João aposta vinte reais;
sua mão desliza
pro azar.
João deve cinquenta reais.
Seu fígado espreme
sua boca rasgada
de arrependimento.
Cachaça, por favor, cachaça.
Cinco moedas de um real,
como cinco cabeças decepadas,
rolam no balcão sujo do bar.

João chega cheirando a álcool barato.
Seus cinco filhos distorcidos
abraçam sua mulher grávida,
que cambaleia, tonteia.
A mesa quebrada gira
rápido; a luz amarela
fraca de fome elétrica
pisca de cinco em cinco segundos.
Pratos, copos e esperanças: vazios.
Chove forte. Cada pingo que pinga
no chão velho de madeira velha
rasga os pés pelados do bêbado.
Tá abafado. Mosquitos mordem.
Deus, por quê? Grita João ajoelhado.
A luz apaga. O menino mais novo
chora alto. Escorre sal dos olhos dele.
Cheiro de banquete de deputado
banqueteado do outro lado da cidade
chega ferindo os narizes sedentos.

João abre a porta do barraco; um grupo
de olhos insaciáveis debate sobre sua
conduta: alguns dizem que ele escolheu,
outros que era inevitável.
Todo vício começa com um sim,
diz um olho que bate na mulher
dia sim, dia não (nunca no aniversário dela,
nunca nos dias santos).
O coração de João dispara
em profusões de previsões
catastróficas.

Trovões rasgam o tecido do escuro celeste.
Raios desordenados descem velozes.
Um buraco infinito se abre sob os pés de João.
O abismo engole João, sua família, o grupo
de olhos e o Universo.

Nada se dispõe a assumir o papel metafísico
da Causa Primeira.

Desde então houve Vazio eterno.

Sabiá

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