O Quarto de André | A Rachadura


A casa está cansada, assim como eu estou cansada. Rachaduras se abrem nos pequenos cansaços que perfuram como facas, ou facas que perfuram e fazem cansaço. Eu limpo, cuido religiosamente dos quartos para ele, e não sei como irei explicar essa rachadura, esse cansaço. Se cansar do que? No quarto, sem nada além da casa […]


A casa está cansada, assim como eu estou cansada. Rachaduras se abrem nos pequenos cansaços que perfuram como facas, ou facas que perfuram e fazem cansaço. Eu limpo, cuido religiosamente dos quartos para ele, e não sei como irei explicar essa rachadura, esse cansaço. Se cansar do que? No quarto, sem nada além da casa e da sopa de batatas, cansar do que? Eu não sei, não sou eu que me canso, mas se a casa está cansada agora, talvez eu fique mais para a frente. 

Com a rachadura, veio um longo gemido muito lento enquanto se abria em diagonal a rachadura lentamente como um corpo cansado comendo uma sopa. Essas pequenas semelhanças por vezes me colocam em um estágio de dúvida, naquele momento, por exemplo, a rachadura se abria e eu pensava vai engolir ou cuspir? Poderia sair pela boca alguém que sentasse na cadeira ou me engoliria até que eu também virasse barro ou mofo, provavelmente mofo, é menos espesso. De qualquer forma, não fazia muito diferença qualquer uma das ramificações que os cansaços criam. 

Entretanto, nada aconteceu, a boca se abriu e ficou lá, se por mais cansaço ou por mais fome eu não sei, assim como também não sei como fechá-la, ou o que falar quando ele chegar. Ele geralmente é muito quieto, não dá muita atenção aos erros, não porque não se importe mas porque não sente valor em gastar sua pouca força com isso. Às vezes a sopa de batatas parece mais aguada ou mais salgada, ele só reclama e me olha com desprezo, com o olhar de quem socaria o meu estômago em outros dias. Talvez quando  o mundo existia ele fosse o tipo de pessoa que resolvesse as coisas dessa forma, sem mundo não há realmente mais razão para esse tipo de coisa. 

A única vez em que as coisas não foram assim foi também a primeira vez em que eu morri. Uma noite eu lhe perguntava e quando o mundo existia, e quando o mundo existia e ele só me dizia o mundo não existe mais, não existe mais, nunca mais. Naquela época eu ainda não sabia o que era casa, eu conhecia apenas quartos e a cadeira, e os mofos, mas eu nunca havia prestado atenção na história secreta que ele me contava por trás destas pequenas coisas, eu queria saber do mundo e de quando ele existia. Ele então me deu um soco, o mundo não existe mais. Eu gritei, tinha raiva e queria saber de quando  o mundo existia. Ele me deu um chute, o mundo não existe mais. Continuamos por pouco tempo, pois a força já era pouca naquela época, até que ele pegou a faca, o mundo não existe mais. Desisti do mundo depois daquele dia, meu sangue escorria pesado e escuro pelo chão no quarto de comer sem luz, foi a primeira vez que deitei em algum lugar que não fosse a cama, e lá escutei um ronco de fome. Sugava bem devagarinho o meu sangue, impedindo que virasse tudo poça, atencioso era o meu salvador que me impedia de limpar a bagunça mais tarde.

Enquanto morria eu pensava comigo pra quê tanto medo em se lembrar, porque tanta tristeza em me falar. O mundo não existe mais, a lâmina no meu estômago me deixou rasgado de saber que é para nunca mais, mas as coisas que não existem deixam memórias, porque não relembrar. Nos primeiros dias em que eu lembro que eram dias eu lembro que quando ele saia eu chorava, convulsivamente, achando que ele também não existisse mais, mas eu lembrava dele e lembrando eu continuava chorando mas lembrar era gostoso, como um cobertor que eu nunca tive me cobrindo dos pés ao pescoço. Nos dias mais frios eu me lembro de tudo para meu pé não cair, da mesma forma que agora eu lembro de tudo isso para me esquentar do ar mais frio, mais cortante dentro dos quartos, o bafo da boca cansada. Sempre a vida que sobre no ar pouco corta como uma navalha, meu pulmão está cheio de pequenas navalhas, barbeando os pelinhos respiratórios desse eu que vivo a vida de alguém que já viveu, irei rachar e envergar também como a casa?

Em um momento eu cansei também de estar vivo e acordado então fechei os cansaços dos olhos e fui dormir. Achei que era para sempre esse sono tão confortável e cansado mas não, morrer não é tão fácil e nem tão bom ela me dizia no sonho. Não havia rosto mas haviam braços e o que eu queria eram braços, por hora eram macios, por outras eram rugosos mas sempre muito quentes, muito muito quentes e me esquentavam e me perguntavam sobre mim e como cheguei aqui. Você já perguntou o nome dele? O que é um nome? Um nome é um órgão, bem pequeno, que fica atrás das nossas paredes, o seu é André, por exemplo. E quem ele é? Você já perguntou? Não, mas acho que ele não responderia, a questão não é responder, você mesma nunca vai responder às suas perguntas, mas perguntar faz bem, é um beijo distante pra quem amor não tem. O que é amor? Um dia você vai descobrir. Quem é você? Qual é o seu nome? Como você chegou aqui? Eu me chamo casa, toda noite eu bebo do seu sangue e você se alimenta das minhas batatas. Agora acorde, basta de palavras, morrer não é tão fácil e nem tão bom assim, viver é algo um vício muito mais complicado do que você imagina. Eu poderia me chamar Andrea? Porque? Não sei, acho mais bonito, quem sabe um dia, tem pessoas que são muitas, Andrés também pode ser, agora vai, eu vou precisar de um pouco de cimento, madeira e arrependimento para você acordar, fique em paz, dorme mas saiba que isso é um descanso, não um fim, nada tem fim nunca. Nem o mundo? Nem o mundo, mas não conte isso pra ele. 

