A crise global e as contradições nos campos sociais


O mundo passa por uma crise política generalizada e não podemos reduzi-la meros efeitos da pandemia. Os problemas são mais profundos: surgem nos campos sociais, que podem ser compreendidos a partir do pensamento de Pierre Bordieu.


A revolução burguesa, diferente do que se pode levar a crer quando o termo ‘revolução’ é interpretado ao pé da letra, tratou-se de um processo reformista, onde pontuais ‘mini revoluções’ expandiram-se ao longo de séculos e constituíram a nova sociedade que dá base ao modelo apresentado ao mundo hoje, com diferenças pontuais em cada um dos locais onde é aplicado. Neste processo, engana-se quem acredita que as mudanças e revoluções apresentaram-se unicamente na esfera econômica, apenas um dos espaços onde a burguesia exerce sua dominação – e também engana-se quem vê essa dominação apenas como uma questão econômica -, impondo ao novo modelo características do passado aristocrático, como comportamentos nobiliárquicos e em especial a herança como ferramenta de perpetuação de poder familiar.

A perpetuação de uma linhagem familiar dentro de uma padronização de costumes e um florescimento de relações sociais intraclassistas, onde a difusão de conhecimentos específicos se torna uma ferramenta de diferenciação social tão importante quanto os fatores econômicos, pode ser chamada de capital cultural. É necessário salientar que para a produção e expansão de capital econômico é imprescindível a existência de um capital cultural na forma de conhecimentos técnicos e práticos aplicáveis ao mundo dos negócios ou ao próprio Estado, questão que é reproduzida em todas as sociedades, sejam elas centrais ou periféricas.

A principal questão a ser observada neste processo é que a reprodução do capital cultural só é possível quando se possui previamente relações privilegiadas, ou seja, ele não nasce espontaneamente, precisa ser desenvolvido e cultivado, e o espaço da educação básica exerce essa função. No processo de expansão do capitalismo e das revoluções tecnológicas, o acesso a determinados conhecimentos – como, por exemplo, a alfabetização – foi democratizado pela necessidade de sua aplicação na reprodução do modelo capitalista. É um mito considerar que a revolução capitalista possibilitou um aburguesamento através do mérito: a real construção revolucionária foi a da expansão do conhecimento, e as riquezas continuaram a antiga forma de perpetuação pelo modelo sanguíneo. As exceções à regra são utilizadas como propaganda, para que assim este processo não seja questionado, de tal forma que a diferença entre o modelo burguês e o modelo aristocrático se dá no campo do trabalho.

Com essa reprodução dos conhecimentos básicos difundindo-se como forma de suprir as necessidades inerentes do sistema, a nobiliárquica esfera burguesa, já plenamente adaptada ao modo de vida aristocrático, fez do consumo dos produtos sofisticados uma ferramenta de reconhecimento de classe e status social, assim como a adoção de uma postura de superioridade natural, que diferente da aristocrática, se dá pelo mérito – segundo a própria burguesia. Apesar da lei colocá-la formalmente em um patamar semelhante a todos os outros indivíduos da sociedade, essas ferramentas e mecanismos invisíveis justificam um tratamento desigual, seja no ordenamento jurídico ou social.

Esse status social diferenciado é capaz de reproduzir-se em diferentes níveis, fazendo com que mesmo em classes gerenciais, como a classe média, tenham tratamentos também superiores a massa dos trabalhadores, que também são postados acima do chamado ‘lumpemproletariado’ que é animalizado de uma maneira que faz com que pouco seja feito por sua melhor condição de vida. Os sentimentos gerados pela sua existência são também recebidos numa ótica de superioridade, seja ela representada pela raiva, pelo desprezo ou mesmo a pena.

No século vinte e um, em decorrência das decisões tomadas a partir da década de setenta, que expandiu as fronteiras do sistema capitalista rumo ao modelo que se chama de neoliberal, as classes abaixo dos trabalhadores – que formam a base da pirâmide – vem crescendo. Em países periféricos esse grupo pode constituir a maioria da sociedade, enquanto no capitalismo central são representadas por pequenos, mas crescentes grupos, que hoje vivem na dependência de apoios governamentais que complementam sua renda ou pela oferta direta de serviços públicos gratuitos.

Essas mudanças, por acontecerem de forma gradual e pela ideologia dominante, fazem com que essa classe não seja percebida como um resultado diretamente ligadas a uma mudança sistêmica, mas como consequência de uma falta de esforço ou capacidade intelectual de tais indivíduos, que são cada vez mais entregues à marginalidade, ao crime e, no caso das mulheres, a prostituição. Quanto mais marginalizada é uma população, maior é a tendência de crescimento dessa marginalidade.

