Resenha: Os Grãos – Os Paralamas do Sucesso (1991)


Dia desses, um amigo comentou que não tinha mais a disposição para uma noite longa de sexo com a namorada. Não, acho que ele não quis dizer estar ficando broxa ou perdera a libido, ou o interesse em sua garota. Sua queixa, ou talvez  mera constatação, diz muito mais a respeito da forma de desfrutar do […]


Dia desses, um amigo comentou que não tinha mais a disposição para uma noite longa de sexo com a namorada. Não, acho que ele não quis dizer estar ficando broxa ou perdera a libido, ou o interesse em sua garota. Sua queixa, ou talvez  mera constatação, diz muito mais a respeito da forma de desfrutar do prazer. Pode soar como papo de tiozão, mas, com tempo, parece haver mesmo uma reorientação na vida que nos faz prezar pelo custo-benefício ao invés da intensidade ou quantidade. Duas ou três cervejinhas são bem melhores do que ficar louco de corote ou catuaba. Não adianta ficar com aquela gostosa se a conversa for chata e o santo não bater. Transar várias vezes seguidas noite adentro? Por que não uma só e MUITO bem feita? O Millennial de alma Boomer que vos fala assegura: sua hora também vai chegar! 

Particularmente, na contramão do senso comum, não tenho tanto apreço assim pela juventude. Os motivos que posso elencar seriam tantos que o objetivo deste texto seria desvirtuado; mas acho que as fases da vida têm prós e contras tão equilibrados que nem é possível ranquear qual idade é melhor. No entanto, faço minhas as palavras de Nelson Rodrigues em sua última entrevista: Jovens, envelheçam rapidamente! E foi exatamente isso que fizeram Os Paralamas do Sucesso no disco Os Grãos, que completa 30 anos em 2021. 

Vamos por partes. Como sempre digo, a arte é um documento histórico e devemos entender o contexto material de sua época. Se os anos 1980 marcaram a era do rock no Brasil – gerando até a nomenclatura Brock –, a década de 1990 começa a mudar esse panorama na marra. Os grandes nomes do rock nacional ainda estavam vivos e ativos no começo desse período, mas a morte de Cazuza pode ser considerada como um golpe simbólico nas produções do gênero. Existem, também, três fatores importantes para o enfraquecimento do Brock. O primeiro foi a severa crise política e econômica que assolou o Brasil, culminando com o confisco das poupanças e o inevitável impedimento do presidente Fernando Collor. Em segundo lugar, houve a invasão da lambada e do sertanejo nas rádios brasileiras, com os hits de Kaoma, Beto Barbosa, Luiz Caldas, Chitãozinho & Xororó e Zezé di Camargo e Luciano – também bastante potencializados pelas novelas da Globo Tieta e Rainha da Sucata. E ainda havia o chamado “pagode romântico” começando a dar as caras, o qual virou o genérico “pagode 90” atualmente. O terceiro item é a própria idade de amadurecimento dos artistas do rock nacional; o trio paralâmico já havia batido os trinta anos de idade e as aspirações da vida naturalmente mudavam de rumo. 

Em partes, cabem as “críticas” ao rock nacional dos anos 1980 por suas letras serem infantis demais. Alguns exemplos, que não servem para generalização, confirmam as objeções, como é o caso de Kid Abelha e os primeiros trabalhos da Legião Urbana, Barão Vermelho, RPM, Blitz e os próprios Paralamas. Contudo, Os Grãos mostra uma clara inflexão nas letras de Herbert Viana, motivadas principalmente pelo seu novo relacionamento com a jornalista inglesa Lucy Needham, superando, finalmente, a fossa em que caíra após o fim do namoro com Paula Toller. 

