Vivemos não apenas uma pandemia virológica que exige a imunização biológica, mas também uma pandemia de desinformação e negacionismo que exige a imunização racional. Um país que era referência em vacinação sucumbe ao vírus que circula nas redes sociais levando dúvida, medo, atraso e, principalmente, cegueira ideológica.

O negacionismo nada mais é que a escolha de desacreditar a realidade dos fatos como forma de escapar de verdades empiricamente confirmadas; essa negação se dá principalmente quando a informação trazida refuta posicionamentos ideológicos. O vírus espalha-se pela tecnologia e seu potencial de disseminação da desinformação existe nos mais diversos modelos, seja através das fake news (notícias efetivamente falsas e sensacionalistas que visam descredibilizar a verdade dos fatos), seja através da descontextualização, isto é, a subversão de alguma informação verdadeira para fortalecer uma narrativa específica (como alimentar o medo da vacinação na esfera da saúde pública ou a descrença no processo eleitoral eletrônico na esfera democrática).

Um exemplo das sequelas deixadas pelo vírus do negacionismo é o fato de que, em pleno 2021, 1 em cada 3 estadunidenses acreditam na “Big Lie” (Grande Mentira), ou seja, que a vitória do candidato democrata Joe Biden só ocorreu por fraude. Essa porcentagem manteve-se firme nas três pesquisas efetuadas pelo Monmouth University Polling Institute nos meses de novembro de 2020, janeiro e março de 2021, o que explicita o potencial efetivo das bolhas informativas para retroalimentar narrativas negacionistas além do período eleitoral, deixando, pois, o indivíduo ainda mais ideologicamente cego.

Dois pontos foram levantados para tentar identificar como o vírus da Big Lie se espalha. O primeiro diz respeito a mídias conservadoras como a Fox News, a qual não endossa documentos apresentados por órgãos institucionais de fiscalização eleitoral que negam haver fraudes e, assim, ao passo que efetua coberturas televisivas das recontagens de votos dando margem para alimentar teorias da conspiração. O segundo ponto trata da desconfiança e do ódio promovidos por figuras públicas como Trump contra os grandes veículos de informação à medida que incentiva seus seguidores a se informarem por mídias alternativas, distanciando, pois, o espectador da verdade.

Vale ressaltar que uma série de estudos promovidos pelo departamento de comunicação da Universidade de Ohio aponta que indivíduos conservadores recebem maiores quantidade de fake news e possuem uma menor capacidade de identificá-las do que indivíduos liberais. Os estudos também apontaram que indivíduos conservadores são mais suscetíveis a acreditar nelas e levemente menos suscetíveis a crer na verdade. Isso apenas reforça as bolhas informacionais e a unilateralidade dos fatos, dificultando, por exemplo, políticas públicas de vacinação – nos Estados Unidos, mais de 99% das mortes recentes são de pessoas que não se vacinaram. A constatação apenas reforça o que os mais diversos especialistas afirmam: a única forma de frear a pandemia é por meio de medidas de isolamento, distanciamento social, espaços bem ventilados e, principalmente, da vacinação. O custo do negacionismo vem, agora, mais do que nunca, sendo pago com vidas humanas, pessoas que foram alvos de um vírus desenvolvido nos laboratórios do WhatsApp e de seus engenheiros do caos.

O peso da influência do discurso negacionista impulsionado por figuras públicas e políticas nos Estados Unidos vem, inclusive, freando o avanço da vacinação em regiões predominantemente republicanas. Cerca de mil condados estadunidenses têm cobertura vacinal abaixo de 30%, em especial, no meio-oeste e no sudeste. A resistência entre os eleitores republicanos é alimentada pela narrativa trumpista de que se vacinar é motivo de vergonha e, também, pela descrença nas vacinas dos movimentos anti-vaccine. O negacionismo anda de mãos dadas com a ideologia política: 38 dos 39 distritos com mais de 60% da população vacinada elegeram democratas para o Congresso; em contrapartida, dos 30 distritos com cerca de 30% dos cidadãos vacinados, 29 são distritos republicanos.

