Relato de uma mãe Millenial

Eu esperei muita coisa dos 30 anos, talvez por ter assistido demais àquele filme “De Repente 30”, com Jennifer Garner. Entretanto, não pensava muito sobre o caminho a percorrer daqui até os 30. Hoje, estou com 24 em uma pandemia mundial; não obstante, sou mãe de uma criança de 2 anos e moro com um cara que é pai do meu filho também. 

É incrível como me tornei tudo o que eu nunca pensei que seria, tudo que nunca busquei. Tornei-me a esposa, a mãe, a dona de casa. Só que ainda existe aqui, dentro de mim, a estudante, a aventureira, a menina faceira que sempre vibrou ao conhecer gente nova e coisas novas. Por algum motivo, quando a mãe nasceu, alguma parte da menina morreu. Agora estou de frente a essa mulher todo dia no espelho e parece que não a reconheço. Meu deus, como tenho sido cruel com ela. Essa nova mulher que agora é mãe nasceu junto com meu filho; por que ouso cobrar tanto dela?

Não me passa pela cabeça que ela está surgindo juntamente com essa criança? No entanto, de um modo diferente. É engraçado pensar que quem eu sou hoje talvez não gostasse nada da pessoa de antes. Eu falava sem pensar, era espevitada egoísta, individualista. A mulher de agora é serena, tem responsabilidades e tirou a cabeça de dentro do próprio umbigo. Ela também tem a força que jamais acreditei que realmente teria, embora esteja com esse aspecto tão cansado, tão apático – de mistura de maternidade e pandemia e desemprego e Bolsonaro. 

Criar uma criança não é tarefa fácil por milhares de motivos – não só o básico como alimentar e dar-lhe um teto. Saber que tudo o que você fala para aquele serzinho irá ressoar no futuro dele de algum modo é algo assustador. Então, meu deus, como poderia eu querer massacrar essa mulher porque acende um cigarro quando precisa esfriar a cabeça? Ou grita e fica furiosa com o filho quando chega ao limite? Mas que sempre se arrepende, quase que na mesma hora, e volta para dar um abraço nele e pedir desculpas porque sabe que o tempo é curto. 

Como posso eu julgar essa mulher que está frustrada porque não imaginava que seria tão difícil conciliar casa, criação, estudos e busca por trabalho? Como posso exigir felicidade dessa pessoa que se cobra por não atingir os objetivos que sei lá de onde vieram? São sociais? São do coração? Estar aberto a mudar de planos pode ser libertador. Não sei o que me resta senão abraçar com toda a força minha nova versão enquanto afirmo com todas as palavras: meu bem, você está fazendo nada mais nada menos do que o que você pode

Cada célula do seu corpo sabe e é por isso,, também, que você está tão cansada. Que tal se parabenizar por ser uma mãe tão firme quanto empática? Ou celebrar seu senso de justiça que, em meio ao caos de toda a sua vida, ainda consegue ir lá ler sobre política, se engajar em militância e soltar um “Fora Bolsonaro” pelo menos uma vez por semana? Quem nos ensinou a ser tão cruel com nós mesmas?

Esse texto é também pra você se reconectar com um antigo amor, aquele que é a voz na sua cabeça, o choro que te faz ficar de alma lavada depois. Você lembra? Você lembra? Você é uma escritora. E eu sei disso porque, toda vez que eu morro, é através da literatura que eu renasço.



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