O mito da neutralidade tecnológica


As tecnologias que estão sendo implementadas hoje, em sua maioria, servem a um propósito político e/ou econômico maior que a simples ideia de eficiência e liberdade promovida por quem as cria.


 A Revolução Tecnológica é geralmente percebida como neutra e emancipatória. A narrativa cultural dominante sobre a tecnologia, em muito influenciada – se não criada – pelo Vale do Silício, a considera uma fonte de liberdade, produtividade e democratização do conhecimento. Essa narrativa inspira a ideia de que a tecnologia é objetiva e neutra, livre de ideologias, e que novas tecnologias são implementadas sempre com a finalidade de aumentar a eficiência de determinados processos, trazendo, portanto, maior liberdade ao ser humano.  

O estudo da neutralidade tecnológica – por seus defensores e opositores – é tomado por diversas teorias que tentam explicar como e, porque a tecnologia pode, ou não, ser neutra.  No entanto, defende-se aqui que as tecnologias e seus usos são moldados pelo sistema econômico, social e político em que se inserem e, sendo assim, não podem se ver livres de vieses e ideologias, em maior ou menor grau.

Para além de discussões mais aprofundadas que discorrem sobre a possibilidade de esses vieses serem intrínsecos ou extrínsecos ao artefato, fato é que a tecnologia não pode ser considerada neutra por apresentar propriedades políticas.

Começando a pensar no mito da neutralidade tecnológica devemos pensar no monopólio intelectual das Big Tech – grandes empresas de tecnologia, como Google ou Facebook – que dominam o pensamento coletivo sobre o papel da tecnologia na sociedade enquanto exercem a mediação digital de tudo por meio do extrativismo de dados massificados. Tal conjunto de empresas realiza a modulação de comportamentos por meio da coleta massiva de dados e da criação de algoritmos para identificação e classificação de pessoas em perfis específicos que servem para impulsionar comportamentos, criando valor e capital. Nesse sentido, o principal modelo de negócios dessas corporações – e os algoritmos utilizados para esse fim – está longe de ser neutro.

O algoritmo do Facebook responsável por organizar o feed de postagens e notícias atua de modo a selecionar quem receberá quais postagens a partir da análise dos dados coletados e dos comportamentos dos usuários na rede social, sendo os critérios dessa seleção desconhecidos. Isso cria uma bolha informacional, em que um individuo só receberá aquilo que já demonstrou interesse anteriormente, acabando com a liberdade de escolha sobre o que se quer saber, bem como com a capacidade de pensamento crítico, já que não o usuário das redes sociais dificilmente entra em contato com aquilo que não concorda.  Esse modelo de negócio serve à lógica de acumulação do capitalismo, na medida em que mais dados significam maior controle sobre o comportamento humano e, logo, maiores receitas e controle de mercado

No mesmo sentido, existem tecnologias que são inerentemente perigosas, pois são criadas para aumentar o poder de quem as controla sobre outras pessoas, produzindo efeitos próprios de governos autoritários, como é o caso das tecnologias de reconhecimento facial de câmeras instaladas em locais públicos, bem como outros tipos de reconhecimento biométrico, o quais possuem a capacidade de identificar, seguir, selecionar e rastrear os cidadãos onde quer que eles estejam, minando direitos humanos e liberdades civis e políticas, como o direito à privacidade, à liberdade de reunião e de associação, à liberdade de expressão e os direitos à igualdade e à não discriminação.

O reconhecimento facial e biométrico remoto são tecnologias inerentemente contrárias aos direitos e liberdades fundamentais, são tecnologias autoritárias by design, que, entre outros riscos, agravam o encarceramento em massa de jovens negros das periferias, como mostra pesquisa da Rede de Observatórios de Segurança, realizada em 2019[1]. De acordo com a pesquisa, 90,5% das pessoas presas em virtude das câmeras com reconhecimento facial eram negras, o que sugere que a tecnologia de certa forma automatizou o racismo estrutural do sistema de justiça criminal brasileiro, possuindo fortes vieses raciais.

A realidade mostra, portanto, que as tecnologias que estão sendo implementadas hoje, em sua maioria, servem a um propósito político e/ou econômico maior que a simples ideia de eficiência e liberdade promovida por quem as cria. Elas servem aos propósitos de quem as criam e as controlam, sendo um desses propósitos o desejo por poder, autoridade e privilégio de umas pessoas sobre as outras. Assim, quem possui o domínio das tecnologias dita suas finalidades. Esse é o ponto central: quem possui o domínio das tecnologias hoje?

Em uma sociedade governada por tecnologias que são dominadas por corporações, a narrativa da neutralidade tecnológica torna-se perigosa, não só por inspirar a normalização de tecnologias que tem o potencial de ferir direitos, mas por inspirar a busca da solução de problemas em mais tecnologias, sem refletir sobre seus potenciais riscos. A necessidade de mudar a narrativa da neutralidade tecnológica é urgente.

[1] NUNES, Pablo. Levantamento revela que 90,5% dos presos por monitoramento facial no Brasil são negros.  CESeC, 21 nov. 2019. Disponível em: https://cesecseguranca.com.br/artigo/levantamento-revela-que-905-dos-presos-por-monitoramento-facial-no-brasil-sao-negros/. Acesso em: 29 jun. 2021.

Tem uma pauta?
Estamos aqui

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser totalmente anônimo, tá?


  • Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    ,

    Dois dias após o primeiro turno das eleições, usuários de esquerda passaram a infiltrar grupos bolsonaristas no Telegram. O resultado foi o reforço da moderação por parte dos administradores, e a aposta em teorias conspiratórias.

  • Todo fascista é corno

    Todo fascista é corno

    ,

    Não é difícil entender que a vontade de escrever é nula, assim como a vontade de acordar, sair da cama e realizar que esse bando de corno não tem mais medo de cantar aos quatro ventos: “sou fascista na avenida e minha escola é a mais querida dos reaça nacional!”.

  • No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    ,

    Grupos bolsonaristas no Telegram reforçam táticas xenofóbicas e criam fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste.

  • Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciamos as notas, reportagens curtas sobre temas relacionados às eleições de segundo turno.

  • A falta da política externa

    A falta da política externa

    , ,

    Às vésperas da eleição mais importante desde a redemocratização, e ainda sob efeito da ressaca moral que assola o país após o clássico debate presidencial da Rede Globo, a ausência da política externa como pauta de discussão demonstra o enorme apequenamento do Brasil.

  • Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam  apoio militar na Ucrânia

    Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam apoio militar na Ucrânia

    , , ,

    Muitos americanos pensam que Biden deveria se apressar e encontrar um acordo diplomático. Mas para os apoiadores da Ucrânia, seja à esquerda ou à direita, a resposta é que Biden se apresse e vença, dando à Ucrânia mais ajuda militar e aceitando mais riscos.

Seja notificado de novas publicações, assine.

Ao se inscrever, o WordPress te atualiza gratuitamente toda vez que publicamos algo novo. Assim, você pode acompanhar nossa redação! Não se esqueça de nós seguir nas redes sociais.

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos criado e equipado por jovens. Buscamos usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança do futuro das novas gerações.