O Quarto de André | Um Mofo


Capítulo 2 Na vértice anterior esquerda veio nascendo um mofo, bem ao canto do encontro entre as três paredes. O mofo nasce como as flores nascem, dando cor ao branco das paredes. Toda cor é uma distorção do branco, mesmo este branco cansado e rachado de uma parede ainda é imaculado a ponto que o […]


Capítulo 2

Na vértice anterior esquerda veio nascendo um mofo, bem ao canto do encontro entre as três paredes. O mofo nasce como as flores nascem, dando cor ao branco das paredes. Toda cor é uma distorção do branco, mesmo este branco cansado e rachado de uma parede ainda é imaculado a ponto que o mofo nasça e traga vida nesse nada. É nisso que entra a casa, que diz e desdiz meu destino nos fios e das cores que surgem no mofo, desenhista da minha vida enquanto eu durmo na noite que eu penso ser noite, a casa desenha a minha vida e eu pendo entre aceitar e não aceitar, sempre extasiada em ter os dias, mesmos os futuros, vistos e expostos para outro alguém. 

Ver o mofo nascer é, então, ver nascer um novo ano, ou mês, ou dia. Até mesmo um piscar de olhos pode ser o futuro impresso no mofo e, subitamente, o caminho traçado faz ficar em pé, ou deitado, sempre um pouco mais fácil. Às vezes me pergunto se a casa mente sobre o meu destino e eu acredito, sendo boba do jeito que sou, ou se eu interpreto mal meu próprio destino, ou se a casa por acaso me conta as memórias de sua vida e eu as vivo, recriando os antigos dias do seu prazer. Não sei se a casa já foi eu, pois ela não sou eu, ela é seus quartos, assim como eu sou meus ossos, meus olhos, mas se fosse ela apenas feita de concreto, madeira e mofo como poderia ela me abraçar, mesmo sem mãos? Me olhar, mesmo sem olhos? Só alguém que um dia já tocou e olhou outro alguém sabe como olhos e mãos são completamente dispensáveis para se tocar, se a casa fosse apenas os quartos ela jamais me tocaria e nem me cuidaria, mas será que ela sabe que eu vivo? Que eu não sou ela? Pergunto essas coisas para a casa antes de deitar e espero que ela me responda pelo mofo enquanto a noite passa, dependo do mofo para me dizer qual seria o próximo dia, se os dias são meus ou dela, e aguardo, cuidando do mofo como ele cuida de mim. 

Frente a todos esses pedidos e perguntas de primeira importância para quem a mantém de pé, a casa hoje não me deu nada, ingrata. O mofo não me disse nada, não havia nada no azul, nem no verde e muito menos no mais que escuro do mofo que surgia. Foram dias e dias de penúria, sem ver nada, pensando se não me faltava paciência ou fé nos próximos dias, e dormi mais tempo para que a noite pudesse ser mais noite e cuidei mais dos dias para que os dias pudessem continuar sendo úteis e nada, absolutamente nada. Vaca. Onde está a casa? Teria saído? Me deixado só? Não, não pode ser, o mofo tem que dizer algo, pelo menos para alguém. Limpo o mofo com raiva, não só do que poderia ter sido a minha vida o que foi a vida da casa, limpo com raiva dele que se atrasa para sentar na cadeira, pois se esse destino não é meu, claro que só poderia ser dele. Toda cadeira é para sentar todo mofo é para alguém, se o destino não é meu, é de quem? Dele, quem mais poderia ser, será que ele não vem porque não gosta de sopa de batatas? Morreu e deixou de avisar? O mofo me deixa nervoso, e quando eu fico nervoso eu não paro de perguntar. 

