Testemunha principal no caso Assange admite mentir na acusação

Uma importante testemunha no caso do Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra Julian Assange admitiu ter fabricado acusações importantes na acusação contra o co-fundador do WikiLeaks. A testemunha, que tem um histórico documentado de sociopatia e recebeu várias condenações por abuso sexual de menores e ampla fraude financeira, confessou em uma entrevista para o Stundin, um jornal islandês. Na entrevista, Sigurdur Ingi Thordarshon também admitiu ter continuado com sua onda de crimes enquanto trabalhava em parceria com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos – porque recebeu uma promessa de imunidade da acusação.

Thordarshon foi recrutado pelas autoridades norte-americanas para construir um caso contra Assange após induzi-los a acreditar que ele era um colega próximo do ativista. Na realidade, ele se ofereceu de forma limitada e temporária para arrecadar dinheiro para o WikiLeaks e, quando teve essa oportunidade, usufruiu dela para desviar mais de cinquenta mil dólares da organização. Na mesma época, o ativista visitou a Islândia, país natal de Thordarshon, devido ao seu trabalho com a mídia islandesa e membros do parlamento na preparação de um projeto de liberdade de imprensa, que acabou conduzindo uma resolução parlamentar apoiando whistleblowers e o jornalismo investigativo.

Atualmente, os Estados Unidos estão buscando a extradição de Assange do Reino Unido para julgá-lo por espionagem relacionada à exposição de documentos classificados que vazaram – a última versão atualizada do caso ocorreu em janeiro deste ano. Se condenado, ele pode pegar mais de cento e setenta anos de prisão. A acusação gerou temores pela liberdade de imprensa ao redor do mundo, já que entra em confronto com os princípios da imprensa livre e do jornalismo investigativo. Diversas organizações internacionais deram declarações de apoio ao ativista, como a Repórteres Sem Fronteiras e a Anistia Internacional.

Sem instruções

Os documentos do caso se referem a Thordarshon como um “adolescente” – uma referência equivocada, já que é correlacionada a sua aparência física e não sua idade, 28 anos – mas não faz nenhum esforço para esconder sua identidade. Eles pretendem afirmar que Assange instruiu Thordarshon a cometer invasões de computador, ou hackear, na Islândia.

O objetivo dessa acusação é para apoiar prévias acusações, relacionadas às suas interações com Chelsea Manning, principal whistleblower do WikiLeaks. Em tais incriminações, o ativista é acusado de ter influenciado Manning a invadir computadores e enviar os arquivos para sua organização. Contudo, a única ‘evidência’ de tal acusação é uma conversa por chat que ambos tiveram – que é extremamente contestada pela imprensa, defesa e apoiadores. De acordo com autoridades norte-americanas, tais ocorrências aconteceram na mesma época que o ativista residia na Islândia e com isso, os autores da acusação ‘sentiram’ que poderiam fortalecer seu caso alegando que ele também estava envolvido em atividades ilegais no país – como hackear os computadores de membros do parlamento.

Agora, Thordarshon admite em entrevista que Assange nunca lhe pediu para hackear ou acessar computadores de membros do parlamento e gravar suas conversas pessoais. Sua nova alegação é que, na verdade, ele recebeu arquivos de um terceiro que alegou gravar autoridades parlamentares e se ofereceu para compartilhá-los com Assange sem ter nenhuma ideia do que eles realmente continham. Ele também afirma que nunca verificou o conteúdo dos arquivos ou mesmo se eles eram reais, como sua suposta fonte terceirizada sugeriu. Além disso, também admite que Assange nunca o instruiu ou pediu para acessar computadores e encontrar tais gravações.

