A vida está mais adversa ou estamos apenas envelhecendo? Parece uma pergunta para a qual jamais haverá resposta, principalmente em meio a uma pandemia, que viralizou não apenas pelos corpos de milhares de vítimas do coronavírus, mas também pelos meios de comunicação, pela psique social. Porém, houve a pandemia do H1N1 há pouco mais de uma década. Eu me pergunto: ela teve essas mesmas proporções e eu simplesmente não estava ciente por ter menos idade, por inocência, ignorância? As notícias e dados dizem que não, a pandemia de Covid-19 realmente perpassa números, mortalidade e consequências. Ainda assim, essa conclusão não é satisfatória. De qualquer forma, parece haver um amargo e proporcional cinismo que acompanha o envelhecimento.

Neste contexto, quão responsáveis somos nós por nossa própria felicidade? Há dias que simplesmente parece atroz ceder ao ímpeto de sorrir. Não há apenas uma pandemia, há chacinas ocorrendo no Rio de Janeiro, há nações em guerra ao Leste, há mulheres grávidas tendo suas vidas tiradas pelo Estado. Sorrir? O que é sorrir? O que é felicidade? Nós temos direito a ela? O que é direito? Kathlen Romeu não o conhece. Nem ao mesmo seu filho, cujo direito de nascer também foi ceifado. Qual é a linha entre esta realidade e a minha, a sua, a nossa? Mesmo não estando à minha alçada evitar essas atrocidades, quão dormente eu preciso estar para que a ciência delas não roubem o resto de minha vivacidade?

Seria brega, antiquado e intempestivo falar sobre amor? Não podemos pôr em palavras o que é amar, apenas se criou uma palavra para condensar o conjunto de sentimentos que acometem uma pessoa no suprassumo de sua passionalidade, seu altruísmo, seu egoísmo, seu desejo. Há paradoxos, incertezas, metáforas, palavras atrás de palavras, mas não sabemos realmente o que é amar. Apenas se sente. Se toda a adversidade não me permitir abrir a porta do amor e adentrá-la, eu vou ter que eliminá-la de alguma forma, nem que eu – inocentemente – feche os olhos para ela. Espero que, mesmo vacilando, trapaceando para atingir o amor, eu consiga retroceder para lutar contra a adversidade, e manter todo o amor, ilicitamente conquistado. 

Este último parágrafo me emocionou, e também me fez perguntar se seria um desrespeito ele seguir o antepenúltimo. É essa a enfermidade mental que me acomete. Existe o direito de ser feliz? Quem escolhe ser feliz é irresponsável? Existe a possibilidade de eu chorar por Kathlen de manhã e abraçar meu amor à tarde, sentindo meu mundo em meus braços, a ocitocina me entorpecer e eu esquecer de Kathlen? Eu não quero esquecê-la, mas eu quero amar, eu preciso. Afinal, não seria justamente a falta de amor que gera toda essa adversidade? Que seja o amor cristão que a mesma instituição que rouba vidas, prega. Abracem o amor cristão que vocês dizem ter, efetivem-no. No final do dia, o meu amor não é tão diferente do seu, do de Cristo. O que os difere é o quanto nos deixamos afastar dele. 

Às 11 horas de segunda-feira, 21 de junho, eu cheguei com algumas poucas compras com as quais faria o almoço. Enquanto separava as compras e, posteriormente, fazia o mise en place, lembrei que não havia escutado o podcast da Folha que ouço todas as manhãs, que junta crônica e informação. Abri o aplicativo e comecei os 21 minutos. 500 mil mortos. Onde eu estava um dia antes, quando o Brasil efetivamente bateu a marca de 500 mil vidas perdidas pela Covid-19? Onde eu estava, como jornalista em formação e como ser humano, para deixar essa informação não ignorável demorar um dia para ser sabida por mim? Provavelmente estava sendo responsável pela minha própria felicidade, a qual talvez seja intrínseca à ignorância, ao fechar dos olhos, ao adiamento do conhecimento.

Mas, como futuro jornalista e como ser humano, eu espero sincera e desesperadamente que não.