Sendo assim, quando ele chegou eu lhe fui perguntar. É velhice criança, às vezes a casa é velha, assim como esses quartos, disse ele, quanto mais a gente envelhece menos a gente tem a dizer, pois, menos destino a gente tem. Eu não sei o que é um velho, então avancei e perguntei: O que é envelhecer? É ficar velho, como eu, o senhor é velho? Sim, eu já falei, sem mais, encerrou ele cortando o pão e fixando seus olhos na sopa, simbolizando o fim da nossa finita conversa. Curioso, eu procurei procurar no rosto dele o que quer que fosse envelhecer, ser velho. Eu o via, muito mal, com uma luz muito pouca que surgia por meio de rachaduras, mas nunca o suficiente para ver de fato algo após algumas horas, nós simplesmente nos acostumamos com a eternidade dos lugares onde ficavam as coisas, os móveis, nós mesmos, de súbito me surpreendi em pensar em qual foi a última vez, na qual eu realmente o vi, olhei de fato com atenção no seu rosto. Agora, eu o vejo apenas por pequenas rachaduras de luz que iluminam o fato de que eu vivo sem ver o rosto de ninguém.

Assim como a casa, ele também tem rachaduras. Concluo que envelhecer é rachar, mas nunca em dois, é rachar em si mesmo. Nas pernas, no tronco, mas principalmente nos olhos, sendo negros, mas brilham como uma estrela negra, brilhando o que já é escuro como o escuro que separa a minha silhueta da dele no quarto de dormir. Tento me aproximar para ver mais os seus olhos, triste em saber que não posso me ver nem lá, ele me priva de dizer quem eu sou enquanto o mofo me priva de saber quem eu vou ser, o quarto é quem unicamente não mente, pois é quem unicamente não me sente. As rachaduras descem dos olhos, passam pelos seus lábios, suas falas e definições, até chegar nas mãos.  Quanto mais rachaduras se criam mais as minhas mãos entram em ação, eu abro a porta quando sai e quando volto, faço o almoço e sirvo, tudo para ele poder descansar as mãos e não rache mais e nem se despedace, não por qualquer ternura ou medo de ficar só, mas sim pela sua sombra, quero seu vulto, o brilho que vem de todas as suas rachaduras, pedia ao mofo que me dissesse mais sobre isso, qual pergunta ele realmente me responderia? Isso, mesmo quando ele ainda respondia, o mofo jamais me disse. Me surgia também, enquanto seguia tais rachaduras com meus olhos, uma tristeza que carregava minha culpa, pois se eu olhava seu rosto velho era para saber o que era ser velho não para saber o que era ele, mesmo que ele deixe claro que não quer que eu saiba o que é ele, olhar o rosto procurando algo e não olha jamais é um desrespeito, mesmo com quem jamais olha para o seu rosto, nem mesmo para te procurar. 

Me pergunto como uma casa envelhece, quantos anos meus são para a casa seus próprios anos para ser uma casa velha ou uma casa morta, quantos anos existem nestes quartos? Quantas vidas tem para se ser uma casa? E quantos quartos para se ter uma vida? A casa, quantas rachaduras há em seu rosto? Suas mãos, estariam cansadas para desenhar o meu futuro, a minha vida nas manchas de mofo? Como eu sei que uma casa morre quando eu durmo em suas costelas? Há diferença para o que há dentro de você viver e morrer? Pergunto demais, pois eu não sei, nem ele, nem ela e nem eu me respondem, talvez o meu destino fosse realmente as memórias da casa, os lamentos de dias que não vem mais, a casa me deu forma, com ele, deu vida e ânimo, pois não tem mais nada além dele e dela, um casal que não me vê, não escuta a minha voz, e agora também não diz. Concluo ser melhor esquecer de destinos e pensar apenas no mofo como o nascimento dessa pequena vida que não fala, mas de que me presta esta vida, esse amor, se ela nada me diz? Não me fala onde eu estou, a primeira vez que vi a palavra casa foi no mofo, já não vejo mais palavras. Chorava este meu amor e luto confuso pelo mofo vazio quando escutei, lentamente se crescendo, uma rachadura  se abrir, enorme, cheia de barro.



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