¿Una elección muy difícil? Castillo x Fujimori e a concentração midiática no Peru


A concentração é um fenômeno do capitalismo, especialmente nos países de caráter periférico e dependente. Concentração de renda, terra e, também, midiática. No Brasil, 5 grandes famílias abocanham 26 dos 50 maiores veículos de comunicação de massa: as dinastias Marinho — a mais poderosa do país —, dona do Grupo Globo; Saad, detentora da Band; Macedo, controladora […]


A concentração é um fenômeno do capitalismo, especialmente nos países de caráter periférico e dependente. Concentração de renda, terra e, também, midiática. No Brasil, 5 grandes famílias abocanham 26 dos 50 maiores veículos de comunicação de massa: as dinastias Marinho — a mais poderosa do país —, dona do Grupo Globo; Saad, detentora da Band; Macedo, controladora da Record; Sirotsky, RBS; e a família Frias, mandatária do grupo Folha. Na TV aberta, ainda a principal forma com que os brasileiros se mantém atualizados, 4 sobrenomes (os já citados Marinho, Saad e Macedo, mais o Abravanél) são responsáveis por 70% da audiência.

Os dados podem ser consultados na pesquisa Monitoramento da Propriedade da Mídia (MOM, em inglês), realizada pelo coletivo brasileiro Intervozes com a ONG internacional Repórteres Sem Fronteiras (RSF). A concentração da imprensa em mãos privadas, inevitavelmente, resulta em coberturas costumeiramente favoráveis aos interesses dos financiadores e proprietários destes meios de comunicação, grandes capitalistas com investimentos em diferentes áreas da economia.

A título de exemplo, de 1º de janeiro a 30 de junho de 2019, durante a campanha pela aprovação da Reforma da Previdência, o Intervozes analisou as edições impressas dos jornais Folha, Estadão e O Globo. Verificou-se que 64% dos “experts” entrevistados posicionaram-se favoravelmente à reforma que cortou direitos da classe trabalhadora brasileira; 8,5% foram parcialmente contrários (mesmo índice de posicionamentos não identificados) e apenas 19% declararam-se expressamente contra a proposta.

O Grupo Globo é o conglomerado midiático mais poderoso da América Latina. No Brasil, a hegemonia é inquestionável. Todos os dias, ao menos 100 milhões de brasileiros, quase 50% da população, têm acesso aos “veículos globais”, espalhados por diferentes meios de comunicação. Somando-se a audiência dos outros 4 principais grupos midiáticos, o instrumento de construção ideológica da família Marinho ainda não é superado. Um verdadeiro império.

Os problemas gerados pelo capitalismo são compartilhados em nosso continente. No Peru, a Constituição diz que “nem o Estado, nem os indivíduos podem ter o monopólio ou monopolizar a propriedade dos meios de comunicação”. A realidade, entretanto, é bem diferente da sugerida pela Carta Magna do país andino: O grupo privado El Comercio, intimamente ligado ao Fujimorismo, detém nada mais, nada menos do que 80% da imprensa escrita.

Tal como no Brasil de 2018, na disputa presidencial entre um candidato com inclinações fascistas e um professor— mais radical do que o petista Haddad, vale pontuar —, a imprensa hegemônica do Peru naturalizou, quando não apoiou abertamente, a candidata que representa os interesses do mercado financeiro. A cobertura jornalística no embate entre Pedro Castillo (Perú Libre), de um partido autodenominado marxista-leninista-mariateguista, e Keiko Fujimori (Fuerza Popular), de extrema-direita e herdeira política do ex-ditador Alberto Fujimori, foi cercada de polêmicas. 

No segundo turno, jornalistas do canal América TV, mais um tentáculo do El Comercio, foram censurados e demitidos por não se submeterem à linha editorial favorável à eleição da fascista. Em pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos Peruanos (IEP), 79% dos jovens declararam que a mídia privada favoreceu a candidata de extrema-direita. O Tribunal de Ética do Conselho da Imprensa Peruana também mostrou-se preocupado com a cobertura desigual dos principais veículos de imprensa.

À nossa revista, Raul Nunes, mestre e doutorando em Sociologia pelo IESP-UERJ e membro do Observatório de Movimentos Sociais da América Latina, e Nacho Lemus, jornalista da Telesur e ex-correspondente em Lima, capital do Peru, falaram da concentração midiática no país vizinho e os possíveis desafios de Pedro Castillo, caso o socialista não seja impedido de assumir o posto máximo do país.

Pergunta: A concentração midiática no Peru talvez seja única na América do Sul. O maior grupo de imprensa do país, o El Comercio, detém 80% do mercado, controlando jornais impressos, revistas, canais de TV e portais de internet. Como tanto acúmulo de poder se manifesta no debate público, especialmente em períodos eleitorais? 