Mesmo com essa mentira confirmada, as táticas empregadas pelas autoridades norte-americanas aparentam ter sido bem-sucedidas caso a decisão da juíza do Tribunal de Magistrados, Vanessa Baraitser, em janeiro deste ano seja analisada. Embora tenha negado a extradição, ela o fez somente por motivos relacionados aos problemas de saúde física e mental do ativista, risco de suicídio e as condições que o mesmo enfrentaria em uma prisão nos Estados Unidos. Mas, em relação às acusações feitas pela promotoria, Baraitser apoiou os argumentos dos norte-americanos, incluindo as acusações referentes a Thordarshon e a Islândia que, atualmente, são seriamente questionadas.

Sigurdur Ingi Thordarshon

Outros elementos falsos podem ser encontrados na acusação que foram refletidos no julgamento de Baraitser, com base em mentiras que são hoje admitidas por Thordarshon. Um deles é a uma referência a documentos bancários islandeses, onde a sentença do tribunal de magistrados afirma: “alega-se que o Sr.Assange e o adolescente fracassaram em uma tentativa conjunta de descriptografar um arquivo roubado de um banco do país número um [referência a Islândia] da Otan”.

Para o jornal, Thordarshon admite que tal afirmação se refere a um evento, bem divulgado pela imprensa na época, em que um arquivo criptografado vazou de um banco islandês, onde se presumiu conter informações inadimplentes fornecidos pelo Landsbanki. O banco faliu junto a quase todas as instituições financeiras do país, mergulhando o país em uma crise econômica. Já o arquivo foi vazado dois anos depois e compartilhado por usuários on-line que buscaram entender o que antecedeu a crise econômica. Não há evidências de que o arquivo em questão foi roubado e é presumido que foi distribuído por funcionários do banco após a falência, mas documentos do tribunal afirmam que: “… ele [Assange] usou o acesso não autorizado que lhe foi dado por uma fonte, para acessar um site do país número um da Otan usado para rastrear veículos da polícia”. Essa alegação deixa de fora um elemento que Thordarshon esclarece em sua entrevista ao jornal: as informações de login eram suas e não obtidas por nenhum meio nefasto. Agora, ele admite que teve acesso como uma questão de rotina devido ao seu trabalho e afirma que o ativista nunca teve tal acesso.

As comunicações

Em preparação de um relatório investigativo para a Stundin, Thordarshon fornece um cenário abrangente de suas comunicações enquanto ele era voluntário para o WikiLeaks. Isso envolve conversas privadas com a equipe da organização, bem como comunicações não autorizadas com membros de grupos internacionais de hackers, os quais ele entrou em contato por meio de sua função de morador em um fórum Internet Relay Chat do WikiLeaks aberto – uma forma de comunicação online e ao vivo, utilizado basicamente como bate-papo e troca de arquivos, permitindo a conversa em grupo ou privada. Não há nenhuma indicação que a equipe do WikiLeaks tivesse conhecimento dos contatos entre Thordarshon e os grupos e, na realidade, o relatório mostra que a equipe foi enganada.

De acordo com o jornal, as comunicações presentes no relatório apresentam um padrão de comportamento onde Thordarshon está constantemente tentando aumentar sua posição na organização, descrevendo-se como chefe de gabinete, chefe de comunicações, número dois na organização ou responsável por ‘recrutas’. Nesses contatos, ele pede, frequentemente, aos hackers para acessar material de entidades islandesas ou atacar sites islandesas através de ataques DDos – que visa tornar um servidor, serviço ou estrutura indisponível. Entretanto, o jornal afirma que após a leitura de todas as comunicações, não consegue encontrar nenhuma evidência de que ele foi instruído a fazer esses pedidos por qualquer pessoa do WikiLeaks. Thordarshon também não afirma isso, mas dá a entender que Assange estava ciente ou que esperava isso – como essa suposta comunicação não verbal ocorreu, ele não consegue explicar. Além disso, ele não explicou o suposto motivo de porque o WikiLeaks estaria interessado em atacar sites na Islândia – especialmente em um momento delicado, onde eles estavam publicando centenas de milhares de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos com parceria da mídia internacional.

Manifestante protesta a favor do co-fundador do WikiLeaks. Seu cartaz diz: “a verdade não é um crime”.

