Gatas Extraordinárias


Acho que, naquela noite, já completavam duas semanas… Acontece que já faziam alguns meses que a pandemia tinha acabado e eu não cabia dentro de mim; depois de tanto tempo isolado, eu finalmente tinha algum contato com pessoas e aquilo, de certa forma, era até um pouco estranho. Só sei que passei a sair quase […]


Acho que, naquela noite, já completavam duas semanas… Acontece que já faziam alguns meses que a pandemia tinha acabado e eu não cabia dentro de mim; depois de tanto tempo isolado, eu finalmente tinha algum contato com pessoas e aquilo, de certa forma, era até um pouco estranho. Só sei que passei a sair quase todos os dias com a galera de que gosto: baladas, bares e qualquer buraco com teor alcóolico e fácil acesso para ambulâncias poderia ser escolhido. Mas, como eu estava falando antes, já faziam duas semanas que… bem, encontrei o amor da minha vida. Ela só não sabe disso ainda.

Em qualquer boteco de qualidade duvidosa aonde fôssemos, ela estaria; era impressionante como aquela criatura tinha a capacidade de estar em qualquer lugar da noite onde estivéssemos. Como qualquer pessoa imaginaria (talvez só eu), o amor me pegou… Acho que, depois de tanto tempo em casa, eu merecia me apaixonar por alguém, talvez seja só carência, mas alguém lendo isso se opõe? (Pelo silêncio enquanto conto minha história, acho que não). O que o corno do cupido não tinha pensado é que faziam dois anos que eu só conversava com paredes e meu gato, então digamos que minhas habilidades de flerte e conquista não estavam em dia (eu acabei de escrever “flerte e conquista”, então talvez essas habilidades só existam no programa do Rodrigo Faro). Durante todas essas saídas, não consegui nem chegar perto daquela criatura e muito menos das gatas extraordinárias que andavam junto com ela. Foram só trocas de olhares e muito frio na barriga. Mas agora tem que ser, tenho que pegar, não descanso enquanto não pegar (parece até que eu sou determinado, né?)

Acordei naquela sexta e já mandei mensagem pro grupo de alcóolicos anônimos que, na verdade, eram minhas amizades: “Pra onde a gente vai hoje?” (Eu nem queria saber, era só pra tentar animar alguma coisa). Ajeitamos tudo e já comecei a traçar o plano de como finalmente faria pra chegar naquela criatura: ofereço uma cerveja? Tropeço e me esbarro nela? Por que é que eu tô pensando nessas opções se eu sei conversar como uma pessoa normal? Não sei. Só sei que o plano era não ter plano.

Finalmente anoiteceu e fomos pra um barzinho que simplesmente parecia um cativeiro (olha que eu não sou exigente). Tomamos várias, passaram algumas horas, e, para minha enorme surpresa, ela não estava lá. Eu já tava meio tonto, então, nesse momento, me bateu uma melancolia no melhor estilo Vinícius de Moraes em “Onde anda você? (“Numa boemia sem razão de ser…” Ai vou chorar), mas não, hoje não é dia de sofrer, hoje tenho que pegar. Pegamos o carro e saímos na noite à procura, meu coração batia forte com aquela pista escura.

Resolvemos ir para o bar que fomos na semana passada (esse também parecia um cativeiro, mas um cativeiro mais simpático) e, por muita sorte, ela estava lá, minha criatura. Suo frio, tremo, me entrego, fui?… Será que ela quer? Será que meu plano é bom? Será que é no tom? (Por que eu penso tanto?) Me perdi tanto em meus pensamentos que perdi ela de vista, mas quando olho pro lado… Não é que a criatura veio me pegar?


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