79 anos de Gilberto Gil

Em algum dia perdido da minha infância, ouvi tocar A Paz na TV. Não sei por que, mas minha cabeça registrou a música como trilha da chamada da Campanha da Fraternidade e, depois, pesquisando, não encontrei nada sobre em nenhum material da CNBB. No entanto, é certo que aquele som me despertou curiosidade. Lembro de estar no quarto e ouvir, admirado, a melodia soar nas cordas do violão: foi a primeira vez que uma música de Gilberto Gil despertava minha atenção. Como não tinha internet e, também, naquela época, a rede mundial de computadores ainda não era como hoje, demorei muito tempo para ouvir a música novamente com atenção. O que eu ouvia de Gil eram as canções famosas que estão impregnadas na memória musical brasileira e que tocavam todos os dias na rádio Nova Brasil. 

Na adolescência, conheci e entrei de cabeça no reggae e na cultura jamaicana. Além da música, a estética dos negros, de cabelos compridos e roupas estilosas, proporcionou-me um sentimento de otimismo e autoestima em ser negro, de que eu poderia ter cabelo grande e ser bonito igual aos artistas que admirava – reconheço isso apesar da atual desconfiança com que olho, hoje, para o Rastafarianismo.  Por volta dos 17 anos, um amigo do meu irmão, que também gosta muito de reggae, me emprestou o CD Kaya N’gan Daya, trabalho em que Gil regrava grandes clássicos da discografia de Bob Marley. Eu não sabia, mas Gil afirma que seus pilares musicais são o reggae, o baião e o samba. Foi a deixa para que eu me debruçasse não só sobre sua música, mas sobre toda sua história. 

Quando me proponho a estudar a discografia de algum artista, começo sempre pelo primeiro álbum e venho acompanhando o progresso (ou não) de sua obra, mas, com Gil, não foi assim. Não sei explicar a razão, mas o primeiro disco que ouvi na íntegra foi Um Banda Um, de 1982 e, desde então, perco a modéstia para dizer que sou um ‘gilzete’ de carteirinha. Já ouvi todos os seus álbuns, já li sua biografia, já li inúmeras críticas e análises acadêmicas sobre sua carreira, já assisti a incontáveis entrevistas, sei de seus bastidores e histórias familiares. Consigo lembrar onde e como estava quando ouvi cada álbum pela primeira vez; suas músicas me fazem recordar pessoas, lugares e momentos. Nunca vou esquecer quando coloquei os fones e ouvi Realce pela primeira vez, o estouro que aquilo foi para mim, o brilho, a luz, a iluminação! 

A obra de Gil mostra um Brasil grande, um país que mudou e sua gente se orgulhava disso. Quando canta Miserere Nóbis, em Tropicália ou Panis et Circensis, ele mostra um documento do Brasil dos anos 1960, da juventude pós-guerra envolvida em liberdade sexual, nova era, filosofia foucaultiana e na cultura urbana dos grandes centros. Já Jeca Total, de Refazenda, fala do Brasil setentista, do êxodo rural e do choque cultural e social do interiorano que chegava para se instalar em São Paulo ou no Rio. Punk da Periferia e Nos Barracos da Cidade escancaram o Brasil inchado e agitado dos anos 1980 e o pus das feridas da pobreza. A maturidade chega com a idade e Gil debruça-se sobre a tecnologia, a ciência e a bioética. Se, em 1997, o mundo assistia ao clone da ovelha Dolly, Gil convertia tubos de ensaio em música em seu disco Quanta, dedicado aos horizontes que se desdobravam com os avanços científicos. Sem dever nada para ninguém, com a força de uma vida que sempre caminhou pelo lado certo da História, chega ao século XXI trabalhando para a cultura brasileira no governo Lula e fazendo música para quem gosta e sente afeto. É o caso dos discos temáticos Kaya N’gan Daya (2002), Fé na Festa (2010) e Gilberto Samba (2014). 

É impossível qualquer reflexão séria sobre a música brasileira sem passar pelo trabalho de Gilberto Gil. Gil é Bahia, é Brasil, é mundo e é negro. Eu agradeço, ao deus que não tenho, por ser seu contemporâneo e poder ouvir suas músicas. Falando em deus, é de Caetano Veloso, seu amigo-irmão, o sentimento que sintetiza meu amor por Gilberto Gil: “Gil acredita em Deus e eu acredito em Gil. E neste seu aniversário de 79 anos, quem pode ganhar o presente somos nós, já que o nome de Gil tem sido aventado para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. 