No radar do FBI

A atuação desonesta – possivelmente criminosa – de Thordarshon não se limitou a comunicações com hackers. Ele também admite em entrevista que criou meios de comunicação com jornalistas que pretendiam entrar em contato com WikiLeaks e fez com que a imprensa pagasse por viagens extravagantes ao exterior, onde se apresentava erroneamente como um representante oficial da organização. Além disto, afirma que roubou documentos da equipe da organização ao copiar seus discos rígidos – entre eles a do corpo jurídico da equipe.

Thordarshon continuou a intensificar suas atividades ilícitas, especialmente quando estabeleceu comunicação com um dos membros do grupo hackerativista LuIzSec, “Sabu”, sem conhecimento ou autorização do WikiLeaks. O que ele não sabia é que após a eventual prisão de Sabu, ele se tornou um informante e colaborador do FBI, que viu em Thordarshon uma oportunidade de implicar Julian Assange.

“Eles estavam tentando usar coisas aqui [na Islândia] e pessoas em nosso país para tecer uma teia, uma teia de aranha que pegaria Julian Assange”

Ögmundur Jónasson

Mais tarde naquele mês, um ataque DDoS foi executado contra os sites de várias instituições governamentais. Tal ação foi feita sob os olhos do FBI, que pode ter autorizado o ataque ou mesmo iniciado, já que Sabu era naquele momento seu informante. O que se seguiu foi um episódio em que autoridades islandesas foram induzidas a cooperar sob falsos pretextos.

“Eles estavam tentando usar coisas aqui [na Islândia] e pessoas em nosso país para tecer uma teia, uma teia de aranha que pegaria Julian Assange”, afirmou o Ministro do Interior da Islândia da época, Ögmundur Jónasson, afirmou sobre as atividades dos Estados Unidos.

Em entrevista para o Stundin, Jónasson lembra que quando o FBI entrou em contato com as autoridades islandesas em 20 de junho de 2011, foi para alertar a Islândia sobre uma ameaça iminente e grave de intrusão contra computadores do governo. Poucos dias depois, agentes voaram para a Islândia e se ofereceram formalmente para ajudar a impedir esse grave perigo. A oferta foi aceita e em julho uma carta rogatória formal foi enviada à Islândia para selar a assistência mútua. Jónasson especula que já então os Estados Unidos estavam preparando as bases para seu propósito final, não ajudar a Islândia, mas enredar Julian Assange. “O que penso desde então é se a fiação da web já havia começado com a aceitação da carta rogatória estabelecendo uma cooperação que pudesse usar como pretexto para visitas posteriores”, afirma o ex-ministro.

Policiais islandeses foram enviados aos Estados Unidos para coletar mais evidências desse chamado perigo iminente e Jónasson diz que não se lembra de nada de substancial que saiu daquela visita e que nenhum outro ataque foi feito contra os interesses islandeses. Mas o FBI voltaria.

Manifestantes protestam a favor de Julian Assange.

No final de agosto, Thordarshon estava sendo perseguido pela equipe do WikiLeaks, que desejava localizar o produto das vendas online de mercadorias da organização. Descobriu-se que Thordarshon havia instruído os fundos a serem enviados para sua conta bancária privada falsificando um e-mail em nome de Julian Assange. Thordarshon viu uma saída e em 23 de agosto enviou um e-mail para a Embaixada dos Estados Unidos na Islândia oferecendo informações em relação a uma investigação criminal. Ele foi atendido por um telefonema e confirmou estar se oferecendo para ser um informante no caso contra Julian Assange.

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Os promotores e o FBI foram rápidos em responder e em quarenta e oito horas um jato particular pousou em Reykjavik, capital da Islândia, com cerca de oito agentes que marcaram rapidamente reuniões com Thordarshon e com pessoas do escritório do Ministério Público da Islândia e do Comissário da Polícia do Estado. Ao meio-dia, Jónasson, então Ministro do Interior, ficou sabendo desta nova visita e solicitou a confirmação de que se tratava do mesmo caso do início do verão. “Perguntei em que carta rogatória se baseava esta visita e se era exatamente o mesmo”, disse Jónasson em entrevista ao Stundin. “Descobri então que se tratava de uma natureza totalmente diferente da discutida anteriormente”. Ele diz que somou dois mais dois e disse ser óbvio que a intenção era armar uma armadilha na Islândia para Assange e outros membros da equipe do WikiLeaks. 