O Brasil não ficou de fora da pandemia do negacionismo. Segundo uma pesquisa promovida pelo Reuter Institute, o WhatsApp lidera o ranking de desinformação sobre a Covid-19 nas plataformas digitais; a velocidade de contaminação promovida pelas tecnologias transformam-nas em roteadores perfeitos para a disseminação desse vírus. Isso exige um cansativo processo de fact checking (checagem dos fatos) por parte dos grandes veículos que, muitas vezes, precisam cumprir a função de dizer o óbvio. Uma das fake news espalhadas para prejudicar a vacinação mais recentemente desmentida é a de que corpos vacinados contra o Covid poderiam ser detectados ou conectados por bluetooth; foi necessário trazer à frente especialistas apenas para constatar que corpos biológicos não emitem sinais de rádio e que, portanto, não há indícios de risco na vacinação.

No cenário brasileiro, como apontado na pesquisa publicada na revista de comunicação e mídia da Universidade de Liverpool, um terço dos respondentes que dizem evitar buscar notícias sobre a pandemia ou se informar através delas identificam-se, no espectro político, com a direita. Não obstante, a confiança em fontes oficiais varia conforme o posicionamento político. Pessoas mais próximas da direita estão mais propensas a confiar no governo federal, acreditar mais em fake news e menos em instituições externas; já aquelas alinhadas com a esquerda tendem a desconfiar do governo federal, favorecer a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os meios de comunicação como fontes mais confiáveis de informação sobre a Covid-19. Conforme o estudo, tanto Facebook quanto o WhatsApp predominam como os maiores roteadores de desinformação.

As Fake News atingem dois grupos ao mesmo tempo: aqueles que se alimentam dessas (des)informações para sedimentar suas convicções ideológicas e aqueles que, incapazes de reconhecer a mentira, sucumbem à narrativa. De fato, a verdade não é absoluta e está sujeita a críticas, entretanto existe um abismo entre a crítica baseada em dado e a puramente ideológica e sensacionalista. A primeira visa melhorar nossa compreensão do todo a partir da evolução argumentativa, enquanto a outra, apenas sequestrar a narrativa e criar uma “verdade paralela”.

Essa pandemia negacionista exige o que Tim Maia chamaria de Imunização Racional; em outras palavras, preparar o sistema imunológico racional para combater de imediato qualquer invasão que tente subverter a verdade dos fatos por meio da desinformação. Essa imunização ocorre através do bom senso, que nada mais é que o senso crítico. A leitura de fontes seguras, conjuntamente com o processo de reflexão e absorção da informação, permite que o indivíduo atinja o bom senso e que seu sistema racional reconheça de imediato fake news e sensacionalismo. O senso crítico faz do indivíduo um cidadão capaz de entender a diferença entre fato e opinião, o que separa uma verdade cientificamente comprovada de uma opinião ideologicamente formulada.

Para efetivamente combater o negacionismo, é preciso não só entidades de checagem da informação, mas de uma população racionalmente imunizada. Da mesma forma que, para a Covid-19, são indicados distanciamento social, testagens em massa, áreas arejadas e vacinação, para o vírus do negacionismo, a receita são fontes confiáveis, discernir fato de opinião, responsabilização daqueles que disseminam desinformação, atuação efetiva das redes sociais na moderação dos conteúdos que circulam em seus feeds (depois do banimento da conta de Trump do Twitter houve uma redução de 73% de publicações tratando de fraude eleitoral, por exemplo) e, sobretudo, bom senso. Quanto mais pessoas racionalmente imunizadas, mais efetivo se torna o combate à propagação do negacionismo, principalmente como forma de proteger aqueles que não possuem instrução – muito menos culpa – e acabam sendo vítimas de tais narrativas.

Sabiá

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