se os elementos fantásticos só fossem inseridos para afastar a monotonia da vida daqueles personagens tão identificáveis.

Ele é um autor de jornadas de autoconhecimento, de desdobramento de almas e do cotidiano. De apreciação silenciosa da existência do ser, do simples, do fantástico, da tristeza, da calma, da beleza e, acima de tudo, da dor.

Ele, sem dizer, nos diz o quanto a felicidade é superestimada. E demonstra como a tristeza se difere da melancolia, já que a tristeza é petrificante e a melancolia é contemplativa. É a passagem de ida ao nosso interior, a quietude e a nossa verdadeira essência. É o bairro vazio as 4 da manhã e os últimos raios solares no crepúsculo. A melancolia são as costas largas e nuas da amada, é um dia chuvoso e uma grande janela, é o primeiro gole de café quente, mas também pode ser o último gole da cerveja gelada. É o silêncio barulhento, o solinho do violão, é a voz de Caetano, o sambinha do rádio, o fim do carnaval, os pés descalços, o gato miando, um banho quente.

É ele, é você, sou eu.



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