As contradições e as legitimações sociais

Nenhuma sociedade é naturalmente revolucionária, o habitus – concepção do sociólogo Pierre Bourdieu – delas é em si conservador, pois está diretamente ligado aos costumes e reproduções sociais que a constituem, formando a partir deles uma coesão social mínima, que garante certa estabilidade e reprodução de suas questões no modelo vigente, protegendo-a exatamente das revoluções e contraculturas. O meio mais eficiente de garantir essa coesão é fazer com que diferenças construídas tornem-se ‘diferenças naturais’, representando essas instituições nos corpos, que podem ser considerados o reservatórios de valores sociais, o papel da mulher na sociedade moderna é um elemento bastante esclarecedor, assim como o dos movimentos feministas na luta por direitos.

As sociedades, sejam elas quais forem, constroem – propositalmente ou não – mecanismos que mascaram suas dominações sociais, fazendo com que o status quo permaneça como uma realidade indiscutível e que a mudança seja vista como utópica e impossível, isso está presente nos espaços de classe, sexo/gênero, raça e essa determinação pode ser chamada de capital simbólico. A partir desse capital simbólico, as posições desiguais parecem justas e as relações aparentemente simétricas permitem a reprodução de trocas assimétricas, legitimando-as numa espécie de mais-valia simbólica. Para que uma dominação seja legitimada, é necessário que uma situação de fato se transforme numa situação de direito, vejamos no exemplo: Um jovem de uma família nobre paulistana realiza seus estudos no melhor colégio particular da cidade (de fato), aos 18 anos vai realizar seus estudos no Massachusetts Institute of Technology (de fato), faz seu estágio no Bank of Boston (de fato) e retorna ao Brasil. Ao retornar, decide participar de um processo seletivo para um cargo de trainee em um importante banco de investimentos que paga altos salários, ele passa pelas provas na primeira colocação, com isso, alcança a função na forma de direito.

Essa função é legitimada pelo processo seletivo e aceita tanto pelos dominantes como pelos dominados do campo social, o jovem pobre e estudante de escola pública aceita o resultado do processo como legítimo e de direito, mas o que realmente determina seu resultado são as condições de fato, escondidas para que a legitimidade seja mantida. A complicada realidade produzida a partir dessas relações dialéticas fazem parte de um processo de legitimação do campo social pelos dominados, que reconhecem em si o problema de sua dominação, e não ao sistema, consolidando a essa perpetuação: as ideias não se contrapõem radicalmente às estruturas materiais pelo fato dessas estruturas materiais serem perpassadas de ideias e valores que lhe dão legitimidade.

A relação dialética se perpetua ao ver-se que, assim como os valores das pessoas produzem as instituição, os valores institucionais moldam as pessoas do campo ao qual estão inseridas, fazendo com que qualidades como uma suposta racionalidade, controle emocional, virtuosidade e moral sejam valores agradáveis. Em contraste, o lugar afetivo e emocional – que são, por exemplo, ligados a mulher – é utilizado como ferramenta de dominação, o que se repete no negro, em especial a mulher negra, relacionado-a a uma questão corporal e sexual e, a partir disso, legitimando seu espaço de opressão na sociedade através de situações não factórias, mas supostamente de direito, ou na linguagem popular, pela questão do mérito.

Essa valorização de uma suposta virtude racional em detrimento dos ‘desejos’ é reconhecida ao menos desde Platão, que trata do assunto na obra ‘O Banquete’. A constituição dessas correlações e a efetivação de uma visão da superioridade deles nasce com alguns pensadores, que com o tempo infectam o imaginário social mesmo que essas pessoas nunca tenham tido contato direto com a produção destes ‘intelectuais’.

Em decorrência de um desenvolvimento econômico que começa nos processos coloniais e se consolida com a revolução industrial, as sociedades europeias distribuem atingem graus de riqueza mais elevados e conquistam uma condição social de largo conforto a imensa maioria de sua população, desenvolvendo um habitus consensual no sistema capitalista central, aliado a um modelo de welfare state; estado de bem-estar social e consumo, que gera uma sociedade de extremo êxito entre o final da Segunda Guerra Mundial e os anos setenta, produzindo o melhor que a humanidade já viu nas mais diversas áreas das artes, cultura e na própria academia.

A partir da década de setenta, a expansão de um modelo neoliberal começa a desequilibrar as forças que se constituíram em um modelo institucional, liberal, democrático e pacífico, e mesmo nos países mais ricos do mundo, expande-se uma nova classe antes pouco expressiva nesses espaços, o citado lumpemproletariado, que vive de seguros sociais e programas desenvolvidos pelo estado, incapazes de integrar-se a um mercado de trabalho que exige uma especialização cada vez mais vasta, enquanto os modelos educacionais se priorizam e não são capazes de oferecer tais formações para a totalidade da população, pessoas essas que são substituídas por máquinas, que por sua formação metálica não consome e não movimenta a economia que pretendia salvar. O resultado? Ao que tudo indica, o colapso.

