As múltiplas faces dos mitos

Quando nascemos, anjos tortos que vivem nas sombras não nos dizem nada. As figuras parentais, ao contrário, estão constantemente dizendo alguma coisa a nós. Submetidas pelos seus ancestrais a uma linguagem articulada, submetem seus bebês a ela. Quando eles crescem, vão aos poucos gestando, em seu íntimo, perguntas de cunho universal, tais como: “o que é o mundo?”, “de onde ele veio?”, “para onde vai?” e “qual o papel do indivíduo dentro dessa peça cósmica?”. Para responder a essas questões inerentes ao Homo sapiens, todas as culturas humanas desenvolvem os mitos.

Nessa perspectiva, o discurso mitológico apresenta-se como uma forma de dotar a realidade de sentido, propondo experiências pelas quais não necessariamente passamos ou passaremos individualmente. Assim, travamos conhecimento com o mundo mais pelas histórias absorvidas por nós do que pelas nossas próprias vivências. Ademais, a partir do plano imaginativo – bastante explorado pelas narrativas – temos uma maior possibilidade de ingerência diante do real. Significando os mundos interior e exterior, as culturas conseguem, por intermédio dos mitos, ensinar lições essenciais à sobrevivência de suas respectivas sociedades, estabelecer uma hierarquia de valores, conceber uma cosmovisão e preservar a memória coletiva.

Para potencializar a transmissão dos saberes adquiridos e aperfeiçoados ao longo das eras, criou-se uma aura sagrada em torno dessas histórias. Dessa forma, desenvolveram-se os ritos, manifestações físicas delas que tendem a expor o ser humano e seus cinco sentidos a impressões das mais diversas a fim de tornar a experiência dos mitos mais concreta e palatável.

As narrativas mitológicas, então, são universais e extremamente eficazes dentro do que propõem, isto é, impressionar o imaginário coletivo com o intuito de fomentar a coesão dos grupos humanos. Afinal, pessoas submetidas a experiências em comum tendem a desenvolver visões de mundo semelhantes, cooperando, pois, entre si. Elas são de fácil absorção e reprodução, o que permite a instauração de verdades; ao contrário, por exemplo, do discurso científico, que se põe a descrever a realidade com auxílio do método científico de forma não dogmática. Os mitos podem, ainda, ser compreendidos para além de suas dimensões religiosas: são qualquer narrativa capaz de dotar o real de sentido. Dentro dessa compreensão, a própria ciência, a história, as ideologias políticas e os diversos produtos da indústria cultural contemporânea configuram-se como mitos em suas estruturas fundamentais e compartilham algumas das potencialidades deles – sendo uma delas a capacidade de recortar parte da realidade, tornando-a reconhecível ao intelecto humano.

Assim, objetivando abarcar, em si, camadas profundas e diversas em significados, o discurso mitológico apropria-se de símbolos; logo, uma mesma narrativa consegue ser desvelada em múltiplas faces. Desse modo, os saberes culturais dos antigos eram condensados em uma mesma instância, ou seja, dentro das suas narrativas sagradas. A cultura hodierna do Ocidente configura-se de uma forma oposta a essa, fragmentando os conhecimentos em diversas disciplinas.

Édipo e a Esfinge (Gustave Moreau)

Partindo para uma análise da cultura de massas contemporânea em busca de produtos comparáveis aos mitos, no século XX, como desenvolvido por Umberto Eco em seu texto O Mito do Super-homem, uma dessas produções eram as HQs de super-heróis, as quais eram lidas por bilhões de pessoas espalhadas por todo planeta Terra. Com o surgimento de novas formas de entretenimento, o centralismo das HQs foi suplantado, no começo do século XXI, pelos filmes de super-heróis. Diante de uma concorrência cinematográfica considerável, a Marvel Studios – propriedade da companhia Walt Disney – prosperou como uma das empresas mais bem sucedida comercialmente, criando um universo compartilhado de narrativas, obtendo um estrondoso impacto cultural: entre os dez maiores sucessos de bilheteria do cinema mundial, encontramos três filmes dela.

