A diplomacia brasileira e a superação do olavismo


Há diversas formas que um país pode adotar como sua postura nas relações internacionais. A adoção de uma postura correta diz muito sobre quais serão os rumos econômicos e políticos de uma nação. O Brasil, a partir de sua independência em 1822 fez a mais importante de suas escolhas diplomáticas: o país não seria uma […]


Há diversas formas que um país pode adotar como sua postura nas relações internacionais. A adoção de uma postura correta diz muito sobre quais serão os rumos econômicos e políticos de uma nação. O Brasil, a partir de sua independência em 1822 fez a mais importante de suas escolhas diplomáticas: o país não seria uma potência militar. Essa escolha trata-se de uma decisão importante que reflete na política de todo continente até os dias de hoje.

Várias questões levaram a essa decisão, a primeira a ser apontada foi o cenário internacional: em 1823 os Estados Unidos, que adquiriram sua independência entre 1775-1783 davam início a uma política decisória para o futuro do continente americano: a Doutrina Monroe, desenvolvida pelo presidente homônimo, James Monroe. Nela, os Estados Unidos buscavam sua consolidação como liderança do continente americano frente às potências europeias, colocando aos EUA o papel de garantir a soberania do continente e o desenvolvimento dos países, o que mais tarde se transformou na política imperialista dos Estados Unidos sob o continente, mas que não será o enfoque desta publicação. Dado o cenário, o desenvolvimento militar brasileiro poderia ser visto como uma afronta a gerar conflitos com o país do norte. Outro fator impactante foi a questão territorial: o Brasil conta com fronteiras extremamente vastas e em boa parte pouco habitadas, sua proteção militar necessitaria de um contingente gigantesco de soldados e de recursos incontáveis para a construção de bases e desenvolvimento de cidades. Os países vizinhos, mais fragmentados e menos populosos não se mostravam como ameaças e a via diplomática tornou-se viável – é importante ressaltar que a decisão brasileira em não se tornar uma potência militar também contribui para a estabilidade da América do Sul, pois o restante dos países também optou pelo enfoque diplomático e pacífico.

Com a decisão tomada de seguir pela via diplomática, outros investimentos vieram a ser feitos: o Brasil apoiou-se em iniciativas multilaterais estando ligado à criação e fortalecimento de diversas instituições, como a Liga das Nações, a Organização das Nações Unidas (ONU), os BRICS, o G20, etc. O multilateralismo é uma forma de decisão vantajosa pois é capaz de aumentar a voz de países pouco relevantes no cenário internacional, é claro que as grandes potências possuem mais força, muitas vezes com poder de veto sobre recursos, porém com a união de vários países dos considerados periféricos, seu poder de barganha aumenta, e nesse aspecto o Brasil historicamente se coloca como uma liderança do terceiro mundo.

Sendo comercialmente um país ainda muito fechado e com pouca relevância tanto no mercado de importação como exportação – com exceção das commodities -, o Brasil utiliza-se de suas características conciliatórias para arraigar espaço dentre os gigantes da política internacional, característica essa que mudou com a chegada de Jair Bolsonaro à presidência, algo que foi mostrado em seu primeiro discurso internacional na abertura do fórum de Davos em 2019, onde utilizou apenas seis dos trinta e cinco minutos ao qual tinha direito, o que chegou a gerar uma queda nos índices da Bolsa de Valores brasileira, a Ibovespa. Geralmente, o espaço em Davos é utilizado para atrair investidores, que inclusive naquele momento estavam dispostos a investir no Brasil, pois acreditavam na política liberal do governo e na imagem pintada sobre Paulo Guedes, que viria a se mostrar um desastre com o tempo – o que também não é o tema a ser abordado aqui.

O histórico diplomático em si

Sabendo que a diplomacia ‘amigável’ e o apoio ao multilateralismo são tradições das relações exteriores brasileiras, ainda podemos dividir o histórico em duas correntes: a credibilista e a autonomista, ambas com nomes bastante explicativos.

Na vertente credibilista há certo sacrifício e se renuncia a alguma liberdade de ação em nome de uma credibilidade no mercado internacional, que conseguiria atrair investimentos e apoio político. O principal nome dessa corrente foi o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que buscou através de uma política liberal atrair investimentos estrangeiros no Brasil e teve relativo sucesso.  A globalização é um fator impulsionador ao pensamento credibilista, pois aumenta o fluxo de capitais e a importância de se estar inserido no mercado se torna maior. Outros governos de vertente credibilista em nossa história foram o de Juscelino Kubitschek (1956-1961) e o primeiro presidente após o golpe de 1964, o ditador Humberto Castello Branco (1964-1967).