O crescimento da pobreza nos ditos países de primeiro mundo é um prelúdio da grave falha de um sistema econômico que, com suas contradições, evolui de maneira mais rápida que sua população, e exige novas habilidades que requerem tempo de aprendizado, moldando também a cadência da vida e das ações, resultando novas exigências nos mais diferentes campos, valorizando um ideal de produtividade e aceleramento, levando as condições psíquicas e físicas a um tensionamento máximo, não sendo capaz de proporcionar sua existência a longo prazo.

As soluções precisam ser colocadas na mesa e pelo que a política internacional demonstra, há muito pouco sendo construído com esse objetivo, inclusive com regressos claras nas democracias centrais, onde há um crescimento expressivo de partidos de extrema-direita que não congregam de valores democráticos ou de respeito as liberdades individuais, ao que tudo indica, fruto da insatisfação de populações de classes médias e baixas com a falta de perspectiva, estimulada por uma baixa burguesia ligada às esferas do comércio e consumo, que têm muito a ganhar com as novas formas de socialização e desejo. Essa mudança comportamental não é surpresa para quem acompanha as manifestações em redes sociais, um novo campo de relações que Bourdieu não teve a oportunidade de conhecer em sua forma desenvolvida.

Os fóruns e redes sociais constituíram um novo campo social onde pequenos grupos de indivíduos socialmente excluídos puderam convergir em ideias pouco alinhadas as relações entre os campos da sociedade real, e através de discursos e propaganda de estímulo a uma insatisfação legítima quanto as instituições sociais, uma suposta subversão ganha espaço entre os grupos dominados e se expressa também em grupos dominantes – no maior estilo ‘Véio da Havan’ -, ganhando força e escalando nas esferas de poder político de uma sociedade. O que se constituirá a partir dessa crise é ainda uma incógnita, as esferas centrais de poder não têm as respostas e as questões ambientais aceleram a necessidade de ação, as esquerdas tampouco parecem ter compreendido o cenário para desenvolver novas propostas.

O momento é de mudança e a crise se dá quando o modelo vigente não serve mais, porém o novo ainda não é capaz de nascer. O futuro dependerá de quem fará a gestação do novo, a cadeira está vazia.

Obrigado a todas e a todos pela leitura, pretendo em minhas próximas colunas aprofundar-me em reflexões sociais dentro de um viés sociológico baseado em Pierre Boudieu, autor cujo venho me aprofundando nos últimos tempos. Sigo aberto a sugestões e discussões a respeito das abordagens. Vocês podem me encontrar no Twitter e Instagram, pela @thsouzareis.

Tem uma pauta?
Estamos aqui

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser totalmente anônimo, tá?


  • Todo fascista é corno

    ,

    Não é difícil entender que a vontade de escrever é nula, assim como a vontade de acordar, sair da cama e realizar que esse bando de corno não tem mais medo de cantar aos quatro ventos: “sou fascista na avenida e minha escola é a mais querida dos reaça nacional!”.

  • No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    ,

    Grupos bolsonaristas no Telegram reforçam táticas xenofóbicas e criam fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste.

  • Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciamos as notas, reportagens curtas sobre temas relacionados às eleições de segundo turno.

  • A falta da política externa

    A falta da política externa

    , ,

    Às vésperas da eleição mais importante desde a redemocratização, e ainda sob efeito da ressaca moral que assola o país após o clássico debate presidencial da Rede Globo, a ausência da política externa como pauta de discussão demonstra o enorme apequenamento do Brasil.

  • Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam  apoio militar na Ucrânia

    Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam apoio militar na Ucrânia

    , , ,

    Muitos americanos pensam que Biden deveria se apressar e encontrar um acordo diplomático. Mas para os apoiadores da Ucrânia, seja à esquerda ou à direita, a resposta é que Biden se apresse e vença, dando à Ucrânia mais ajuda militar e aceitando mais riscos.

  • Deus esteve em São Paulo

    Deus esteve em São Paulo

    ,

    Deus nasceu no Rio de Janeiro, cresceu em Minas Gerais e, na noite do último domingo, 26, esteve em São Paulo, das 20h às 22h20. Eu estava lá. Eu vi Deus!

Seja notificado de novas publicações, assine.

Ao se inscrever, o WordPress te atualiza gratuitamente toda vez que publicamos algo novo. Assim, você pode acompanhar nossa redação! Não se esqueça de nós seguir nas redes sociais.

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos criado e equipado por jovens. Buscamos usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança do futuro das novas gerações.