Nacho Lemus: O grau de concentração midiática no Peru na mão de um jornal corporativo, como ocorre com o El Comercio, constitui uma máquina de influência sob a população para virar votos em favor dos setores que compõem os interesses do diário. Por exemplo, se as principais pautas publicitárias do jornal correspondem a empresas de mineração, numa eleição na qual o candidato promete estatizar as mineradoras, a mídia vai funcionar como aparato para impedir a eleição desse candidato. O mesmo acontece diante de promessas de políticas econômicas distributivas, quando os jornais são controlados por elites. El Comercio tem uma linha editorial liberal em relação às políticas econômicas, deixando na mão do mercado a regulação da concentração financeira. O Peru teve uma década de crescimento econômico pré-pandemia, mas persiste a desigualdade social.

Raul Nunes: O principal ponto de consenso dentro desse oligopólio midiático é a defesa do modelo econômico. É por isso que esses meios são bastante refratários a propostas como a de uma nova Constituição, porque mexeria em alguns fundamentos dos quais eles não querem abrir mão. Além disso, é muito forte no Peru o terruqueo, a associação automática de qualquer pessoa ou ideia progressista ao terrorismo, representado principalmente pelo Sendero Luminoso. Nessa campanha o anticomunismo foi bastante forte, aliando o terruqueo costumeiro ao bicho-papão do chavismo. A campanha de medo foi tão grande que apoiadores do Pedro Castillo fizeram uma esquete ironizando o fantasma do comunismo.

Pergunta: A concentração midiática também é uma realidade no Brasil. Devido a isso, há décadas existe o debate acerca da chamada “democratização dos meios de comunicação”, muitas vezes, erroneamente, taxada de “censura”. Um dos principais obstáculos do governo Castillo será o enfrentamento aos magnatas de mídia? Existe uma proposta do Perú Libre para diminuir a concentração de imprensa?

Raul Nunes: O grande problema da campanha de Castillo é exatamente a falta de um plano de governo. Ele não corrobora tudo o que está no programa do seu partido, Perú Libre, e lançou um plano muito enxuto mais para o fim da campanha. Não sabemos muito bem o que ele fará, na verdade. No começo do segundo turno, ele falava muito sobre acabar com a “imprensa lixo”, aludindo principalmente a programas de entretenimento e celebridades. Até por isso ele passou a ser atacado pelas personalidades desses programas. Ao longo do tempo, creio que percebeu que soava como censura e era um ponto secundário, então deixou o tema de lado.

Nacho Lemus: É praticamente impossível fazer uma campanha eleitoral prometendo a democratização dos meios de comunicação, por causa da consolidação de uma narrativa que considera a “liberdade de imprensa” como um direito empresarial que permite deixar sem voz um setor da população. A eleição de Pedro Castillo, sem força midiática, nem redes sociais como Twitter, mostra que é possível abrir novos canais de comunicação existentes no diálogo, assembleias e estruturas organizativas da sociedade civil que não dependem exclusivamente de tecnologias controladas por interesses adversos. Os sujeitos que protagonizaram a experiência da “Ley de Medios” na Argentina são perseguidos até hoje na justiça desse país, mas o precedente é importante para a região por ser uma estrutura que deu possibilidades de sobrevivência a esses veículos durante uma gestão vinculada ao grupo Clarín. Não podemos falar de disputas (no sentido de igualdade) partidárias se não dermos possibilidade de termos mais vozes no espectro midiático, com maior pluralidade e representação de setores da sociedade com produção própria.

Pergunta: Existe uma relação de proximidade entre a imprensa hegemônica peruana e o Fujimorismo. Na década de 90, canais de televisão estiveram envolvidos em casos de suborno. Recentemente, dez jornalistas da América Televisión, pertencente ao El Comércio, foram demitidos por não aceitarem seguir uma linha editorial favorável a Keiko Fujimori. Com tanta acumulação e tantas heranças do período ditatorial, é possível falar que existe imprensa livre no Peru?

Nacho Lemus: O Fujimorismo permeia a mídia como também outros poderes no Peru, especialmente no aparato institucional. É um reflexo do Uribismo na Colômbia, um sintoma da Argentina onde o Grupo Clarín surge da ditadura militar. No Peru, o canal América Televisión, do El Comercio, chegou a publicar uma estatística imaginária que previa o aumento de pobres em relação à implementação de uma constituinte por Pedro Castillo. Uma defesa explícita da Constituição fujimorista que considera o Peru uma economia de mercado.