Para comemorar a data, elenco aqui 12 canções que considero um guia prático para quem deseja começar a ouvi-lo. Não são necessariamente suas canções de maior sucesso, mas apresentam um panorama apanhando bons momentos de todas as suas fases. Vida longa a Gilberto Passos Gil Moreira, um dos amores da minha vida! 

Olho Mágico (2008) – Não é nem de longe uma das canções mais famosas de Gil, tampouco o álbum que a traz, Banda Larga Cordel. Gosto dessa música pelo arranjo e pela letra inteligente usados para falar sobre o estado de vigilância da nossa sociedade, cheia de câmeras e registros de tudo o que fazemos. 

O fim da História (1991) – Canção do disco Parabolicamará, gravado em 1991 e lançado no início de 1992, é uma resposta ao historiador nipo-americano Francis Fukuyama, que havia publicado um artigo argumentando que, com o fim da Guerra Fria e o fim definitivo das experiências socialistas marcado pela “vitória” dos EUA, a História teria chegado ao seu estágio derradeiro. Uma das canções mais inteligentes de Gil e, toda vez que a ouço, impressiono-me pela qualidade das referências utilizadas. 

Sandra (1977) – O belíssimo soul do aclamado Refavela presta homenagem às mulheres que cruzaram o caminho de Gil quando esteve detido e preso por porte de maconha em 1976, durante a turnê dos Doces Bárbaros em Florianópolis. Por mais belas e variadas que fossem as moças, ele sempre balançava de volta para Sanda, a Drão, sua esposa na época. 

Estrela (1997) – Uma das primeiras músicas que ouvi de Gil, sem nem sequer saber que era dele, quando tocava na rádio Nova Brasil. A canção é uma homenagem a Estrela, filha do poeta curitibano Paulo Leminski.

Cores Vivas (1981) – Uma canção que cumpre o que promete: traz ao ouvinte a sensação de calor, de verão, de cores vivas. Está no genial Luar –(a Gente Precisa Ver o Luar), que marca o início das parcerias de Gil com Liminha e Lincoln Olivetti. Caetano Veloso disse que Cores Vivas é uma das músicas de Gil de que mais gosta. 

Drão (1982) – Talvez a mais famosa da lista, Drão é um depoimento de Gil sobre o fim de seu casamento com Sandra Gadelha, a Drão. Faz parte do disco Um Banda Um, o primeiro de Gil que ouvi com atenção do início ao fim. Só de ouvir os primeiros acordes, lembro-me de ir para a faculdade de Ciências Sociais com Drão nos fones de ouvido. 

Lia e Deia (2018) – De seu mais recente trabalho de estúdio, o ajeitado Ok Ok Ok, Lia e Deia é uma bela e delicada  homenagem à atriz Maria Ribeiro e à jornalista Andreia Sadi. O clipe conta com a produção de Fábio Assunção e participação de Mariana Ximenes e Lucinha Araújo.

Amarra o Teu Arado a uma Estrela (1989) – Música que Gil fez de forma despretensiosa, apenas para sua cunhada participar de um concurso escolar; ela ganhou corpo e foi para o ótimo disco O Eterno Deus Mu Dança. Ganhou também uma versão para a abertura da novela O Salvador da Pátria, também de 1989. Sempre que a ouço, lembro-me de uma professora de Sociologia da faculdade que dizia gostar muito dela. 

Ê, Povo, ê  (1975) – Se for para falar do quase perfeito Refazenda, teria que discutir música por música do disco que abre a Trilogia Re, na segunda metade dos anos 1970. Porém, trago somente a mistura de baião, rock e arranjos de cordas que resultou na belíssima Ê, povo, ê. Destaque especial para a sanfona de Dominguinhos. 

Dono do Pedaço (1983) – Extremamente difícil apontar o melhor ou o pior disco de Gil porque sua discografia é inteira nivelada por cima, mas certo é que Extra não é o seu trabalho mais empolgante e lembrado. No entanto, o charmoso e debochado reggae Dono do Pedaço é um dos pontos altos do álbum. Uma ode à malandragem, à esperteza e ao espírito arisco que só um gato – ou um bon vivant – possuem. 

Índigo Blue (1984) – Outro reggae, dessa vez do brilhante Raça Humana, Índigo Blue é uma das melhores descrições eróticas e do sexo na música brasileira. O corpo da mulher e do homem são cantados e comparados às formas da natureza com toda sensualidade lírica que apenas gênios como Gil conseguiriam fazer. 

Beira-Mar (1967) – Bossa de seu primeiro disco, Louvação, evoca as imagens e as saudades que Gil sente do mar, da Bahia, das lembranças da juventude. Guardadas as devidas proporções, atentando-se somente ao sentimento, essa canção parece exemplificar o que senti quando tive de me mudar de cidade pela primeira vez. 



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