Essa foi a primeira e única conversa didática que tivemos, o mofo e os rangidos não me falam exatamente o que é e o que não, eu improviso e vejo como vai. Esse cansaço talvez se tampe com barro, lá tem muito barro, e sangues de um sono sem sonhos, que endurecem mais e formam uma vida dura, que não cai.

Dormi então uma soneca pequena, no chão mesmo, pois haviam poucos centímetros de caminhada de luz na rachadura para que ele chegasse. Tinha colocado em meu ventre uma bolota de barro e deixei ele comer o sangue de mim, deixei ele sair e ser sugado até que o sono viesse com a fraqueza e o cansaço. Tentei pensar em nada, não imaginar nada, sonhar com nada, estar só, fazer do meu nada o concreto da casa, da minha tristeza o sal da terra. 

Não consegui, sonhei, sonhei com algo, sonhei com o barro, sonhei com meu sangue dando pele, massa e espírito. O barro adentrando dentro de mim, se dividindo em dois, o barro-forte e o barro-fraco, o barro que faz e o barro que fica, o barro que é e o barro que abre. Mal vejo dentro de mim duas bolotas de barro dormindo acordando, se estressando conversando e enfim se esfaqueando, barro-forte esfaqueia barro fraco e o barro que feito do meu sangue jorra a eu próprio meu mesmo sangue, eu lhe pego na mão como se pegasse um filho morto e lhe digo meu querido não se acanhe, a vida é mesmo uma facada, uma morte falsa, calma, que a vida passa. O barro forte vendo minhas mãos então divinas se encolhe no canto de minha costela aguardando punição, eu só tiro dele um teco de terra e digo: vocês são tudo barro, vocês são tudo eu, essa facada se chama algo, algo importante e muito esmero. Talvez se a casa estivesse aqui ela me diria algo a mais, mais sábio. Mas eu lhes digo que aquilo se chama amor, mesmo sem saber o que significa o amor. Os dois voltam e vivem dentro de mim, eu me canso e acordo, acordo com medo de eles continuarem aqui. 

O barro acorda quente, fermentado, maior. Eu o passo pelo cansaço da parede, o barro que fervilha, a vida que se forma e a noite esconde. Ele voltou e eu não morri de novo. Eu estava cansada, a casa continuava, o barro fervilhava. O frio continuava.


Tem uma pauta?
Estamos aqui

Toda ideia tem o potencial de ser uma boa ideia. Gostamos de ouvir ideias de pauta, denúncias ou sugestões de nossos leitores. Se quiser compartilhar, conte conosco — e olha, pode ser totalmente anônimo, tá?


  • Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    Após infiltração, grupos bolsonaristas no Telegram reforçam moderação

    ,

    Dois dias após o primeiro turno das eleições, usuários de esquerda passaram a infiltrar grupos bolsonaristas no Telegram. O resultado foi o reforço da moderação por parte dos administradores, e a aposta em teorias conspiratórias.

  • Todo fascista é corno

    Todo fascista é corno

    ,

    Não é difícil entender que a vontade de escrever é nula, assim como a vontade de acordar, sair da cama e realizar que esse bando de corno não tem mais medo de cantar aos quatro ventos: “sou fascista na avenida e minha escola é a mais querida dos reaça nacional!”.

  • No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    No Telegram, bolsonaristas espalham fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste

    ,

    Grupos bolsonaristas no Telegram reforçam táticas xenofóbicas e criam fake news sobre eleitores mortos votando no Nordeste.

  • Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciando um novo modelo: notas

    Anunciamos as notas, reportagens curtas sobre temas relacionados às eleições de segundo turno.

  • A falta da política externa

    A falta da política externa

    , ,

    Às vésperas da eleição mais importante desde a redemocratização, e ainda sob efeito da ressaca moral que assola o país após o clássico debate presidencial da Rede Globo, a ausência da política externa como pauta de discussão demonstra o enorme apequenamento do Brasil.

  • Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam  apoio militar na Ucrânia

    Pesquisa aponta que norte-americanos desaprovam apoio militar na Ucrânia

    , , ,

    Muitos americanos pensam que Biden deveria se apressar e encontrar um acordo diplomático. Mas para os apoiadores da Ucrânia, seja à esquerda ou à direita, a resposta é que Biden se apresse e vença, dando à Ucrânia mais ajuda militar e aceitando mais riscos.

Seja notificado de novas publicações, assine.

Ao se inscrever, o WordPress te atualiza gratuitamente toda vez que publicamos algo novo. Assim, você pode acompanhar nossa redação! Não se esqueça de nós seguir nas redes sociais.

A revista o sabiá é um veículo de mídia independente e sem fins lucrativos criado e equipado por jovens. Buscamos usar o jornalismo e a comunicação como um mecanismo de mudança do futuro das novas gerações.