Raul Nunes: Essa é uma questão difícil para muitas democracias, sobretudo onde há oligopólio midiático, como no Brasil e Peru. E é difícil porque existe uma zona cinzenta entre linha editorial, interesse comercial, liberdade de expressão e dever de informar. Para além do papel deplorável a que se prestou nessa eleição, o próprio El Comercio é uma fonte de informação muito confiável sobre diversos temas e conta com ótimos jornalistas, ainda que tenha linha editorial marcadamente liberal, o que é do jogo. Isso ocorre também com outros veículos, que tendem à direita, mas prezam pela informação. Do mesmo modo, o La Republica tenta “equilibrar” o jogo, e está mais à esquerda, com foco também na informação. O RPP me pareceu um meio do caminho em termos de posicionamento, sobretudo o programa Nada está dicho, do Jaime Chincha, que fez questão de sempre levar ao menos duas posições para o debate.

Pergunta: Segundo pesquisa do Instituto de Estudios Peruanos (IEP), 79% dos jovens peruanos com idade entre 18 e 24 anos acreditaram que os principais meios de comunicação favoreceram a candidatura de Keiko Fujimori. Instituições públicas também se mostraram preocupadas com a atuação dos conglomerados midiáticos. Nessa disputa presidencial, a imprensa privada atuou como partido político?

Raul Nunes: Com certeza. A justiça eleitoral e órgãos observadores alertaram os veículos de imprensa. Muitos jornalistas fora dos conglomerados apontaram que esses veículos estavam promovendo seu próprio descrédito. O Tribunal de Ética do Conselho da Imprensa Peruana reconheceu que houve distorção de fatos, opinião disfarçada de análise imparcial e cobertura desigual das candidaturas. Existem exemplos mais ou menos sutis de cada aspecto. Num mesmo dia, por exemplo, a capa do El Comercio dizia que Castillo iria confiscar a poupança dos fundos de pensão, enquanto o La Republica ressaltava a proposta de reformar os fundos sem mexer na poupança, o que era de fato mais próximo do que o candidato disse. Também ficou bastante nítida a formação de painéis de debate pró-Keiko, às vezes compostos exclusivamente por membros ou apoiadores da candidata. E, por fim, a cobertura desigual. No término da campanha, alguns canais transmitiram ao vivo o comício de Fujimori e deixaram pouco (ou nenhum) tempo para o de Castillo. Fora do jornalismo, as personalidades do entretenimento também saíram em campanha aberta: levaram apenas Keiko aos programas e, num caso extremo, o apresentador Chibolín apareceu em seu programa com uma camiseta do Fuerza Popular, o partido fujimorista.

Nacho Lemus: A imprensa atuou como partido político nesta eleição no Peru, com concentração editorial inédita (nota: o El Comércio só assumiu 80% do mercado em 2018). Na eleição de 2011, onde foi vencedor Ollanta Humala, também contra Keiko Fujimori, jornais como La República não fecharam apoio a ela. Inclusive setores neoliberais, como o escritor Vargas Llosa, deram apoio a Humala. Em 2021, a disseminação do acesso a internet entre os jovens evidenciou a campanha da mídia tradicional em favor de Keiko. Veículos alternativos como La Mula e o uso de Twitter foram fundamentais para dar voz ao movimento que cresce por trás de Castillo que quase não teve cobertura midiática fora de Lima, onde se concentram as câmeras.

Pergunta: Existe uma imprensa local, de caráter progressista, que tenha capacidade, técnica e financeira, de competir em algum nível com os grandes conglomerados? Ou as redes sociais se tornaram o espaço da contra-hegemonia?

Nacho Lemus: No Peru (em canais de TV e jornais impressos) não existe contrapeso. Em outros países há experiências que têm conseguido bons resultados, como na Argentina. Por exemplo, o canal privado de TV fechada, C5N, numa conjuntura adversa em um governo neoliberal no poder, como foi a gestão de Mauricio Macri. No nível regional, a Telesur faz contrapeso diante do vácuo de mídias com perspectiva continental e, em segundo lugar, com perspectiva focada nas reivindicações do campo popular. O desafio no plano local é ter uma outra voz alternativa Às narrativas em favor das elites durante os 4/5 anos de governos neoliberais.

Raul Nunes: A imprensa independente do Peru é riquíssima: vai do jornalismo investigativo do Ojo Público, IDL-Reporteros e Convoca ao jornalismo mais voltado à opinião, como Hildebrandt en sus trece e Útero. O Wayka é bastante alinhado aos movimentos sociais e estes têm seus próprios canais, como a Red Muqui. Boa parte dessas iniciativas está na internet, como também os canais do YouTube La Encerrona e Sálvese quien pueda, ambos surgidos na pandemia, focados em informação e feitos por jornalistas profissionais. Além disso, as rádios locais mantêm sua relevância e, por isso, mesmo Castillo investiu boa parte das verbas e do tempo nesses veículos.


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