Diferentemente das HQs do super-homem, o Universo Cinematográfico Marvel (UCM) concebeu personagens que executam ações que geram consequências diretas para todos os filmes daquele mundo compartilhado. Ademais, as relações temporais, distorcidas nas histórias de Clark Kent, são bem estabelecidas. Em um século mais exigente em relação à verossimilhança, os personagens se transformam física, intelectual e moralmente; alguns deles se reinventam, outros morrem. Apesar dessas diferenças, os heróis da Marvel e suas aventuras se fundamentam, assim como as do super-homem, sobre a estrutura fundamental dos mitos.

O UCM, inspirado nas HQs da Marvel anteriores a ele, está permeado de possíveis paralelos em relação ao discurso mitológico. Existe, dentro desse universo ficcional, uma narrativa cosmológica, um mito de criação original. Nela, estão presentes entidades mais poderosas do que os seres humanos, como deuses originais ou adaptados diretamente de mitologias existentes, tal qual a nórdica – Thor, Loki e Odin dividem espaço com os outros heróis da Marvel. Veicula-se, por meio dos personagens, uma hierarquia de valores: Tony Stark atribui valor à riqueza e à filantropia, Steve Rogers à coragem e à dedicação à pátria, Bruce Banner à ciência, enquanto o progresso tecnológico representado pela nação de Wakanda estabelece-se como o modelo a ser seguido pelas demais civilizações. São fundadas, em adição, valorações de cunho moral: a divisão entre os bons e os maus, entre aqueles que defendem e aqueles que atacam. Esse maniqueísmo se põe à prova por anti-heróis, presentes em menor número, que se posicionam na linha tênue entre certo e errado. Em consonância com o antropocentrismo advindo da modernidade, os seres humanos e a Terra, a despeito da vastidão do cosmos e da biodiversidade, são os protagonistas dos acontecimentos.

Os Vingadores (Joss Whedon)

Nas narrativas fictícias do UCM, emergem questões concretas discutidas na contemporaneidade. A demanda por representatividade, por exemplo, resultou no filme Pantera Negra – protagonizado por um herói negro – e em longas-metragens de heroínas, como Capitã Marvel. Em uma de suas produções mais recentes, O Falcão e o Soldado Invernal, a Marvel – agora com seu universo expandido para as séries do serviço de streaming Disney+ – discutiu o racismo e o militarismo presentes na sociedade estadunidense. Com a invalidação de Steve Rogers, Sam Wilson – um personagem afro-americano – assume o manto de um dos maiores símbolos dos Estados Unidos, o Capitão América (uma reinvenção contemporânea do emblemático Tio Sam). Apesar disso, outras discussões vitais à humanidade são negligenciadas, tais quais a precarização do trabalho e as mudanças climáticas: os mitógrafos do século XXI pretendem, acima de tudo, ganhar dinheiro. A divindade Mamon, então, assume o centro do panteão contemporâneo. Deve-se, por isso, encarar com criticidade a retórica e as pautas utilizadas pela Marvel ou por qualquer outra empresa do entretenimento, cuja ideologia, em última instância, centra-se no lucro.

Desse modo, os filmes do UCM – representantes extremamente significativos da cultura de massas contemporânea – são vistos por milhões de pessoas espalhadas ao redor do mundo, propondo experiências estéticas com diversas camadas de significado, tal qual os mitos antigos. Legitimam, no nível do inconsciente, a secularização, o capitalismo e os seus valores indissociáveis. Por fim, estabelecem unidade, atuando fortemente sobre o imaginário coletivo dos seus múltiplos espectadores, que reproduzem, conscientemente ou não, ideias que moldam ações na vida social e política.

Concluo, portanto, que os mitos e suas múltiplas faces – concebidas todas à luz da linguagem articulada – mediam as relações entre os seres humanos e a realidade. Ser humano é ser histórico, no sentido de que nos compreendemos como indivíduos e como sociedade sob o formato de histórias. Desprovidos de narrativas coerentes, encaramos a mortificadora ausência de sentido: a vida humana, assim, transmuta-se em algo irreconhecível e insuportável. Com o intuito de ser, de compreender o real, de ordenar o caos e de resistir ao absurdo, continuaremos erguendo mitos. Como indivíduos de uma espécie obstinada a resistir ao tempo devorador, conservamos a esperança de que nossos pequenos versos – que contêm rimas, não soluções – perdurem diante do distante, vasto e estrelado poema cosmológico.



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