Segundo o mesmo, tais ações estavam fora do âmbito do acordo e, portanto, ele ordenou que toda a cooperação com os agentes fosse interrompida e que eles seriam informados estarem agindo na Islândia sem qualquer autoridade legal. Alguns dias depois, ele soube que os agentes e promotores ainda não haviam deixado o país, então, o Ministério das Relações Exteriores entrou em contato com a embaixada dos Estados Unidos, exigindo que o trabalho fosse interrompido e deixarem o país. Eles aceitaram, mas partiram com o novo informante e testemunha principal, Sigurdur Ingi Thordarshon, para a Dinamarca.

O começo do fim?

A reunião na Dinamarca foi a primeira de algumas em que autoridades norte-americanas abraçaram com entusiasmo a ideia de cooperação com Thordarshon. O mesmo afirma na entrevista que os norte-americanos queriam saber tudo sobre o WikiLeaks – incluindo a segurança física dos funcionários. Eles pegaram o material que ele reuniu, incluindo dados que ele roubou dos funcionários do WikiLeaks e até planejou enviá-lo para a Inglaterra por telegrama. Em entrevistas, ele afirma que recusou esse pedido em específico – provavelmente por saber que não era mais bem-vindo, já que membros do WikiLeaks descobriram que ele desviava dinheiro da organização.

Mas após meses de colaboração, o FBI parece ter pedido o interesse. Simultaneamente, acusações foram se acumulando contra hcom as autoridades islandesas por fraude maciça, falsificações e furtos, por um lado, e por violações sexuais contra meninos menores de idade que ele havia enganado ou forçado a atos sexuais. Após longas investigações, ele foi condenado e recebeu sentenças relativamente brandas, já que o juiz considerou que ele mudou seu argumento no tribunal e se declarou culpado de todas as acusações. De acordo com uma avaliação psiquiátrica apresentada ao tribunal e abordada pelo Stundin, Thordarshon foi diagnosticado como um sociopata, incapaz de sentir remorso, mas ainda criminalmente culpado por suas ações. Ele foi avaliado para ser capaz de compreender a diferença básica entre o certo e o errado, mas ele simplesmente não parecia se importar.

O encarceramento não parecia ter o efeito pretendido de impedir Thordarshon de continuar sua vida de crime e trapaças, que decolou durante a era Trump, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos decidiu revisitá-lo, dando-lhe um status formal como testemunha no caso contra Julian Assange e concedendo-lhe imunidade em troca de qualquer acusação. De acordo com o Stundin, o acordo de imunidade entre autoridades norte-americanas e Thordarshon foi apresentado na sede da polícia da capital islandesa, onde a única função do policial islandês era de confirmar a identidade de Thordarshon antes de deixá-lo sozinho com seu advogado na sala em que encontraria a delegação dos Estados Unidos.

Mas parece que a oferta de imunidade – posteriormente garantida e selada em uma reunião na capital dos Estados Unidos – encorajasse Thordarshon a tomar medidas mais ousadas em sua carreira criminal. Ele começou a enganar indivíduos e empresas em uma escala maior – geralmente adquirindo ou formando pessoas jurídicas, ele costumava pedir mercadorias emprestadas, alugar carros de luxo e até mesmo encomendar grandes quantidades de mercadorias de atacadistas, sem qualquer intenção de pagar por essas mercadorias e serviços. Ele também falsificou o nome do próprio advogado em notificações de registro para uma empresa, com o objetivo de utilizar estas entidades num empreendimento imobiliário. O advogado denunciou a falsificação à polícia, onde casos semelhantes estão se acumulando.

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