Do ponto de vista estético, Os Grãos aposta mais no pop rock e em algumas levadas de grunge. Há, ainda, a deliciosa influência do reggae e de ritmos caribenhos, mas bem mais enxugados em relação aos discos anteriores. Aliás, a sonoridade geral de Os Grãos é mais equilibrada entre a guitarra, baixo e bateria, sem o alvoroço que faz parte de Bora Bora (1988) e Big Bang (1989). O disco também assinala a aproximação aos samples e à programação eletrônica nas faixas, dando um clima levemente artificial que deixa aquela sensação bem gostosa de início dos anos 1990. Por fim, a capa do álbum, toda em preto e branco, com gansos na frente e fotos dos integrantes no verso, ajuda a criar o tom mais maduro que o disco pretende. 

Os teclados e a bateria eletrônica mostram a cara logo na primeira música, Tribunal de Bar. A letra fala do protocancelamento sofrido por Herbert Vianna após supostamente ter se apresentando bêbado em um show. Nessa música há um trecho sampleado de Kick That Habit, da banda britânica de reggae Steel Pulse. 

O clima pesado muda tão completamente quanto um sábado de sol em Sábado, na qual Herbert canta indiretamente o bem trazido por seu novo amor por Lucy. Seguindo no mesmo tom, Tendo a Lua, talvez a música mais famosa do disco, também fala sobre um Herbert que deixou as coisas do passado para trás e agora se preocupa com a nova amada.

Misteriosa, a canção que dá nome ao disco é um reggae estiloso que começa com um floreio de teclado e com a bateria eletrônica de João Barone. A letra de Os Grãos não é óbvia, mas fala sobre os aprendizados que juntamos como grãos durante a vida. 

A divertida Carro Velho é a música que mais lembra os discos anteriores da banda, dessa vez com a luxuosa batucada de Carlinhos Brown na percussão. Querer um carro novo que não dê os problemas de um carro velho é uma preocupação justa da vida adulta. 

A tenra Vai Valer encerra o lado A trazendo uma letra de incentivo à coragem e à inventividade na vida, tudo isso envolto em um belo arranjo de cordas. 

O lado B começa com a potente Trac Trac, versão em português de Trak Trak do argentino Fito Paes. Aliás, essa aproximação dos Paralamas com a Argentina renderia muitos frutos entre 1994 e 1995. A versão original tem um tom mais soturno pois, até onde sei, a letra é sobre a perda de uma pessoa muito querida por Fito. Porém, sem perder a sensibilidade, Herbert deixa a música mais límpida, potente e com o charmoso banking vocal de Fernanda Abreu. 

O rock grunge aparece nítido na bucólica O Rouxinol e a Rosa, canção sobre o amor sofrido entre o pássaro e a flor. Ponto positivo para os belos solos de guitarra no meio e no fim da música. A Outra Rota, levada com violão, o piano de João Fera e um robusto arranjo de cordas, é mais uma canção em que Herbert acerta contas com seu passado. 

A ânsia pelos sinais de reciprocidade da pessoa amada, seja ela uma paixão ou uma amizade, dão as caras em Dai-nos e Ah, Maria. Dai-nos está presente somente na versão do álbum em CD. 

Não Adianta encerra a lavagem de roupa suja de Herbert com seu ontem, mas em um arranjo crescentemente otimista. 

Também presente apenas no CD, Trinta Anos finaliza os trabalhos versando sobre as angústias e expectativas de quem se aproxima de completar três décadas de vida. 

Os Grãos foi esquecido no meio da discografia dos Paralamas de modo totalmente injusto. É certo que não traz nenhum hit clássico do trio brasiliense-carioca, mas, de modo algum, é um disco ruim – inclusive, é o meu favorito da banda. O contexto histórico e social da época de seu lançamento não favoreceu uma boa recepção; as duras críticas da imprensa a Os Grãos e Severino (1994) fizeram o grupo se exilar na Argentina em busca de novos ares. Em Os Grãos, estão os primeiros ensejos de um Herbert Viana produtor musical, atitude que viria a se consolidar em seu primeiro disco solo, Ê Batumaré, de 1992. Em tempo, a mania de Herbert de tentar fazer as coisas sozinho rendeu rusgas com o restante da banda durante a gravação de Os Grãos. 

Minhas músicas favoritas são Sábado, Os Grãos, Trac Trac e Ah, Maria.



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