Se os credibilistas recorrem ao prestígio internacional, os autonomistas possuem um discurso mais voltado a liberdade de ação, sem restringir-se a determinados papéis esperados no cenário internacional, muitas vezes os autonomistas priorizam a relação com países do terceiro mundo e afastam-se dos Estados Unidos, que costuma figurar como o principal parceiro dos credibilistas. Os presidentes que seguiram mais à risca a linha autonomista foram os militares que substituíram Castello Branco: Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo.

Os governos petistas entre 2003 e 2016 tiveram uma característica muito própria, principalmente durante o governo Lula (2003-2010), pois o Brasil tanto foi capaz de manter uma credibilidade internacional que o possibilitou uma grande proximidade aos Estados Unidos – Lula era, inclusive, amigo pessoal de George Bush e posteriormente teve boas relações também com Barack Obama – e o Brasil em 2007 se tornou parceiro estratégico da União Europeia, como, ao mesmo tempo, expandir sua influência nos países do terceiro mundo, principalmente na África. Durante esse período, mais de 200 embaixadas foram abertas pelo mundo, o que foi motivo de críticas por setores credibilistas, que apontaram não haver retorno para gastos tão grandes e era necessário maior foco nos países ricos que poderiam trazer investimentos para o Brasil.

Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo e Carlos França

É importante ressaltar: a chegada de Jair Bolsonaro ao poder não é um fenômeno em si, ela representa um movimento global que alia características de um momento histórico específico e explora a insatisfação com a classe política – no caso brasileiro, a representação da insatisfação com a classe política vem com um político com mais de 30 anos de carreira – e esse movimento não aceita nenhuma das heranças políticas de um país, independente de quais sejam. Bolsonaro, por exemplo, exalta a ditadura militar mas não exalta os presidente militares, a figura em que ele se apoia e cita com maior frequência é do torturador Brilhante Ustra.

Negando toda a herança política, aliado a um ataque às instituições que o cercam, como a imprensa, a academia e os intelectuais, as organizações multilaterais e afins, Bolsonaro baseou sua política diplomática de forma bem simples: o personalismo, ou seja, o Brasil não se relaciona com outros países, Jair Bolsonaro (ele, não o Brasil) se relaciona com outros governos. A veneração aos Estados Unidos não é aos Estados Unidos, é a Donald Trump, tanto que as relações entre Brasil e EUA se estremeceram com o novo governo, a política externa é usada para legitimar o discurso doméstico e não para atender aos interesses do país. Uma política como essa, em qualquer que seja a ocasião, será danosa para o país, mas ele consegue sobreviver-lhe, agora o cenário muda quando um evento inesperado e único como uma pandemia acontece.

Com o isolamento gerado pela pandemia, afinal, é possível enumerar nos dedos os governos com qual o Brasil é capaz de dialogar, o Brasil ficou isolado na busca pelas vacinas e não houve, por parte de país algum, o interesse em apoiar o Brasil, diferente da postura adotada com a Índia no momento em que os casos de Covid tiveram forte crescimento no país.

Ernesto Araújo isolou o Brasil e orgulhou-se disso, aceitou de bom grado o papel de pária internacional e tomou decisões que envergonharam o Brasil no cenário internacional, como votar junto com Arábia Saudita e outras ditaduras em uma medida contrária aos direitos humanos, isso sem abordar os constrangimentos criado com a China, nossa principal parceira comercial e responsável pelo envio de reagentes necessários para a produção da vacina no Instituto Butantã. Araújo não tinha currículo para ocupar o cargo de chanceler, sequer havia chefiado uma embaixada, sua escolha foi unicamente ideológica: Ernesto é um ‘olavista’ de carteirinha, sua própria insanidade e sua luta contra os moinhos de vento o derrubaram.

O chanceler Carlos França, que completa três meses no posto, mostra claras mudanças na condução da diplomacia brasileira. Claras, mas tímidas. O Brasil se absteve da votação repudiando os embargos dos Estados Unidos contra Cuba na 29ª Assembleia Geral das Nações Unidas; na 28ª Assembleia o Brasil votou favoravelmente, junto aos Estados Unidos e Israel, o placar havia sido 187 a 3 – em todas as Assembleias anteriores o Brasil havia votado contrariamente ao bloqueio.

Apesar das tímidas mudanças, França tomou uma atitude importante no início desta semana: exonerou o olavista Roberto Goidanich da presidência da Fundação Alexandre Gusmão (FUNAG), órgão destinado a promover estudos e debates no Ministério das Relações Exteriores, que vinha desde o início do governo Bolsonaro ‘olavizando’ o setor. A exoneração é o segundo passo para a superação do fascismo de Olavo das relações exteriores brasileiras: o primeiro havia sido a saída de Ernesto, o próximo será a saída de Jair Bolsonaro.


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